The Cribs – Night Network

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 43 min.
Faixas: 12
Produção: The Cribs
Gravadora: Sonic Blew

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Não ouvia nada do The Cribs desde o fim dos anos 2000, quando o trio de Yorkshire estabeleceu uma parceria (e acompanhou) Johnny Marr. O tempo desta colaboração foi de três anos e gerou um álbum, seu quarto, “Ignore The Ignorants”. De um trio semi-desconhecido, o grupo ganhou fama e notoriedade e, ainda que Marr tenha saído pouco tempo depois, os irmãos Gary Jarman (baixo, voz), Ryan Jarman (guitarra, voz) e Ross Jarman (bateria) seguiram fazendo a sua própria versão do rock alternativo inglês em tempos de mudança, ou seja, pitadas de pós-punk revisto, doses de algum rescaldo britpopesco aqui ou ali e alguma ressonância de influências sessentistas/psicodélicas pairando no ar, como se Byrds ou Beatles espreitassem em algum canto. Não surpreende, portanto, que este novíssimo “Night Network” reencontre os irmãos ainda próximos a esta listinha de referências, mas enfatizando muito mais na fluência powerpop do que em qualquer outro item. Tudo neste novo álbum é deliberadamente simples, harmonioso e feito para grudar nas mentes dos ouvintes.

 

“Night Network” foi gravado no estúdio 606, de propriedade de Dave Grohl, em Los Angeles e tem a participação de Lee Ranaldo, ex-Sonic Youth. A ideia foi exorcizar demônios internos, colocar em dia as afinidades entre os irmãos e, por que não, dar uma chacoalhada na fórmula musical da banda. Deixar de lado algumas passagens mais estilísticas de trabalhos anteriores, mais conceituais, e deixar fluir essa belezura powerpop chicletuda que sempre acaba agradando. Sendo assim, apenas com baixo, bateria e guitarra, auto-produzidos e tocando ao vivo num estúdio camarada, os Cribs conseguiram uma discreta reinvenção, uma reformulação em busca talvez do prazer de tocar juntos, de compor e pensar que tal canção vai tocar no rádio, ser cantada em shows, subir nas paradas. A velha mitologia da banda de rock se ouvindo, esperando pelos primeiros feedbacks, tudo no álbum suscita este tipo de situação, uma certa ingenuidade como solução para sobreviver num mundo cínico e materialista.

 

Das doze faixas do álbum, apenas uma ultrapassa a marca dos cinco minutos – “I Don’t Know Who I Am – justo a composição que tem a participação de Ranaldo na guitarra extra e que é o mais próximo que os Cribs chegam de uma baladinha. O ritmo é mais lento, a bateria marcada, mas nada é tão melancólico a ponto de turvar o olhar. As harmonias vocais são belas, as guitarras dialogam e tudo funciona. Mas é nas faixas mais rápidas e propulsionadas por este mix de powerpop e rock alternativo que a coisa funciona às mil maravilhas. O tesouro do disco já chega na segunda faixa, “Running Into You’, que é um chiclete da melhor qualidade. Guitarras altas, porém harmoniosas, baixo pulsante, bateria com vida própria e os vocais conduzindo uma melodia que parece saída de uma sessão de gravação dos Monkees em 1968. Tudo é absolutamente perfeito e tal fato só deixa o ouvinte na expectativa por mais, muito mais.

 

“Never Thought I’d Feel Again” é outra lindeza de palminhas e gritinhos de harmonia no refrão que explode após outra melodia angelical ser levada a cabo. Novamente as guitarras são o ponto alto do arranjo, junto com as harmonias vocais. “Deep Infactuation” já adentra um pouco o terreno da new wave americana do início dos anos 1970, talvez no sentido “The Cars” do termo, mas o forte é a explosão adolescente que chega em “She’s My Style”, com continuação direta na emoção romântica de “Under The Bus Station Clock”, mais uma pequena pepita melódica com vocais bem tratados. A lírica e pesadinha “The Weather Speaks Your Name”, a bela e beatlemaníaca “Siren Sing-Along” e a maravilhosa “Earl & Duke” conduzem o ouvinte para a derradeira – e barulhenta – “In The Neon Night” – que celebra as virtudes do pop britânico sessentista com fervor.

 

“Night Network” é um disco raro e que vai passar batido por aqui. Não perca, caia dentro e conte pra todo mundo que ama rock sessentista revisitado, powerpop cristalino é ótimos arranjos de guitarras e vocais. Não tem erro.

Ouça primeiro: “Running Into You”

 

+2

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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