DestacãoMúsicaResenhas

Mais um disco sublime do nosso Radiohead favorito

 

 

 

 

Ed O’Brien – Blue Morpho
38′, 7 faixas
(Transgressive)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

Não sei se as pessoas ouviram, mas Ed O’Brien lançou um disco solo belíssimo há pouco mais de seis anos, chamado “Earth”. Nele, o guitarrista “menos famoso” do Radiohead fez uma incursão pelas três molas-mestras de sua musicalidade e, por extensão, de sua própria banda: o rock do U2 eletrônico, bem humorado e instigante da primeira metade dos anos 1990; a eletrônica das raves daquele período e uma visão entortada, lírica e original de um folk rock britânico que se perdeu no tempo. Esqueça Nick Drake, pense em Bert Jansch ou sua banda, Pentangle. Só que O’Brien, músico original e talentoso que é, usa essas inspirações de um jeito nada óbvio, oferecendo criações que podem ser muito originais. Além disso, por mérito próprio, O’Brien tem uma certa aura misteriosa, mística até, de portador de alguma verdade terrível, algum conhecimento definitivo, que ele vai imprimindo em suas canções. Há uma aura transcendente que se impõe de um jeito não-pentelho, nada-namastê, zero-gratiluz, que vai dando mais profundidade para o que ele compõe, toca e canta. Se “Earth” era exuberante e belo, por outro lado, era um disco clássico “de pandemia”, lançado em meio aos primeiros momentos da covid-19. “Blue Morpho”, que chega agora, é a consequência de tudo isso. Do lado bom e do imenso, terrível, lado ruim.

 

Logo após lançar “Earth” e perceber a situação em que o mundo se encontrava, um período barra-pesada de depressão acometeu Ed. À medida que os meses seguintes vieram, com o mundo mais e mais imerso em lockdowns, busca por vacinas e o inacreditável coro estúpido dos antivacs, a situação dele foi piorando. A solução encontrada foi atracar-se com sua guitarra, procurando não contaminar filhos e esposa, todos trancados em casa naquele momento. Essa produção improvisada, feita como meio de cura e exorcismo de angústias e medos do futuro, como nunca haviam surgido em sua vida, deram a O’Brien o esqueleto das sete faixas que compõem este novíssimo álbum. Quando pode, ele rumou para um pequeno refúgio no País de Gales e deu mais foco e forma ao que vinha fazendo. Quando percebeu que tinha algo mais concreto, convidou Paul Epworth, que já trabalhou com gente como Rihanna, Adele, Florence And The Machine, entre outros, para as primeiras sessões, que ocorreriam em Gales. Além dele, Shabaka Hutchings, músico de jazz britânico, famoso por seu tempo no Sons Of Kermit, também veio a bordo. E durante uma viagem à Estônia, O’Brien acabou criando um vínculo com o compositor Tõnu Kõrvits por causa do ícone clássico do país, Arvo Pärt; Kõrvits arranjou as cordas, tocadas aqui pela Tallinn Chamber Orchestra da Estônia.

 

Quando se sentiu totalmente recuperado e disposto, Ed deu início à construção mais formal de “Blue Morpho”. Ele, Epworth e o engenheiro de som Riley MacIntyre rumaram para o estúdio The Church, em Londres. Além deles, o sensacional Flood, responsável direto pela mutação eletrônica do U2, produtor e remixador de muitas glórias e tradições, juntou-se ao time. Juntos, eles criaram um som livre e sem regras pré-definidas. Essa mistura fica clara nas músicas: a abertura “Incantations” viaja por oito minutos de um folk psicodélico bem calmo, algo como se Donovan encontrasse o Radiohead de “The Bends” em algum lugar do espaço. “Teachers” tem a assinatura sonora de Flood, lembra os épicos sintéticos que o U2 não consegue mais fazer, com muita bateria sequenciada, clima pós-rave subentendido e mais um monte de referências sensacionais. “Blue Morpho”, a faixa-título, é uma reencarnação das orquestrações celestiais que Joe Boyd costumava criar para os discos de Nick Drake, com belezas verdes e azuis em grande manancial de sons.

 

“Sweet Spot” evoluiu do dedilhado acústico para uma melodia triste que vai ganhando corpo e drama, em meio a um arranjo que insere vozes, timbres e detalhes que soam muito melhor com fones de ouvido e total atenção. Também há algo de Nick Drake por aqui também, talvez no registro mais grave e na própria progressão da canção, coisa muito linda. “Blue Morpho” tem duas faixas “menores”, com duração inferior a três minutos. A primeira delas, “Solfreggio”, parece o amanhecer no inverno, com sintetizadores gelados que vão penetrando a pele e o espírito sem pedir licença, enquanto outros sons vão se juntando ao todo – ecos, vozes indistintas – adicionando beleza irresistível. “Thin Places”, logo em seguida, propõe o oposto pelo vértice. Também soa como o amanhecer, mas, dessa vez numa outra época do ano, algo mais borbulhante, talvez mais florestal. As flautas de Shabaka emulam sons de pássaros e seres misteriosos, novamente com um efeito belíssimo. E o fecho triunfal do álbum vem com a impressionante “Obrigado”, épico de quase dez minutos de duração, com título evocando o tempo que O’Brien viveu com a família em Ubatuba. Logo de início, a faixa tem beats e dinâmica que poderiam se encaixar em algo dos anos 1990, mas logo percebemos que estamos diante de um híbrido que tem muito de música brasileira, seja na batida, seja nos vocais de apoio, o efeito hipnótico é impressionante à medida que a faixa vai mudando e adentra um momento em que os beats somem e uma catarse instrumental meio floydiana, meio radioheadica toma lugar. Coisa muito séria.

 

Se “Earth” era genial, “Blue Morpho” consegue aprimorar ainda mais a maneira como Ed O’Brien se vale de suas influências. É disco praticamente perfeito, confessional, verdadeiro, apaixonado e com o desejo explícito de comunicar a angústia, a necessidade do contato e a possibilidade de beleza num mundo cada vez pior. É lindo.

 

Ouça primeiro: o disco todo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *