Três canções contra o fascismo

 

 

Quando falamos em fascismo, pensamos que a ideologia é privilégio apenas de sociedades destruídas após a Primeira Guerra Mundial, mas não é. Em vários países europeus, a ideia de um governo forte, conservador, ultracapitalista e baseado no binômio repressão/violência, foi cogitada seriamente e tolerada pelas elites, uma vez que tal visão de mundo não afetava seus privilégios e status, pelo contrário, precisava de sua existência nessa lógica para ser levado adiante.

 

Países como França e Inglaterra possuíam partidos fascistas legalizados e atuantes, fortes nos anos 1930, após a chegada ao poder de Hitler e Mussolini. Na Inglaterra existia a British Union Of Fascists, partido fundado em 1932 por Oswald Mosley, que chegou a contar com mais de 50 mil filiados. A tônica era a mesma de sempre, infelizmente de hoje: a defesa de uma sociedade fragmentada, mas unida sob o ideal de pátria, na qual imigrantes africanos e asiáticos, além dos judeus, eram logicamente inferiores em relação aos ingleses. Naquela época, o fascismo era o principal antagonista do socialismo, sendo assim, havia uma preocupação especial em incentivar o protecionismo para os produtos ingleses como forma de controlar o desemprego, mantendo as indústrias competitivas e capazes de manter os trabalhadores empregados. O BUF existiu legalmente até 1940, quando foi banido.

 

Roger Waters se inspirou no clima das reuniões do BUF em “In The Flesh”, uma das canções do álbum “The Wall”, lançado em 1980. O disco é autobiográfico e conta a história de um astro do rock, chamado Pink, que é alterego de Waters, lidando com seus demônios internos, sobretudo a morte do pai durante a Segunda Guerra Mundial. A música aparece duas vezes no álbum, com este significado – que é uma crítica acima de tudo, mas alerta para algo como um “potencial fascista” que todos teríamos – mas também como algo que, apesar de conter menção a elementos explícitos do nazi-fascismo, pode ser cantado por uma multidão num show de rock.

 

A ironia é muito sutil, talvez nem todas as plateias que viram Pink Floyd (ou Roger Waters solo) interpretando “In The Flesh”, tenham percebido a sutileza.

 

 

 

 

Esta canção de 1978 dos ingleses do The Clash também trata da escalada do fascismo. Escrita numa época em que os conflitos sociais na Inglaterra se acirravam por conta do desemprego e da miséria, a letra questiona o aumento de popularidade do National Front, partido racista (só aceita brancos) de extrema direita inglês, que chegou a obter mais de 190 mil votos nas eleições de 1979.

 

Joe Strummer, vocalista do Clash, já falecido, ponderava sobre o nazismo, dizendo que, ao fim dos anos 1920, poucas pessoas na Alemanha votariam em Hitler, enquanto que, menos de dez anos depois, não era possível pensar em um cidadão alemão que não votasse nele. A canção usa como base um velho tema da Guerra Civil Americana, chamado “When Johnny Comes Marching Home”.

 

Este tema vem de encontro às recentes manifestações da classe média brasileira, pedindo por intervenção militar e corte das políticas sociais do governo, que beneficiam os pobres. É um comportamento cíclico, infelizmente, que sacrifica liberdades de muitos em favor da riqueza e manutenção do status quo de poucos. A classe média brasileira afiançou o golpe militar de 1964, endossando as ações dos generais e nada fez contra as medidas mais duras do regime, sobretudo o AI-5, pelo contrário, permaneceu omissa diante da repressão, enquanto poucos representantes se engajaram na luta armada, que também foi reprimida duramente pelo governo.

 

A classe média, que bateu panelas nas varandas de seus apartamentos em bairros elegantes das cidades grandes brasileiras, “contra tudo o que aí estava”, mostrou-se disposta a sacrificar novamente as liberdades democráticas em favorecimento próprio, elegendo o atual ocupante da presidência da República.

 

 

 

 

 

Estamos vendo que o fascismo é um tema muito abrangente e capaz de se reciclar ao longo do tempo. Originalmente surgido no início do século 20, foi uma ideologia constituída pelo fortalecimento da nação como meio de estabelecer uma lógica do mais forte dominando o mais fraco através de parâmetros como raça, militarismo e ultranacionalismo.

 

No plano internacional, teve lugar em países que foram destruídos na Primeira Guerra, especialmente Itália e Alemanha, como meio de unir essas sociedades em torno de algo que lhes desse esperança de ressurgimento. Como alteridade maior do fascismo, que é nacionalista por definição, está o socialismo e sua etapa final, o comunismo, que são ideologias internacionalistas por conceito. Com o fortalecimento do estado a partir da lógica fascista, Alemanha e Itália ganharam a tolerância de Inglaterra e França no período entre guerras, justamente por não tolerar a ameaça socialista na Europa, algo que assustava estas nações. Deu no que deu.

 

Mais recentemente, “fascismo” é um termo utilizado para acusar intolerância às individualidades, às normas jurídicas estabelecidas e contra tudo que significa caminhar em direção à igualdade entre as pessoas, justamente por esta não levar em conta a raça, a condição social, a riqueza das pessoas e sim sua simples existência dentro do contexto da sociedade. Geralmente, o fascismo é um refúgio para as pessoas que não têm adaptabilidade dentro de uma coletividade, alimentam rancor, ressentimento e rejeição e adotam a postura xenófoba e militarista como meio de estabelecer seu lugar na coletividade, com esta visão de ampliando de acordo com a necessidade, indo contra tanto a presença de negros na sociedade americana desde muito tempo como de imigrantes árabes na Europa atual. Infelizmente há quem admire os preceitos no fascismo, especialmente jovens em busca de afirmação e inserção na coletividade.

 

Em 1992, a banda americana Sonic Youth gravou uma furiosa canção sobre como o fascismo se insinua nas mentes da juventude em busca de afirmação. Há quem diga que a letra era uma crítica da guitarrista Kim Gordon em relação ao marido, guitarrista e vocalista Thurston Moore, mas “Youth Against Fascism” é uma de suas mais acessíveis criações, que puxou o belo álbum “Dirty”, no início dos anos 1990.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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