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Vitor Ramil no Teatro Ipanema, 29/07/25

 

 

Vitor Ramil é um cavalheiro. Sua forma de cantar, suas letras, sua postura, tudo evoca uma pessoa que anda flutuando. Não parece ter problemas e, quando os tem, consegue elaborar perfeitamente, livrando-se deles bem rápido. Ou rindo deles. Certo que isso é uma impressão que ele passa, Vitor é muito humano e humanos, bem, eles são pautados por problemas e já sabemos bem que, às vezes, estes teimam em permanecer. Mas este texto nada tem a ver com isso, nem mesmo é uma resenha formal de sua ótima apresentação no Teatro Ipanema, dentro do projeto Terças no Ipanema. No dia 29 de julho, ele fez a primeira de suas duas aparições na casa, mostrando o show “Mantras Concretos”, inspirado em seu último álbum, de mesmo nome, no qual ele fornece melodia para poemas de Paulo Leminski. Além das canções do disco, Vitor oferece uma boa dose de composições de sua extensa carreira, sempre deixando ver um artista de bom gosto, capaz de unir influências jazzísticas, eletrônicas e regionais em sua já moderna forma de pop brasileiro.

 

Vitor fez duas apresentações no Ipanema. A primeira – que eu vi – teve como convidado Ney Matogrosso. A segunda, ocorrida ontem, dia 05 de agosto, recebeu Adriana Calcanhotto. A ideia era trazer ao palco dois dos inúmeros intérpretes das composições que Vitor fez ao longo do tempo. Ney acrescentou voz, carisma e tudo mais a duas belas canções. “Astronauta Lírico” (gravada por Vitor em seu disco “Satolep Sambatown”, de 2007 e, mais tarde em “Foi No Mês Que Vem, de 2013, devidamente interpretada por Ney em “Atento Aos Sinais – Ao Vivo”, de 2024) e “A Ilusão da Casa” (que Vitor lançou em “Tambong”, de 2000 e Ney gravou em “Atento Aos Sinais”, versão estúdio e no disco ao vivo de mesmo nome, ambos de 2024). Mas me arrisco a dizer que, por mais que Ney tenha tudo o que tem como artista, foi a falsa simplicidade das canções de Vitor e suas intepretações precisas que compuseram o mais interessante e marcante do show.

 

Ainda que “Mantra Concreto”, seu mais recente álbum, tenha fornecido várias canções para o show, o maravilhoso “Tambong”, de 2000, também aparece com força no setlist. Os dois álbuns fornecem mais da metade do repertório do show. “Tambong” foi um trabalho complexo, com vários convidados no estúdio, em que Vitor, além de apresentar novas composições, verteu antigas canções em novas interpretações. Caso de seu “carro-chefe”, “Estrela, Estrela”, que foi sua primeira composição a ser gravada e logo por uma intérprete tão marcante como Gal Costa. E da minha canção preferida dentre tantas que ele já escreveu, “Foi No Mês Que Vem”, na qual ele brinca com tempos verbais fora de rotação e fala de um amor que existe-mas-não-existe nos padrões “normais” de percepção. Não por acaso, há uma versão de “Foi No Mês…” em “Tambong”, na qual ninguém menos que Egberto Gismonti, passeia com estilhaços de pianos sobre a melodia curvilínea. Além delas, outra canção ímpar, “O Velho Leon e Natália em Coyacán”, sobre Trotski e sua esposa no México, que, vejam só, é um poema de Paulo Leminski musicado por Vitor há anos, revista e reinserida no repertório.

 

Além da interseção entre estes dois trabalhos, Vitor também passeou por outros recantos de sua trajetória. De “Campos Neutrais” (2017), foi pinçada a belíssima “Tierra” e de seu álbum “Tango”, do distante ano de 1987, vieram duas pequenas catarses em meio ao show. “Loucos de Cara”, canção belíssima e a dylanesca “Joquim”, que aparece no fim da apresentação, com Vitor sobrevoando sua personagem “Barão de Satolep” bem en passant.

 

No pós-show, Vitor vai conversar com as pessoas no saguão do teatro. Tira fotos, assina capas e pergunta se os presentes gostaram do show. Ouve sugestões e dialoga com carinho com todos. Quando vem conversar conosco, agradece os nossos agradecimentos pela apresentação inspiradora e diz que precisou enfrentar a lógica excludente do mercado musical que, mais do que nunca na história, é regido apenas pelo lucro financeiro. Fico imaginando o tanto que ele empreendeu para poder oferecer essas duas apresentações ao público carioca. Mas, como dissemos no início do texto, o que pode ser/é problema torna-se até motivo de cantiga, de composição e, mais que tudo, de inspiração. Vitor Ramil é um artista ímpar no Brasil. Ele é – como já foi dito antes – muito mais um “subtropicalista”, visto que está na latitude abaixo do Trópico de Capricórnio, em sua Satolep, ou melhor, Pelotas, trocando figurinhas com figuras marcantes do Cone Sul. De quando em vez, sobe na latitude e brinda os cariocas e fluminenses com estas belas ocasiões.

 

Setlist

DE REPENTE

TEU VULTO

UM BOM POEMA

INVENTO

ANFÍBIOS

FOI NO MÊS QUE VEM

O VELHO LEÓN E NATÁLIA EM COYOACÁN

PROFISSÃO DE FEBRE

TIERRA

SUJEITO INDIRETO

ESTRELA, ESTRELA

A ILUSÃO DA CASA – com NEY MATOGROSSO

ASTRONAUTA LÍRICO – com NEY MATOGROSSO

AMAR VOCÊ

LOUCOS DE CARA

NÃO É CÉU

_____________________________bis

JOQUIM

CARICATURA

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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