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Obra prima tardia dos Monkees faz dez anos

 

 

De todas as bandas que ajudaram a moldar o imaginário do pop rock nos anos 1960, nenhuma carregou um estigma tão injusto — e, mais tarde, uma reviravolta tão espetacular — quanto os Monkees. Criados originalmente em 1966 para estrelar uma série de televisão americana que pegava carona na histeria em torno dos Beatles, Micky Dolenz, Davy Jones, Peter Tork e Michael Nesmith foram rapidamente rotulados pelos críticos mais ranzinzas como uma farsa fabricada, os “Pre-Fab Four”. O que a indústria não esperava era que os quatro jovens atores e músicos fossem tomar as rédeas da própria carreira, rebelando-se contra os produtores para tocar seus próprios instrumentos e compor canções que bateriam de frente com o topo das paradas mundiais. Clássicos como “I’m a Believer”, “Daydream Believer” e “Last Train to Clarksville” provaram que, por trás das telas de TV, havia uma bem urdida engrenagem de produção pop.

 

Curiosamente, ao longo de toda a minha trajetória escrevendo sobre música, os Monkees nunca haviam encontrado espaço nas minhas linhas. O motivo não poderia ser mais justo. Ontem, 29 de maio de 2026, o álbum Good Times! completou exatamente dez anos de seu lançamento, tendo sido reeditado em uma caprichada edição de luxo pela Rhino Records. A data carrega uma daquelas coincidências matemáticas que os colecionadores adoram: ao mesmo tempo em que o disco assopra dez velinhas, a fundação da própria banda completa exatos sessenta anos. Trata-se de um registro que se tornou um verdadeiro milagre estético dentro da história do pop. E talvez um dos melhores discos de retorno já feitos.

 

Quando foi lançado em 2016, Good Times! quebrou uma maldição comum a álbuns de retorno de bandas veteranas, que geralmente oscilam entre a autoparódia deprimente e a tentativa frustrada de soar moderno demais. Sob a batuta cirúrgica e apaixonada do produtor Adam Schlesinger, o trio remanescente na época — Micky, Peter e Michael — conseguiu a proeza de soar jovem, enérgico e perfeitamente sintonizado com o frescor de suas gravações de meio século atrás. Schlesinger desenhou um álbum que funcionava como uma ponte transgeracional, convocando o primeiro escalão do circuito alternativo contemporâneo para escrever músicas inéditas sob medida para a banda.

 

O resultado dessas colaborações é arrasador. Rivers Cuomo, líder do Weezer, fez a linda “She Makes Me Laugh”, uma canção ensolarada, de refrão grudento e guitarras crocantes que parece ter saído de uma fita perdida de 1967. Andy Partridge, a mente brilhante por trás do XTC, contribuiu com “You Bring the Summer”, um autêntico hino de verão com aquela típica urgência rítmica que marcou o início da carreira do grupo. Da ala britânica do projeto, Noel Gallagher (Oasis) e Paul Weller (The Jam) uniram forças para compor a ambiciosa “Birth of an Accidental Hipster”, uma viagem psicodélica de andamentos contrastantes que traduz com perfeição a transição da banda rumo ao som mais maduro do final dos anos 1960. No entanto, o momento mais bonito e comovente do disco nasceu das mãos de Ben Gibbard, do Death Cab for Cutie. Em “Me & Magdalena”, Gibbard deu aos Monkees uma balada folk melancólica, de uma delicadeza tocante, onde as vozes envelhecidas e sábias de Michael Nesmith e Micky Dolenz se entrelaçam em um dueto que aperta o peito de qualquer ouvinte.

 

 

Mas a genialidade de Good Times! não parou na convocação de novos autores. A equipe de produção vasculhou os arquivos da gravadora atrás de sessões de estúdio inacabadas da década de 1960, limpando os vocais antigos e adicionando novos arranjos por cima. Graças a isso, a faixa-título abre o disco com um dueto póstumo e vibrante de Micky Dolenz com o seu eterno amigo Harry Nilsson, que havia escrito a música em 1968. A mesma magia de estúdio permitiu o resgate de “Love to Love”, uma composição de Neil Diamond que trouxe do além a voz doce de Davy Jones, falecido em 2012, garantindo que o quarteto original estivesse completo na celebração. Há espaço ainda para “Wasn’t Born to Follow”, uma pérola da lendária dupla Carole King e Gerry Goffin, interpretada com extrema sensibilidade por Peter Tork.

 

O relançamento desta 10th Anniversary Deluxe Edition acrescenta uma camada extra de interesse para quem gosta de decifrar os segredos de estúdio, trazendo em um disco bônus as versões puramente instrumentais das treze faixas originais. Ouvir essas bases sem as linhas de voz é uma aula prática de produção musical, revelando a minúcia com que Schlesinger construiu cada detalhe das guitarras de doze cordas, cada virada de bateria e cada linha de baixo estalando no melhor estilo Power Pop. O pacote bônus resgata ainda raridades que antes estavam restritas a edições físicas limitadas da época, como as ótimas “Terrifying”, “A Better World” e “Love’s What I Want”.

 

Olhar para esse aniversário de dez anos, contudo, é um exercício que inevitavelmente evoca uma ponta de melancolia. Se em 2016 o clima era de festa nas arenas e teatros, hoje o disco soa como o testamento afetivo de uma era. De lá para cá, o mundo viu as partidas de Peter Tork em 2019 e de Michael Nesmith em 2021, deixando Micky Dolenz como o último guardião vivo dessa história na terra. O próprio produtor, Adam Schlesinger, nos deixou precocemente em 2020, por conta da Covid-19.

 

Por tudo isso, estrear a minha escrita sobre os Monkees através de Good Times! deixa de ser apenas uma resenha jornalística técnica para se tornar um ato de carinho. Este álbum é o documento definitivo de que o pop feito com o coração não envelhece, não ganha rugas e não morre. É a prova de que, mesmo quando os nossos heróis saem de cena e as cortinas se fecham, o sol continua a jogar luz lá fora, seja onde for.

 

Ouça primeiro: “Me & Magdalena”, “She Makes Me Laugh”, “Birth of an Accidental Hipster”, “Good Times”, “Terrifying”, “A Better World”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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