Vi “Casa de Dinamite” mais de dez vezes

Eu sei que é exagero, mas é verdade. Vi “Casa de Dinamite” mais de dez vezes. Mais precisamente, o primeiro de seus três atos. Antes de buscar uma explicação, vamos ao contexto. O longa foi lançado há pouco mais de um mês na Netflix com grande alarde. Ele marca o retorno de Kathryn Bigelow à direção, logo ela, que foi a primeira mulher a receber um Oscar nesta função (por “Guerra Ao Terror”, em 2009). Bigelow dirigiu filmes interessantes ao longo de sua carreira, como o cult “Caçadores de Emoção” (1990) e “K-19 – The Widowmaker” (2002), mas foi com trabalhos como “Guerra Ao Terror” e “A Hora Mais Escura” (2012), que ela encontrou sua marca, uma espécie de cinema crítico ao papel dos Estados Unidos na política internacional em situações práticas. No caso destes dois longas, a Guerra do Iraque serviu como pano de fundo. Ainda que os roteiros nunca questionem abertamente a necessidade do país mais poderoso do planeta se envolver nesse tipo de conflito, é possível dizer que Bigelow critica, sobretudo, o aspecto humano das situações, mostrando gente inocente que surge no meio da linha de tiro. Com mais ênfase nos americanos, sempre. Ou seja, é um cinema meio Barack Obama, que surge legalzão e consciente entre o público médio, mas que não arranha absolutamente nada do status quo. E “Casa de Dinamite” está nessa categoria.
O que diferencia este dos outros longas de Bigelow é a tentativa obstinada de perseguição a um realismo quase documental. Não que as obras mencionadas acima não tenham muito disso, mas em “Casa…”, ela se cercou de consultores que são ex-funcionários de altos escalões do governo americano, em busca do máximo possível de veracidade. O tema? O que acontece quando um míssil intercontinental é detectado e sua trajetória aponta para um impacto em uma grande cidade dos Estados Unidos? Não se pode dizer exatamente de onde veio o míssil, apenas de algum lugar do Pacífico, onde algumas potências inimigas dos Estados Unidos têm bases e condições de lançamento – China, Rússia e Coreia do Norte. Como não dá pra saber quem lançou, como fazer para impedir o impacto e reagir ao ataque? É disso que o filme trata e, para esta missão, divide seu tempo em três atos, que mostram as ações de diferentes partes do governo americano, que se interligam aos poucos e revelam novos significados. O primeiro ato acontece na Sala de Crise da Casa Branca, com pinta de call center hiperbombado, mais precisamente, mapeando as decisões e reações da capitã Olivia Walker, vivida pela ótima Rebecca Ferguson. O segundo acontece no Centro de Comando Estratégico, no qual o general Brady (Tracy Letts) está no comando. Por fim, o último ato tem o Secretário de Defesa e o Presidente (respectivamente Jared Harris e Idris Elba) como personagens principais.
Também no primeiro ato está inserido o drama da primeira linha de defesa dos Estados Unidos, nos confins do Alasca, a primeira a captar o míssil e calcular sua trajetória. Em questão de dezoito minutos, é preciso, além de tentar parar o artefato, organizar retirada de membros do governo, assegurar sua continuidade, calcular opções de retaliação e, o pior de tudo, decidir o que fazer em seguida. Quem assina o roteiro é Noah Oppenheim, que coordena todo o jornalismo da rede de TV NBC, ex-correspondente de guerra e, portanto, um sujeito capaz de retratar a situação com o mínimo de sensacionalismo possível. Aliás, se há algo inexistente em “Casa de Dinamite”, é isso – sensacionalismo. Tudo acontece como um dia no trabalho em que tudo dá muito errado e não há muito o que fazer para corrigir. Bigelow mostra pequenos detalhes humanos dos personagens mais centrais em situações oportunas, apenas para lembrar ao espectador que estamos vendo gente de verdade na tela, lidando com situações terríveis, provavelmente, a pior de todas.
O ato da capitã Olivia me soou mais interessante por ter lugar em um setor-chave da engrenagem nuclear da defesa americana. Na Sala de Crise da Casa Branca estão as pessoas responsáveis pela recepção de todos os dados que vão chegando e, ao mesmo tempo, com a missão de transmiti-los sem ruído ou opinião. É uma espécie de elo entre os setores que vão tomar a decisão, para tal, é necessária máxima atenção e isenção e isso, em certo momento, se torna absolutamente enervante. Aliás, o filme mostra a quase absoluta incapacidade de resposta a uma ameaça dessa natureza, ainda que existam protocolos específicos e rotinas. Mais que tudo, mostra sem rodeios a falta de capacidade do próprio presidente americano diante de algo dessa natureza. Se o mandatário interpretado por Idris Elba parece ser generoso e humano, imagine como seria tal situação nas mãos de um brucutu como trump ou reagan?
“Casa de Dinamite” certamente foi inspirado em outras duas produções americanas, ambas dos anos 1980. “Jogos de Guerra” e “O Dia Seguinte”, ambos de 1983, ambos tratando da ameaça nuclear com a visão de seu tempo. A perspectiva de um conflito entre URSS e Estados Unidos era palpável no início dos anos 1980 e a exibição de “O Dia Seguinte” me impressionou bastante. Era a primeira vez que o assunto era tratado de um jeito, digamos, mais real. E “Jogos de Guerra” tinha mais jeitão de videogame, mostrando a história do hacker, vivido por Matthew Broderick, que invade, sem querer, o computador do sistema de defesa americano. Antes deles, nos anos 1960, Stanley Kubrick realizara “Dr. Strangelove”, uma crítica ao mundo nuclear bipartite. “Casa de Dinamite” vem se juntar a estas produções com a ideia de ser o mais real possível. A meu ver, ainda que muitos especialistas do governo americano tenham negado sua veracidade, o filme consegue. E Bigelow demonstra uma elegância extrema com seu final, deixando o espectador entender exatamente o que aconteceu. E que isso não precisa de nenhuma imagem sensacionalista para ser compreendido. Um filmaço.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
