O tesouro do Jorge Cabeleira

O Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis foi a banda da geração mangue que mais investiu na psicodelia nordestina. Sua sonoridade abarcava Alceu Valença, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga e Lula Côrtes, todos eles embalados numa estética lisérgica, que conferia uma identidade autoral muito bem definida ao grupo. A ascensão da banda foi meteórica. Formada em 1994 por Dirceu Melo (voz, guitarra, violão e sanfona), Rodrigo Coelho (baixo e vocais), Beto (guitarra, violão, voz e teclados), Davi (bateria e vocais) e Mezel (percussão e vocais), o Jorge Cabeleira descolou logo um contrato com o “CHAOS”, selo da gravadora Sony, e debutou em disco no ano seguinte com a homônima obra-prima.
“Jorge Cabeleira e o Dia em Seremos Todos Inúteis”, o álbum, foi lançado em 1995, produzido por Frejat nos estúdios “Nas Nuvens”, no Rio de Janeiro. Um ano antes, em 1994, a banda foi uma das atrações da segunda noite do festival “Abril pro Rock”, que teve o mérito de mostrar ao mundo toda a cena que acontecia na então efervescente Recife. A banda repetiu a dose na edição do ano seguinte, em 1995. Já era uma queridinha da imprensa nacional antes mesmo de lançar seu primeiro disco. E a fama era merecida. Dirceu, além de excelente músico, é também um compositor de mão cheia. Frejat chegou a compará-lo (nas devidas proporções, claro) ao gênio Dorival Caymmi. Sobretudo pelas temáticas do guitarrista, que abrangiam a natureza rústica e, sobretudo, o mar.
O álbum de estreia possui 13 faixas, todas essenciais. É daqueles discos que, mesmo sendo ouvido pelo, digamos assim, “público comum”, merece ser escutado de cabo a rabo, sem pular nenhuma música. Afinal, sua mistura de blues, baião e rock setentista é irresistível. O disco abre com a soturna “12 Badaladas”, que logo vai se convertendo em um rockão extremamente bem executado, com um instrumental de cair o queixo. “Jabatá e o Diabo”, que vem na sequência, é outro legítimo rock regional irrepreensível, que conta como o capeta destruiu uma cidade interiorana.
Depois temos o acertadíssimo cover de “Sol e Chuva”, lançada por Alceu Valença em 1976. E vem versões hardcore entrelaçadas para dois baiões de Luiz Gonzaga, “Carolina” e “O Xote das Meninas”. A essa altura do campeonato, o ouvinte já está completamente fora de si. Pelo menos é o que acontece comigo quando ouço o álbum. E eis que Dirceu nos presenteia com uma balada perfeita, “Nervoso na Beira do Mar”, uma das preferidas da minha vida, cuja simplicidade chega a ser brilhante. “Silepse” é pura música nordestina dialogando com guitarras pesadas. E chega outro grande trunfo do disco, “A História de Zé Pedrinho”, parceria de Dirceu com Beto, em canção com uma sanfona matadora. Muitos classificam a música, pela temática, de “Faroeste Caboclo” do sertão. Poucas vezes letra e melodia casaram tão bem na história recente da música pernambucana. Porque, no fim das contas, o que o Jorge Cabeleira sempre fez foi música pernambucana falando para o mundo, como diria o antiquíssimo slogan de uma emissora de Rádio local.
“O Dia em que Conceição Subiu a Serra” era considerada o hit da banda antes do lançamento do disco. É densa, nervosa, quase raivosa. E antecede um dos grandes momentos do álbum, o cover de “Os Segredos de Sumé”, de Zé Ramalho e Lula Côrtes. Canção instrumental originalmente lançada por Ramalho e Côrtes no lendário disco “Paêbirú”, de 1975, ela teve uma releitura com letra mística no álbum que Zé Ramalho lançou em 1982. “Os Segredos de Sumé” é cantada aqui pelo percussionista Mezel, e conta com a participação especial do próprio Zé Ramalho. Chegamos então a “Recife”, um rock reto e direto que fala das mazelas da capital pernambucana nos anos 1990. “Psicobaião”, de título autoexplicativo, é justamente o que parece ser: um baião psicodélico. E o álbum é encerrado com a porrada “carnaval”
O Jorge Caleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis pagou um preço alto pela imaturidade de seus integrantes, que eram muito novos na época que estouraram. Gerenciaram muito mal a sua carreira. Fumavam quantidades industriais de maconha (nada contra), fazendo o Planet Hemp parecer uma bandinha infantil. Tudo isso está registrado no excelente documentário “A Lenda do Jorge Cabeleira”, lançado em 2016 pelo diretor Eduardo Pereira.
Sou muito grato por ter acompanhado de perto a trajetória da banda. Fui a inúmeros shows deles, muito antes de me tornar jornalista. E tenho um respeito e carinho profundos pela obra que deixaram. Em especial, por este primeiro disco que soa cada vez melhor com a passagem do tempo.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
