Minha relação com o Sepultura
Em janeiro de 1994 eu tinha 19 anos. Encarei dois dias de ônibus entre Recife e São Paulo para ver o Sepultura no “Hollywood Rock” daquele ano. A banda não tinha sido escalada pela produção do festival. Toninho, presidente do fã-clube do Sepultura, recolheu sete mil assinaturas e, dessa forma, conseguiu incluir o grupo na programação. Bom negócio para os dois lados. Muito mais de 7 mil pessoas compraram ingressos para ver o show deles.
Era a turnê do “Chaos A.D.”, e dei uma sorte imensa. A apresentação se tornou histórica porque Max Cavalera foi preso depois do show, acusado de desrespeitar os símbolos nacionais. O que aconteceu, na verdade, foi que o publico jogou uma imensa bandeira do Brasil no palco, com a frase “ordem e progresso” substituída pelo símbolo do Sepultura. Quando desfraldou a bandeira, Max tropeçou nela. Era a brecha que a polícia queria…
Oito anos depois, em 2002, já como jornalista, entrevistei o Sepultura pela primeira vez. A banda era a atração principal do “Abril pro Rock”, e fiz questão de chegar ao local do show ainda na passassem de som do grupo. Não havia, ainda, nenhum repórter no local. Credenciado, entrei facilmente no backstage e encontrei Iggor Cavalera em seu camarim. Sem o menor pudor, fui entrevistar o Sepultura com a camisa da banda. Pedi licença, me identifiquei como jornalista e Iggor me deu permissão para entrar e sentar. Eu tentava disfarçar meu nervosismo, mas Iggor foi tão atencioso que relaxei de imediato. “Cara, a gente só costuma dar entrevista após os shows. Mas fica com isso aqui”. Ele então se levantou e me presenteou com um broche da banda, que imediatamente coloquei em minha camisa. Logo depois encontrei o famoso Toninho, presidente do fã-clube do Sepultura. Ao notar que eu era jornalista e que estava com a camisa da banda, apertou efusivamente minha mão, me abraçou e gritou: “O Sepultura vai botar pra foder hoje!”. Pronto! Eu estava definitivamente admitido na tribo. Desencanei e fui dar uma circulada no lugar.
Meu querido amigo Bruno Arrais, que sabia que eu teria acesso à banda, levou toda sua coleção de CDs do Sepultura para que eu pegasse autógrafos dos caras. No final do show, voltei ao backstage. Na época, eu achava errado um jornalista pedir autógrafos (uma bobagem), e falei a verdade aos membros da banda, informando que era para um amigo. Consegui entrevistar Iggor, Andreas, Paulo e Derrick, todos separadamente. Eles foram muito simpáticos e deram ótimas respostas, mas a entrevista não foi publicada por falta de espaço. Coisas de jornal impresso. Mas a cobertura do show saiu inteirinha, sem cortes.
E comecei a usar o broche do Sepultura diariamente, para qualquer lugar que fosse. Até no casamento da minha chefe, uma festa super chique em que tomei todas e…perdi o broche! Cheguei em casa inconsolável, aos prantos. Ao saber do motivo do choro, levei uma bronca da minha mãe. “Tenha vergonha! Um homem barbado chorando por essa besteira?”. Resolvi jogar baixo. “Ah é? E se você perdesse um broche que fosse presente do Chico Buarque?”. Na mesma hora recebi colo e carinho.
Pouco tempo depois, vazou a notícia que Andreas tocaria com Junior, irmão da Sandy, num evento em São Paulo. Aquilo era um pecado mortal para os metaleiros mais radicais. Liguei para Andreas e tivemos uma ótima conversa, em que ele desmistificava o fato de tocar com artistas de gêneros completamente diferentes ao dele, mesmo sendo, no caso, uma celebridade voltada para o público infantil. Tentei ligar também para Junior, mas foi impossível. Ainda assim, minha entrevista com Andreas foi publicada.
Demorou um tempo para descobrir que entrevistas antes e após os shows não rendiam. E fiz muito poucas desde então. Em outra apresentação do Sepultura no “Abril pro Rock”, desta vez em 2007, travei um diálogo divertido com Andreas Kisser. Ele estava descendo do palco principal com sua esposa, Patrícia. Ao me ver com a camisa do Corinthians, não resistiu e falou: “Que coisa horrorosa!”. Devolvi na mesma moeda: “Melhor do que ser são-paulino”. Trocamos algumas ideias e percebi que ele era extremante gente fina. Ainda fomos interrompidos por um músico local, que teve a pachorra de dizer para Andreas: “eu toco melhor do que você”. “Beleza”, respondeu o guitarrista.
Comecei a estabelecer uma boa relação com a banda. Quase sempre profissional, mas percebi que eles gostavam mesmo era de jogar conversa fora.
Alguns anos depois, num evento que reuniu Mombojó e Devotos numa boate de Recife, estava na área reservada para a imprensa e artistas tomando uma Coca-Cola, quando o querido Neilton Carvalho, guitarrista do Devotos, veio me apresentar ao Andreas Kisser, que era convidado do Mombojó para a apresentação deles. Trocamos um aperto de mão e dissemos quase ao mesmo tempo: “já nos conhecemos!”. Daquela vez não resisti e contei a história do show que tinha visto deles no “Hollywood Rock”. Acrescentei que dei muita sorte pelo fato de Max ter sido preso naquela ocasião, tornando a apresentação histórica. Andreas me olhou com uma cara meio séria e disse: “Você é um filho da puta mesmo!”. Na mesma hora, ergui a manga da camisa e mostrei minha tatuagem do símbolo do Sepultura no braço e respondi: “me respeita, porra!”. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
Ainda tive outra oportunidade de falar com eles, num show gigantesco que fizeram no Marco Zero do Recife, em 2010. Meu editor no “Recife Rock”, Guilherme Moura, outro querido amigo, me alertou: “olha seus ídolos passando aí” O local ainda estava razoavelmente vazio, quando vi passarem juntos de mim Andreas, Paulo e Derrick. Iggor já tinha saído da banda. Resolvi deixá-los em paz. Afinal, eles não tinham me visto e não quis interromper um momento que parecia ser deles.
Minha única frustração é nunca ter conseguido esbarrar ou conversar com o Max Cavalera, que considero um gênio, à sua maneira, claro. Ele é um excelente letrista e um inigualável compositor de riffs.
É muito legal quando você percebe que os artistas que mais admira na vida são gente como a gente. E, no caso do Sepultura, todo mundo é gente finíssima.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
