Ninguém soava como o Violeta de Outono no Brasil

Você já deve ter ouvido falar em âmbar. É espécie de resina fossilizada oriunda de vegetais que viveram há milhões de anos. Quando ouço o primeiro disco do Violeta de Outono, lançado em 1987, penso imediatamente em âmbar. Algo totalmente preservado, suspenso, proveniente de um tempo em que nada se parecia com o que existe hoje. E, se pensarmos no ano em que ele foi gravado e lançado, a sensação não só permanece, como se intensifica. Este álbum era uma delicada – mas resistente e belíssima – peça de âmbar já na sua origem, quando nada do que era feito pelas bandas e artistas do rock nacional soava como ele. Fabio Golfetti (guitarra e voz), Angelo Pastorello (baixo) e Claudio Souza (bateria) faziam rock progressivo em pleno boom do pós-punk como quase a única forma de rock aceita pelo Brasil daquele tempo. Tudo vinha dessa matriz que, quase que por identidade básica, ia de encontro aos ditames do progressivo. Mas, bem, nem de todo o espectro do rock progressivo e o Violeta ia nessa fresta estilística, mostrando que, não só era de outro tempo, mas que, paradoxalmente, soava à frente de quase tudo o que havia por aqui.
O Violeta de Outono era uma banda de sutilezas. Fabio, Angelo e Claudio eram sujeitos refinados e versados em coisas como Soft Machine, Pink Floyd com Syd Barrett, loucuragens praticadas pelos Beatles, psicodelia alternativa, Gong, doideiras zappianas. Quando olhavam para formações mais contemporâneas, enxergavam no Echo And The Bunnymen, talvez a mais sessentista das bandas inglesas dos anos 1980, algum parelelo estético. Sua vertente de progressivo estava muito mais próxima da origem deste tipo de rock, que aconteceu no fim dos anos 1960, a partir da psicodelia. Foram justamente Pink Floyd, Frank Zappa, Soft Machine, Van der Graaf Generator, King Crimson e esses momentos lisérgicos de Beatles e Rolling Stones, que geraram essa corrente. Na década seguinte, muitos desses grupos mudaram de sonoridade, mas outros não. E esse “prog-psicodélico” urbano, pessimista, nada afeito a duendes, capa e espada ou outras invenções fantásticas que inundaram o estilo nos anos 1970, abasteceu de inspiração o jovem Fábio Golfetti naquele tempo. Ao longo daquela década, ele foi ouvindo, entendendo e compreendendo o que essas bandas queriam dizer.
Quando chegou na virada dos anos 1970/80, ele já tinha passado por todo um circuito que ajuda a entender o Violeta. Em 1978, ainda no colégio, montou o Lux. Com a entrada do baterista Cláudio Souza em 1981, o Lux virou Ultimato, um grupo instrumental de punk jazz e no wave, sem vocal. Depois, com a chegada de Guilherme Isnard, dos Voluntários da Pátria, virou Zero — a mesma banda que gravou o compacto “Heróis” e que quase estourou no rádio. Fábio e Cláudio saíram justamente quando o Zero estava mais perto do sucesso comercial. Não queriam fazer pop. Ângelo Pastorello era amigo de colégio de Fábio, dos tempos do Objetivo e dos festivais no Teatro Bandeirantes, e foi chamado em 1984 para começar algo do zero (sem trocadilho), num porão em Pinheiros, sem pressão de gravadora.
Antes do LP, teve um caminho importante que muita gente pula. Em 1985, já como Violeta de Outono, eles gravaram uma demo com quatro músicas — “Outono”, “Dia Eterno”, “Declínio de Maio” e “Reflexos da Noite” — que começou a tocar nas FMs alternativas de São Paulo e Rio, na 89 e na Fluminense FM, as únicas que davam espaço para som fora do padrão. Isso chamou a atenção da Wop Bop Discos, o selo independente ligado à loja e ao teatro Lira Paulistana, que era o QG do rock paulistano na época. Pela Wop Bop, em 1986, eles lançaram um EP com três faixas. O próprio Fábio define esse EP como um resumo do que seria o Violeta: uma música mais pop, uma intermediária e uma mais experimental. Foi gravado em 8 canais, com poucos recursos, mas já com a cara da banda. Esse EP abriu a porta para a RCA Victor, uma major, contratar um grupo que fazia exatamente o oposto do que as majors queriam em 1986.
E foi na RCA que eles tomaram a decisão que salvou o disco do envelhecimento. Em vez de gravar cada instrumento separado, com clique e bateria eletrônica como todo mundo fazia nos anos 80, eles montaram o estúdio como se fosse um palco. Bateria num tablado, amplificadores afastados para não vazar e os três tocando juntos, ao vivo. Passaram uma semana só de pré-produção, testando takes. Nas palavras do próprio Fabio, em entrevista a Bruno Ascari, no programa “Som de Peso”: “Nessa época não dava pra consertar depois. Você gravava o som que já estava gravando, já era praticamente o som pronto”. A mixagem também foi feita na mão, com várias pessoas mexendo nos botões ao mesmo tempo. Como a sala da RCA era enorme, feita para gravar orquestra, eles usaram a reverberação natural do lugar, em vez de criar reverb artificial. Por isso o disco soa orgânico, um pouco impreciso, mas vivo. Não tem bateria programada, não tem teclado de plástico. É um disco que, como o Fábio mesmo diz hoje, “podia ter sido gravado em 69, podia ter sido gravado em 87, podia ter sido gravado agora”.
Por isso, quando você ouve esse LP hoje, não está ouvindo um disco de 1987 tentando ser 1967. São três sujeitos que tentaram o pop, não gostaram, não se identificaram, voltaram para o porão e, com a ajuda de um selo pequeno como a Wop Bop e depois de uma grande como a RCA, conseguiram gravar exatamente o que ouviam dentro da cabeça. É um disco curto, direto, sem firula, que colocou no mapa um tipo de rock brasileiro que não queria ser nem Legião Urbana nem Yes. Queria ser Violeta de Outono.
Faixa a faixa:
1. Outono (3:33) – É a porta de entrada. A letra é uma adaptação que Fábio Golfetti fez com Irene Sinnecker de um poema do chinês Li Yu, do século X, trazendo aquela ideia de I Ching e poesia oriental. Musicalmente já mostra tudo: baixo melódico, bateria leve e a guitarra com chorus e delay. Foi uma das que já estava na demo de 85 e no EP da Wop Bop, e a que mais tocou em rádios alternativas.
2. Declínio de Maio (5:02) – A faixa mais prog do antigo lado A, toda composta por Fábio. Começa quase folk, e cresce com camadas de guitarra. É onde aparece mais claramente a influência do Pink Floyd de “More” e “Ummagumma”, não o espacial. A letra fala de passagem de tempo, e o nome confirma a fixação outonal da banda.
3. Faces (3:41) – A mais pós-punk do disco, e não à toa lembra o Echo And The Bunnymen de “Porcupine”. Baixo à frente, bateria seca, guitarra fazendo arpejos cortados. É a que mais se aproximava do que se esperava de uma banda underground de 1987, mas ainda com uma melancolia que não era do pós-punk paulistano.
4. Luz (4:16) – A balada. Voz quase sussurrada, sem vibrato, com um teclado discreto por trás. Mostra que o Violeta não queria ser pesado o tempo todo mas conta com um momento de peso de guitarras que não faria feio nos anos 1990.
5. Retorno (3:52) – Instrumental curta, com clima de trilha sonora. É o elo entre os dois lados do disco. Tem uma levada quase krautrock.
6. Dia Eterno (3:37) – Junto com “Outono”, o outro “hit”. É a música mais lembrada da banda até hoje. Rápida, com refrão mais direto, com guitarra presente, mas sem solo. Se o disco tivesse um single, era esse.
7. Noturno Deserto (4:39) – Aqui o clima pesa. O título já diz: é noturna, desértica, urbana. Psicodelia dos porões da alma, nada fofa. É São Paulo às 3 da manhã.
8. Sombras Flutuantes (6:28) – A mais longa do disco. Totalmente instrumental, é a faixa que o próprio Fábio considera a mais próxima do que ele queria fazer. Sem voz, com 6 minutos de guitarra criando paisagens, comparada até hoje a “Saucerful of Secrets” do Floyd. É onde o trio mostra que não precisava de vocal para dizer algo.
9. Tomorrow Never Knows (3:58) – E aqui está a chave de tudo. Não é uma cover aleatória para fechar o disco. Segundo Fábio, essa música dos Beatles, que encerra “Revolver” (1966), foi “a música que deu a base pro Violeta existir na sonoridade da banda”. Ele mesmo descreve como “monotonal e mântrica” e disse que ela “moldou um pouco a sonoridade” que procuravam.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
