Superhomem – a canção: quarenta anos depois

 

 

É fato bem conhecido que filmes protagonizados por super-heróis de quadrinhos, em especial os da editora Marvel, são o esteio da indústria cinematográfica norte-americana nesta década e na anterior. Há quem diga que este ciclo começou com o longa de estreia do Homem-Aranha dirigido por Sam Raimi e lançado em 2002. Há também quem afirme que a era de ouro dos super-heróis em telas grandes começou em 2008 com o primeiro filme do Homem de Ferro. Na verdade, este ciclo, que já é considerado um gênero cinematográfico dada a grande quantidade de obras do tipo produzidas nos últimos anos, começou para valer com Superman – o filme, de 1978. Além de preservar a memória do ator Christopher Reeve, que interpreta o Super-Homem com atenção especial para as nuances de cada faceta do personagem, ao contrário do ator que encarna o herói nos filmes atuais, o inexpressivo Henry Cavill, que certamente foi selecionado para o papel mais pelo visual do que pelo talento dramático, Superman – o filme foi a primeira superprodução de cinema dedicada a um super-herói de quadrinhos que fez sucesso tanto com críticos quanto com o público. Mesmo que os efeitos visuais do filme dirigido por Richard Donner pareçam antiquados para os olhos de hoje, acostumados com CGI, o ótimo elenco, a irretocável trilha sonora e o roteiro inteligente e épico fazem com que Superman – o filme desafie o tempo e continue a agradar espectadores neste século.

 

Superman – o filme serviu de inspiração para outro produto cultural altamente relevante. Lançada por Gilberto Gil há quarenta anos no álbum Realce, Superhomem – a canção (o título da composição grafa o nome do personagem das HQs sem hífen) nasceu de um trecho polêmico do longa-metragem norte-americano. Palavras de Gilberto Gil: “Caetano chegando da rua, falando muito, entusiasmado. Tinha assistido o filme Superhomem (sic). Falava na sala com as pessoas… eu fiquei curioso e me juntei ao grupo. Caetano estava empolgado com aquele momento lindo do filme, em que a namorada do Superhomem (sic) morre no acidente e ele volta o movimento de rotação da Terra para poder voltar o tempo e salvar a namorada. Com aquela capacidade extraordinária do Caetano de narrar um filme com todos os detalhes, você vê melhor o filme ouvindo a narrativa dele do que vendo o filme”.  Mario Puzo, autor do roteiro original, não concordou com a inclusão desta solução mágica em seu trabalho e manifestou sua insatisfação publicamente, mas o público que lotou os cinemas à época para ver as façanhas do Super-Homem abraçou a suspensão de descrença e aceitou pacificamente a ressurreição de Lois Lane.

 

Gilberto Gil captou um significado profundo neste trecho do filme. O músico baiano percebeu no gesto desesperado do mais poderoso homem do universo ficcional infantojuvenil a possibilidade de redenção masculina através da emersão da sensibilidade latente no macho superpotente por causa do amor a uma mulher. O Super-Homem foi criado na década de 1930 por dois jovens judeus norte-americanos, Jerry Siegel e Joe Schuster, e representou como nenhum outro personagem midiático a visão triunfalista que os Estados Unidos tinham e ainda têm do seu lugar entre as nações do mundo. O Super-Homem é, no universo da fantasia, o duplo da supernação que voa mais rápido que um míssil nuclear e usa superforça econômica e supersentidos eletrônicos para vigiar os demais países e impingir a eles sua noção peculiar de justiça. Siegel e Schuster certamente foram motivados a inventar um personagem praticamente invencível por conta das frustrações imediatas e mundanas que encararam no início da vida adulta e não devem ter percebido o subtexto político de sua criatura. Os fracassos que todos os homens vivenciam em algum momento aparecem nas aventuras do Super-Homem quando o personagem encena Clark Kent, sua identidade civil, figura para a qual a existência é repleta de obstáculos e de acidentes. Entre os dois extremos, o da inadequação e o da superpotência, existe o herói de quadrinhos que já foi transposto para as telas de cinema muitas vezes, mas nenhuma vez de modo tão convincente e comovente quanto no filme de 1978 (e no filme seguinte, de 1980, também com Christopher Reeve como Super-Homem/Clark Kent).

 

Gilberto Gil não só intuiu o significado da ferida aberta no coração que habita o peito do “Homem de Aço”, ele o entendeu completamente. O compositor compreendeu que é a partir dessa ferida que o macho pode transcender o destino de gênero definido socialmente e abraçar um perfil mais amoroso, mais inclusivo, mais delicado. O homem pode e deve deixar aflorar sua “porção mulher que até então se resguardara” por causa da mulher — não só da mulher real, mas do princípio feminino que é parte inextricável da condição humana. A repressão da “porção mulher” do macho é parte nuclear do programa político e social conservador, que percebe o mundo em duas dimensões e nega toda e qualquer possibilidade de fluidez de gênero. Cabe destacar que Gil está falando não em bissexualidade e em homossexualidade, embora nada na canção negue ou censure estas possibilidades, mas nos princípios feminino e masculino. O homem que abraça sua “porção mulher” é um ser cuja ação no mundo é transformadora.

 

Vivemos hoje um aterrador período de ascensão da extrema-direita em todo o mundo. A escalada dos reacionários ao poder em algumas das principais nações do planeta (incluindo a nossa) é resultado também da reação negativa dos “machos brancos sempre no comando” à organização política e ao empoderamento das mulheres, da população LGBTQ+, dos negros e de outras minorias. Parte considerável do projeto existencial das pessoas nascidas dos anos 1930 aos 1950 foi o alargamento das fronteiras dos padrões de comportamento hegemônicos (sobretudo nos países desenvolvidos do Ocidente), “revolução” que ficou circunscrita à superestrutura da sociedade. As exigências do capitalismo na era da Segunda Guerra Mundial fizeram com que as mulheres entrassem com força no mercado de trabalho, fator determinante (ainda que não tenha sido o único) para que a estrutura patriarcal da sociedade fosse questionada e combatida de modo contumaz e disciplinado. Na segunda metade do século passado, surgiram os movimentos feminista, negro e LGBTQ+ como os conhecemos hoje. No mesmo período histórico o capitalismo formatou ou ajudou a formatar por razões econômicas (com o auxílio dos meios de comunicação de massa) a noção de “juventude” como grupo social definido por faixa etária e não por posição no status quo. O conflito entre a “juventude” insatisfeita com as regras impostas a ela por pessoas mais velhas instaladas nos postos de comando foi registrado e amplificado pela música popular (sobretudo através do rock), pelo cinema, pelos quadrinhos e por outras manifestações da indústria cultural. Todos estes grupos sociais (mulheres, negros, gays, jovens, etc.) lutam contra a supremacia dos homens brancos obtida e mantida pelo uso da força. Não é gratuito o fato de que a maioria dos super-heróis de quadrinhos, personagens de uma poderosa “mitologia” pop, é composta por homens brancos e adultos, a mais difundida e tolerada imagem de poder no mundo ocidental.

 

Publicada em LP e em fita cassete em outubro de 1979, Superhomem – a canção, que segundo seu autor teve letra e música concebidas em sessenta minutos, tornou-se um marco na cultura popular brasileira porque deu voz à sensibilidade masculina alternativa mais afinada com as noções de justiça revisadas à luz da história dos grupos sociais oprimidos. À época do seu lançamento, a mensagem de Superhomem – a canção era inovadora, apesar da existência de um precedente temático na obra de Gil: a canção Pai e mãe, incluída no álbum Refazenda, de 1975. Diz a letra de Pai e mãe: ” Eu passei muito tempo aprendendo a beijar/Outros homens como beijo o meu pai…/Meu pai, como vai?/Diga a ele que não se aborreça comigo/Quando me vir beijar outro homem qualquer/Diga a ele que eu quando beijo um amigo/Estou certo de ser alguém como ele é…” Pai e mãe registra de modo incontestável e comovente o conflito de gerações no que tange à percepção da masculinidade. Superhomem – a canção investe na defesa da nova masculinidade quando diz: “Um dia/Vivi a ilusão de que ser homem bastaria/Que o mundo masculino tudo me daria/O que eu quisesse ter/Que nada/Minha porção mulher que até então se resguardara/É a porção melhor que trago em mim agora/É o que me faz viver”. É uma declaração bonita e corajosa que desafia há quatro décadas as convenções sociais de um país indisfarçavelmente retrógrado.

 

Este texto poderia ter seu final feliz se o parágrafo anterior fosse o último, mas sabemos por dolorosa experiência que a humanidade mostra aqui e ali alguns marcos evolutivos enquanto permite a irrupção em larga escala de seus aspectos mais cruéis e primitivos. Assim como cada super-herói tem o seu supervilão correspondente, sem o qual suas histórias não seriam tão excitantes e agitadas, Superhomem – a canção tem seu antagonista em outra faixa do álbum Realce: Marina, composição de Dorival Caymmi cuja letra registra o desagrado de um homem com sua amada porque ela está usando maquiagem. Diz a letra de Marina:  “Marina, morena/Marina, você se pintou/Marina, você faça tudo/Mas faça um favor/Não pinte esse rosto que eu gosto/Que eu gosto e que é só meu/Marina, você já é bonita/Com o que Deus lhe deu”. Por mais que pareça ingênua à primeira audição, a composição de Caymmi revela-se exibição do desejo masculino de dominação da mulher. O rosto da morena Marina pertence não a ela, mas ao sujeito que canta (narrador na primeira pessoa) e com quem ela se relaciona, fala que explicita a negação à mulher de sua identidade pessoal e de sua liberdade. É o machismo agindo no microcosmo.

 

Gil incluiu sua leitura buliçosa de Marina no mesmo álbum em que ofereceu ao mundo a desafiadora Superhomem – a canção, gesto contraditório que evidencia o fato de que mesmo a “porção mulher” do cantor e compositor não estava imune aos ataques dos impulsos masculinos mais profundos. Para o indivíduo do sexo masculino, aceitar sua “porção mulher” e permitir que ela se manifeste livremente é um processo que inclui refluxos. Talvez a opção de Gil por incluir duas canções com mensagens opostas em um mesmo álbum tenha a ver com uma visão de mundo ligada ao yin yang taoista; talvez tenha sido um descuido do tipo “foi sem querer querendo”, ainda que este querer seja inconsciente. Não me recordo de nenhuma manifestação de Gil sobre esta contradição. Ao final, o destino de Superhomem – a canção parece ser o mesmo do personagem de quadrinhos que a inspirou: lutar incansavelmente pelo bem e pela justiça pelas décadas afora.

 

 

Zeca Azevedo

Zeca Azevedo é. Por enquanto.

2 comentários em “Superhomem – a canção: quarenta anos depois

    • 22 de maio de 2019 em 11:12
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      O Rogério não entendeu a minha piadinha ontológica. ”zeca azevedo é” significa simplesmente que eu estou vivo. O ”por enquanto” significa que a festinha sem graça, com bebida quente e comida gelada que é a minha existência acabará um dia. Espero ter esclarecido sua dúvida.

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