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A Dani me apresentou ao Clube

 

 

A Dani era uma garota uns dois ou três anos mais nova, que estudou no mesmo colégio que eu e com quem, alguns anos mais tarde, passei a esbarrar eventualmente no trem quando voltávamos de nossas respectivas faculdades – eram os anos iniciais do primeiro mandato de Lula, um mundo onde a oferta de vagas públicas ainda era escassa e o crédito universitário começava a engatinhar, o que fazia com que pessoas do fim da Baixada, como nós, tivessem que se deslocar para longe de casa, fosse para uma universidade pública, no caso dela, ou uma particular de segunda classe, no meu.

 

Sempre muito inteligente, mas sem a pedância que muita inteligência costuma trazer a reboque, conversar com ela era sempre um prazer. Sei que as pautas passavam por fofocas inofensivas, música e literatura, mas me recordo de poucas coisas em específico – minha memória sempre transforma tudo em borrões. Se não me engano, ela era fã de Los Hermanos e Weezer. O que lembro com certeza é que foi ela quem me levou à literatura pop tal como conhecemos.

 

Não lembro a primeira vez que ouvi alguém falando de “O Apanhador no Campo de Centeio”. Nessa época eu estava me entendendo com Beatles, descobrindo Dylan, mergulhando em Nick Drake e em vias de descobrir Wilco e me parece meio claro que cedo ou tarde eu ia chegar em Salinger, Hornby, Douglas Coupland etc, só não dá pra ter certeza. Lembro que a Dani falou dele algumas vezes, que talvez fosse seu livro favorito ou sei lá o quê, e não duvido que talvez tenha sido ela a me emprestar uma cópia – mas é claro que não estou certo disso. Só lembro que ela defendeu o livro, explicou que aquela era a onda dele mesmo, falar sobre nada, só um adolescente meio perdido fazendo suas coisinhas de adolescente perdido, e que nisso estava a genialidade, porque aparentemente ele tinha sido o primeiro livro falando sobre algo como um adolescente perdido fazendo as coisinhas de adolescente perdido dele.

 

Sem conversas como essas, talvez eu não entendesse direito as piadas sobre o Salinger trabalhando de roteirista no programa do Mr. Peanutbutter em Bojack Horseman mais de dez anos depois.

 

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O que estou certo é que foi a Dani que me emprestou o “Clube dos Corações Solitários”, do André Takeda. E que por sua vez foi o Fred Leal, nosso finado conterrâneo mais famoso no meio indie-pop-cultural, que o tinha apresentado pra ela.

 

Foi Takeda e seu protagonista Spit, com seus pequenos problemas e grandes paixões, que abriram as portas de um mundo no qual questões como discos, filmes e romances ocupavam as mais altas prateleiras e davam respostas às coisas mais bobas e mais sérias da existência. Todos os outros vieram depois, mas, desse livro, foi André quem escreveu o primeiro capítulo.

 

A Dani ajudou a escrever o prólogo.

 

Mantive contato esporádico com o André por alguns anos depois de ler o Clube, ouvir toda a discografia do Wilco (uma das bandas do coração do autor, para a qual ele dedicou o livro seguinte, Hotel Cassino, que também li por aquela época) e todo o restante. Almocei com ele numa passagem por Buenos Aires em 2017, mas faz um tempo que não nos falamos. Para o azar de seu pequeno mas sincero grupo de fãs, ele nunca mais publicou nada. Mas pelo menos não passou décadas recluso, como Salinger.

 

Sobre a Dani, faz tempo que não tenho notícias. Tenho alguma lembrança de ter esbarrado com ela em um show, acredito que da Maglore, no Circo Voador, também já há alguns anos.

 

Mesmo sem aquelas conversas no trem lá em 2000 e tanto, me parece meio claro que cedo ou tarde eu ainda iria chegar à Maglore e provavelmente ainda estaria naquele show.

 

Só não dá pra ter certeza.

Jorge Wagner

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.

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