Black Keys retoma a boa forma em disco de covers

The Black Keys – Peaches!
45′, 10 faixas
(Easy Eye/Warner)
(4,5 / 5)
Lançado em 1º de maio de 2026, “Peaches!” não é um álbum que busca o futuro da maneira convencional ou através de artifícios tecnológicos; em vez disso, ele cava o passado para encontrar o que ainda pulsa sob a terra e as ranhuras do tempo. Dan Auerbach e Patrick Carney atuam aqui como curadores de um museu em chamas, gravando tudo em uma única sala para capturar a eletricidade instável do momento e a crueza da performance ao vivo, antes que a essência se perca na polidez digital. O disco encerra com vigor uma jornada de reconexão iniciada com o tributo a Junior Kimbrough em “Chulahoma” (2006) e consolidada no blues pantanoso de “Delta Kream” (2021), resultando no trabalho mais despojado, visceral e intencionalmente imperfeito da dupla em décadas. Essa “vibe” de jam session improvisada no calor do estúdio prioriza o instinto sobre a técnica, transformando cada faixa em um documento vivo de resistência analógica.
O repertório é uma aula de história do blues aplicada, onde o Black Keys sequestra clássicos do estilo e do pub rock para dar a eles a sua versão da sujeira original. Fazer cover, aliás, nunca foi um problema ou um tabu para a dupla; pelo contrário, é onde eles costumam brilhar. Como esquecer que a nossa gravação preferida da banda é justamente a releitura de “Never Gonna Give You Up”, de Jerry Butler, imortalizada lá atrás no álbum Brothers? Em Peaches!, essa tradição se renova: em “She Does It Right”, eles injetam crueza americana na urgência britânica do Dr. Feelgood, homenageando a técnica cortante do guitarrista Wilko Johnson com uma elasticidade lo-fi. Já em “Who’s Been Foolin’ You”, a estrutura criada originalmente por Arthur “Big Boy” Crudup — o homem que deu a Elvis os alicerces do rock — é despida de qualquer artifício moderno, focando apenas na tensão entre a bateria de Carney e os acordes saturados de Auerbach.
A viagem geográfica continua com “Stop Arguing Over Me”, onde a influência hipnótica do Mississippi Hill Country se manifesta na repetição de riffs que bebem diretamente da fonte de Junior Kimbrough.
O single “You Got To Lose” faz jus a uma das bandas mais bacanas e subestimada de todos os tempos: George Throwgood And The Destroyers, trazendo una leitura particularmente legal de um de seus maiores hits. Ao interpretar “Tomorrow Night”, a dupla resgata o cancioneiro de Lonnie Johnson, mas ignora o refinamento do jazz-blues para fazer algo mais próximo de um rito noturno, onde o reverb parece ser o único instrumento que não é de carne e osso. Não há aqui o desejo de superar os mestres, mas de estar junto deles.
Essa entrega física ganha um peso existencial e uma camada de luto transformado em celebração quando entendemos que “Peaches!” serviu de âncora para Dan Auerbach durante o processo de despedida de seu pai, Chuck Auerbach. O álbum foi moldado para ser o registro que Chuck, um entusiasta confesso das raízes mais ásperas e ruidosas da banda, gostaria de ouvir, tendo sido registrado de maneira absolutamente informal no estúdio Easy Eye Sound. Mais do que um projeto comercial, as sessões serviram como uma válvula de escape necessária para Dan durante o período de maior acirramento da doença que terminaria por levar seu pai, o que explica a urgência e a falta de filtros em cada take. Não à toa, a dupla declarou em entrevista que todas as canções do álbum foram registradas, no máximo, em seu terceiro take.
No balanço final, “Peaches!” se impõe não por uma nostalgia gratuita, mas por não dar nenhuma importância para o mercado. Em tempo de produções milimetricamente calculadas para satisfazer métricas de streaming, Dan Auerbach e Patrick Carney insistem que a vitalidade da música reside no erro, no ruído e na verdade compartilhada entre dois músicos e seus fantasmas particulares. Este trabalho prioriza imperfeição e honestidade. Bacana.
Ouça primeiro: “Where There’s Smoke, There’s Fire”, “Stop Arguing Over Me”, “You Got To Lose”, “Nobody But You, Baby”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
