A eterna majestade de Grant Lee Phillips

Grant-Lee Phillips – In The Hour Of Dust
47′, 11 faixas
(Yep Roc)
(4,5 / 5)
Grant Lee Phillips é meu cantor preferido dos anos 1990. E um dos mais querids de todos os tempos. Sua voz é impressionante, capaz de percorrer uma montanha russa emocional de agudos, graves, tudo isso com uma infinita habilidade que sempre resulta em alguma surpresa. O tom derramado de suas interpretações sempre amplifica a poesia das canções que escreve e tudo isso constitui uma experiência intensa para o ouvinte. Como se não bastasse isso, ele é um baita compositor, que partiu do rock torto e genial do Grant Lee Buffalo – sua banda nos anos 1990 – para uma carreira solo perene, bela, que já está no décimo-segundo álbum. Este belíssimo “In The Hour Of Dust” pode ser, inclusive, o seu mais bem acabado triunfo estético e conter o mais belo conjunto de canções que ele compõe desde, sei lá, “Mighty Joe Moon”, o segundo do Buffalo, no longínquo ano de 1994. A inspiração veio de uma pintura indiana que Grant viu enquanto visitava o Norton Simon Art Museum em Pasadena, Califórnia, há alguns anos. Seus detalhes finos eram cativantes, mas foi o título — In the Hour of Cowdust (Na Hora da Poeira de Vaca), que lhe chamou a atenção.
Ele explica: “A sacada do título da pintura tem a ver com um tema que é comum na Índia, chamado ‘a hora da poeira de vaca’, aquele momento do dia em que as vacas são levadas de volta para casa, e elas levantam poeira; isso é um sinal para preparar as lamparinas. A noite está prestes a cair.” Modificando levemente o título para “In the Hour of Dust (Na Hora da Poeira)”, Phillips usou a pintura como inspiração para seu 12º álbum solo. Ao longo de onze faixas, ele utiliza letras contemplativas, apoiadas por uma música atmosférica para desenrolar uma série de apontamentos que oscilam entre baladas pessoais e canções sobre o momento que os estados unidos atravessam como país e mesmo como ideia. Segundo palavras do próprio Grant: “este disco é contemplativo, eu tento achar sentidos e significados num tempo de confusão, como se o nosso caminho estivesse cheio de poeira. Uma poeira irreal”.
O grande barato aqui é que Grant consegue equilibrar essa crítica-observação da ruína humana atual com canções quase autobiográficas e faz com que ambos os troncos temáticos acabem convergindo e comprovando o outro. Em “Bullies”, por exemplo, canção que fala dos valentões que nos atormentam a vida quando somos crianças, ele constata que, quando esses sujeitos crescem, continuam sendo os mesmos e nada muda. Em um lugar como os estados unidos atuais, a crítica ultrapassa o âmbito biográfico e se espalha por todos os cantos, algo totalmente intencional e relevante. “Às vezes parece que os valentões nunca deixam de ser valentões. Eles assumem empregos que os recompensam por serem pequenos sociopatas. Eles vão para o mundo dos negócios. Eles vão para o governo. Esta é uma música para o resto de nós que está mais do que cansado dos valentões.” ele conta. “Bullies” é a primeira parceria de Grant em um trabalho solo, no caso, com o pianista Jamie Edwards.
Não há canção ruim em “In The Hour Of Dust”. Tudo aqui é belíssimo, ancorado num instrumental econômico de violão e piano, secundados por baixo acústico e bateria, num efeito de contemplação total. A questão da observação dos fatos já dá as caras logo na abertura, com “Little Men” na qual, em meio a uma melodia austera e bela, Grant lamenta que, mesmo depois de tanto tempo, as liberdades americanas “ainda não são garantidas a todos”. Em “Closer Tonight” é feito o contraponto entre ciência e crença religiosa, como dois extremos de um cabo de guerra existencial. Ele completa: “Estamos mais perto do que nunca de alcançar nosso maior potencial, mas também mais perto do que nunca de encomendar a nossa autodestruição.” Outra canção pessoal, “Did You Make It Through the Night Okay”, reflete a herança indígena de Phillips como cidadão registrado da nação Muskogee (Creek).
Ele explica: “Não há uma palavra para ‘bom dia’ na língua Muskogee (Creek). Existe, no entanto, a expressão ‘Estonkon cukhayvtikv’, que se traduz, mais ou menos, como ‘Você passou bem a noite?’. Fiquei impressionado com a hipérbole irônica e o humor sombrio desta saudação. Ela reflete aqueles que vivenciaram dificuldades e veem cada dia como uma nova bênção. Isso me pareceu a maneira perfeita de cumprimentar a manhã, especialmente hoje em dia.”
“In The Hour Of Dust” é um desses álbuns feitos para audição íntima, quieta, prestando atenção nas letras e nos arranjos. As canções exigem atenção, carinho, compreensão. É um pedido de calma, de “calma aí” na alucinação diária. O resultado vem em forme de beleza, contundente e necessária.
Ouça primeiro: o disco inteiro.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
