“Michael” é um verdadeiro horror total
Primeiro, as coisas boas. “Michael”, longa dirigido por Antoine Fuqua (“Dia de Treinamento”, “O Protetor”) e escrito por John Logan (“Gladiador”, “O Aviador”) sobre Michael Jackson, tem momentos bacanas de precisão técnica. As recriações de performances do Jackson 5 e solo são bem feitas, coreoagrafadas e estão por todos os cantos do filme. E o uso das canções originais do artista, seja com os irmãos, seja sozinho é, certamente, um ponto e tanto a favor. Deixa ver se há mais alguma coisa para dizer….Bem, não. Não tem mais nada. Agora é só lenha. Sim, porque, a produção de Graham King, o mesmo de “Bohemian Rapsody”, chancelada pelos administradores do espólio de Michael, coloca em xeque toda e qualquer humanidade do artista. Parece que, em vez de profissionais do cinema, estão envolvidos apenas integrantes do fã-clube de Michael, que decidiram depurar completamente os traços mais humanos e falíveis. E, quando se trata de alguém com uma personalidade notoriamente complexa, tal decisão priva o público de uma fidelidade aos fatos que seria bem-vinda numa empreitada como essa. Mas não, definitivamente não é o caso por aqui. Vejamos.
A história de Michael e seus irmãos remonta à pobreza e ao racismo americanos. Nativos de Gary, Indiana, cidadezinha operária do Meio Oeste americano, os Jacksons estariam fadados a vidas sem qualquer distinção. Numa família liderada por Joe Jackson (Colman Domingo, muito mal) os irmãos e irmãs são educados com mão de ferro e obedecem suas decisões e comando de forma absoluta. Joe é violento e não vê qualquer problema em espancar os filhos quando necessário. Sua fúria é maior com Michael, o filho prodígio, cantor principal do grupo que ensaia na sala da pequena casa. O menino é sensível, vive num mundo de fantasia, é tímido e sofre horrores com a postura do pai. Mesmo assim, Jackson 5 começa a fazer sucesso local e chama a atenção da Motown Records, sendo contratado em seguida. Se você achou esse parágrafo bem reducionista em relação à história inicial dos Jacksons, saiba que ele é fiel ao que o filme mostra. Todo um período de criatividade borbulhante, contradições e trabalho duro é resumido em quinze, vinte minutos de filme, nos quais apenas Joe aparece sendo mau, Michael sendo uma espécie de anjo bom com os irmãos, a mãe e a irmã existindo apenas de forma coletiva, imersos em clichês vergonhosos até para alunos do primeiro período de Cinema.
Daí, quando pensamos que ao menos veremos a carreira dos Jackson 5, chegaram até a ser desenho animado de sucesso, a trama dá um salto de sete anos e aterrissa já na gravação de “Off The Wall”, sm qualquer cerimônia, pulando as tretas entre o grupo e a Motown, a ida para a CBS, a mudança de nome para “The Jacksons” e os sucessos feitos com discos como “Destiny” (1978) e “Triumph” (1980). Entre eles, Michael gravou e lançou seu trabalho solo de maior sucesso até então. Canções como “Rock With You” ou “Off The Wall” são ignoradas, mostrando apenas trechos de “Don’t Stop Til Get Enough”. A partir daí, entra em cena Jaafar Jackson, filho de Jermaine Jackson e sobrinho de Michael, que o interpreta adulto. Sua performance, às vezes turbinada por IA, chega a convencer em alguns momentos, mas o que vemos é uma versão desumanizada e embonecada do artista, algo que beira o constrangimento. O roteiro de Logan não tem pudor em chafurdar nos mais óbvios clichês familiares, com diálogos que realmente constrangem o mais compreensivo espectador. Todas as questões controversas, que já surgiam na vida do jovem Michael, como, por exemplo, manter animais selvagens em cativeiro – girafas, lhamas, aranhas – somem diante de sua inevitável bondade e compaixão. A criação do chipanzé Bubbles em computação gráfica dá um toque de humor involuntário ao todo.
O processo criativo de “Thriller” casa com um suposto amadurecimento pessoal de Michael, que resolve se desvencilhar da sombra do pai, sem, no entanto, abrir mão de sua magnanimidade. E tome cena dele tomando sorvete de morango com a mãe, Katherine (vivida por Nia Long, a atriz original do clipe de “Thriller”), brincando no quarto com seus bichos, lendo “Peter Pan” e tudo mais. O Michael criança, puro e inocente, devidamente idealizado e transmutado para a telona, como narrativa “oficial”. E, enquanto ele vai, simplesmente existindo de forma bondosa, vai percebendo o mundo em volta e criando o disco de maior sucesso da história da música pop, como se fosse algo trivial. A participação de Quincy Jones (Kendrick Sampson, caricato), produtor do disco, é procedimental, sem qualquer importância, diminuído diante da figura de Michael. Além dele, Miles Teller vive John Branca, que é contratado como empresário por Jackson, Michael Myers novamente interpreta um executivo de gravadora, dessa vez, Walter Yetnikoff, maioral da CBS. E o período de divulgação das canções do álbum coincidiu com uma nova turnê dos Jacksons, da qual Michael foi “convidado” pelo pai a participar, sendo contrariado, até que sofre o notório acidente durante a filmagem de um comercial da Pepsi, no qual teve parte do couro cabeludo queimado. Este episódio, segundo o roteiro, serviu para ele ter uma iluminação total, percebendo que seu papel no mundo é trazer felicidade, alegria para as pessoas. Sério, gente, está no roteiro, são diálogos do filme. E, assim como veio, a história se encerra. Após novo salto, partimos de 1984 para 1988, já na turnê de “Bad”, o disco que seria gravado em 1987, com uma apresentação em Londres.
Uma análise rápida mostra que ficaram de fora situações como o suposto romance com a atriz Brooke Shields, a aproximação com Paul McCartney, que resultou nas colaborações em álbuns como “Pipes Of Peace” (1983, de Paul) e no próprio “Thriller” e a controversa compra de Michael do catálogo dos Beatles. A presença de Diana Ross em sua vida e a participação em “O Mágico de Oz”, versão com atores e cantores negros, de 1975, na qual Michael viveu o Espantalho. A presença e participação na gravação de “We Are The World”, canção do coletivo USA For Africa, coescrita por ele. Colaborações com Eddie Van Halen (apenas mencionado) e Mick Jagger (em “State Of Shock”). A presença de Michael no disco dos Jacksons de 1984, “Victory”, a direção do clipe de “Thriller” por John Landis, então em evidência por conta de “Um Lobisomem Americano em Londres” ou a colaboração com ninguém menos que Martin Scorsese no clipe de “Bad”, enfim, um monte de momentos marcantes, absolutamente necessários para uma compreensão maior do artista. Além disso, a omissão absoluta de Janet Jackson na narrativa. Sua irmã mais nova, que faria enorme sucesso na virada da década de 1980/90, simplesmente se recusou a ver o longa. E, claro, o recorte temporal, que encerra a narrativa no momento em que Michael ainda não fora acusado por assédio sexual, não se mudara para o rancho Neverland ou investia pesado numa descaracterização de aparência ainda maior. Conveniente é o mínimo.
Mais uma nota de humor involuntário: o ator KeiLyn Durrel, vive o segurança Billy, com uma semelhança notável com o deputado federal Guilherme Boulos. Desde que percebi este fato, não consegui mais olhar para suas aparições de outra forma.
Se você é um fã ocasional de Michael Jackson, certamente vai se encantar com as performances e a trilha sonora do longa. Mas, se você decidir fazer uma reflexão mínima, ínfima, sobre sua personalidade e controvérsias, vai se sentir tratado como imbecil por este roteiro. A escolha é sua.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
