The Vapors, 40 anos depois

 

 

Estava eu separando os discos resenháveis destes próximos dias e dei de cara com um “Together”, da banda inglesa The Vapors. Na hora a minha mente nerd de música me lembrou da banda que emplacou um hit massivo na Inglaterra de 1979: “Turning Japanese”. Se você está na casa dos quarenta ou mais, certamente já ouviu a canção. A banda era mais uma dessas fazedoras de um hit apenas, chamadas lá fora de “one hit wonders”. Pensei que era uma coincidência, não só pela condição de “dona de um só hit” que The Vapors tinha como pela carreira curtíssima deles, que se encerrou em 1981. Mas não. Era a mesma banda, que retornou aos palcos depois de … longos, intermináveis 39 anos. Quando os caras lançaram um disco pela última vez, não havia 150% das “maravilhas cotidianas” de hoje, é como se alguém despertasse de um coma e esperasse por 1981 e ganhasse 2020 em troca.

 

 

Claro, The Vapors só voltou porque havia demanda. E muita. Os fãs da banda se mobilizaram dos dois lados do Atlântico e conseguiram levá-los para os Estados Unidos. Antes já tinham feito algumas pequenas turnês pela Inglaterra a bordo de uma van. É um caso de Benjamin Button aplicado a uma banda de rock. O som deles também continua o mesmo, a saber, aquela mistura simpática de new wave, punk e powerpop. The Vapors, a saber, foram descobertos por Bruce Foxton, que tocava baixo no The Jam. Após vê-los ao vivo, chamou o líder, David Fenton, para uma conversa e ofereceu o posto de banda de abertura da turnê do álbum “Setting Sons”. Fenton topou na hora e a banda passou a ser empresariada por John Weller, pai do vocalista do Jam, um certo Paul Weller.

 

Pouco depois, The Vapors já estava assinando contrato com a EMI e lançando seu primeiro disco, “New Clear Days”, trocadilhando com a paranoia anti-nuclear. É dele que vem “Turning Japanese”, que até em edição do jogo Guitar Hero foi parar. Apesar do sucesso inicial, a banda só lançou outro álbum, “Magnets”, em 1981, um ano após a estreia. As baixas vendas e a falta de interesse da crítica fez com que Fenton e sua turma desistissem. Desde então, “Turning Japanese” está em 9 dentre 10 compilações de sucessos dos anos 1980 e assim será, provavelmente, até o momento anterior ao asteroide bater com nosso planetinha azul.

 

Mas e esse disco novo? Que tal? Ouvindo os dois álbuns anteriores do grupo, dá pra dizer duas coisas. Não há um hit tão forte quanto “Turning Japanese” e o conjunto de canções presentes aqui é o melhor da carreira da banda. A maturidade não levou os temas juvenis e saudosos dos “tempos dourados”, mas agora esta nostalgia está mais legitimada pela passagem dos anos, fazendo com que The Vapors não demonstrem nostalgia do que não chegaram a viver. E o powerpop tornou-se o gênero hegemônico aqui, levando a voz aveludada de Fenton a passear por instrumentais sólidos de guitarras, baixo e bateria legítimos, 100% verdadeiros, que percorrem harmonias feitas sob medida para comprar bolotas de chiclete coloridas antes do cinema.

 

A belezura pode estar logo na faixa de abertura, “Together” ou na maravilha aerodinâmica que é “Real Time”, que é doce e bela. “I Don’t Remember” tem uma pinta de canção dourada de, sei lá, 1982, com guitarras em vai e vem e uma melodia feita sob medida. Parece talvez algo que o Men At Work poderia ter lançado, só que sem flautas ou saxofones. Tem espaço para semi-baladas, caso de “Those Tears”, de quase-rockabilly (“King L”) e uma canção pop perfeita para fechar o disco em clima de “os bons tempos voltaram”: “Nuclear Nights. Na produção está o competente Steve Levine, que já pilotou estúdio para bandas como Culture Club e The Clash, e deixa uma assinatura simpática na pilotagem do estúdio, fazendo os músicos a cargo de seu feijão-com-arroz bem temperado.

 

Se você é um fã de powerpop, seja de Teenage Fanclub, seja de alguma banda recente e obscura, precisa conhecer este álbum do The Vapors. A sensação é a de conhecer um velho amigo. Não deixe passar.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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