Alex Lahey – The Best Of Luck Club

Gênero: Rock alternativo
Duração: 40 min.
Faixas: 10
Produção: Catherine Marks e Alex Lahey
Gravadora: Dead Oceans
4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Em 2017, Alex Lahey debutou em disco com o ótimo “I Love You Like A Brother”. Nele, a cantora, guitarrista e compositora de Melbourne, fez um tratado espontâneo sobre as várias possibilidades do amor entre a geração que está na casa dos 20 e poucos anos atualmente no planeta. Ela fez isso a bordo de canções que poderiam ser de grupos como Breeders e Belly se estes tivessem surgido agora. Dois anos depois, Lahey volta, um pouco mais cascuda, vivendo esta vida de jovem e promissora estrela ascendente do rock, com um novo disco sobre sentimentos e convivência: “The Best Of Luck Club”. Nele, a moça leva adiante seu powerpop apunkalhado e virtuoso, novamente com letras e temática que orbitam os sentimentos e as decepções que envolvem essa tarefa de ter … 27 anos de idade.

 

Vejam, para quem tem quase 49 anos como eu, os 27 já ficaram pra trás há tempos e parecem meio desperdiçados hoje em dia. A gente se enxerga em outras peles quase sempre de forma inferior ao que vivemos no presente e os problemas de então parecem proporcionalmente mais simples. É interessante recordar, através de Lahey, o quanto essa visão é imprecisa e contaminada. Quando temos 20 e tantos anos, o temor da vida adulta – que já chegou -, as responsabilidades, as concessões, as conveniências, tudo já está instalado e é iminente que nos transformemos. As canções de Lahey dão conta desta convenção sócio- cultural praticamente inevitável e fazem isso com graça e humor.

 

Se o primeiro disco tinha várias guitarras em turbilhonamento, emulando até algumas sonoridades grunge à la Nirvana, este novo trabalho não deixa por menos, mas também reserva espaço para novidades. Se a primeira faixa, “I Don’t Get Invited To Parties Anymore”, segue o estilo do antecessor, já na canção seguinte, “Am I Doing It Right?”, o ouvinte já sente que algo mudou. Teclados pontuam o ritmo mais cadenciado e o canto mais harmonioso. A dinâmica do álbum se constrói nesta alternância entre a Alex Lahey moleca, de várzea, a Alex Lahey arte e essa nova versão. Ainda que apenas dois anos tenham se passado, é fácil lembrar o quanto se muda num espaço de tempo assim. Por isso, não soa descabido quando surge a bela baladinha “Unspoken History”, com pianos e harmonias que soam totalmente contextualizadas.

 

Mesmo que “Luck Club” seja diferente do antecessor, estamos falando da existência de um território compartilhado entre os discos. Isso se mostra em “Misery Guts”, que parece uma demo do Nirvana, enquanto “Isabella” surge como uma canção que tem algo de Beatles e Beach Boys em seu arranjo enfatizado em piano. Outras canções como “I Need To Move On” ou “Black RMs” têm um acento de rock mais clássico, com andamento mais lento, mas não menos interessantes por isso. É como se alguém pedisse pra vida ir mais devagar. Quantas vezes não fizemos isso? O disco encerra com outra canção climática, “I Want To Live With You”, com um arranjo oitentista de palmas sintetizadas, que lembra vagamente “Betty Davies Eyes’, de Kim Carnes, algo que, provavelmente, Alex nem desconfiou que estava fazendo.

 

“The Best Of Luck Club” é um disco tão legal e interessante quanto “I Love You Like A Brother”. É como ter uma amiga querida, ficar sem vê-la por dois anos e, do nada, encontrá-la para um bom bate-papo e ser atualizado das novidades em sua vida. Alex Lahey consegue isso, soar como alguém que a gente já conhece. E gosta.

 

Ouça primeiro: “Isabella”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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