Vem, vamos ser geniais ouvindo Angine de Poitrine!

Angine de Poitrine – Vol.II
37′, 6 faixas
(Angine de Poitrine)
(2,5 / 5)
Você pode achar que sou ranzina. Que sou velho. Que sou chato. Não terá errado. Nenhuma dessas características, no entanto, opera na hora em que cravo que o hypadissimo duo canadense Angine de Poitrine é típico caso de artista apropriado por um público que deseja a todo custo se sentir genial e relevante. Bem, talvez mais do que o próprio duo. Eu adoraria me ater apenas à música praticada por Khn de Poitrine (guitarra, baixo e looping ) e Klek de Poitrine (bateria), mas seria soar muito raso. Claro, esses são nomes fictícios, uma vez que os integrantes preferem o anonimato. Para isso se apresentam paramentados como criaturas estranhíssimas, com máscaras e roupas combinando, usando um truque tão velho quanto andar à pé – o uso da imagem como um elemento indissociável do som. Parece óbvio, quanto mais a imagem é modificada e alvo de atenção, a música pode vir a perder espaço dentro da experiência sensorial, pelo menos dentro da proposta de quem a apresenta. Enfim, se substituirmos as roupas da dupla por trajes comuns, com suas faces à mostra, o que sobraria para experimentar? Isso, o som. Mas a experiência estaria amputada, pelo menos como ela se apresenta agora. Enfim, o fato é que, sem o hype de ver a dupla montada no palco, o som que ela faz fica retido num universo sem muitas alternativas.
Não que “Vol. II” seja ruim, é que ele cansa, dá dor de cabeça e propõe algo que fica muito mais complicado de fazer no recanto do lar, ouvindo as faixas com fones: se sentir genial. Ouvir e gostar do Angine de Poitrine hoje, por conta de todo o contexto, é um suposto ato de genialidade, bom gosto, de relevância, de sintonia com o moderno estranho, que, você sabe bem, é o melhor moderno possível. E isso, gente, em tempos digitais, fugidios, rápidos, whatever, é tudo o que se espera. Acho sinceramente que a dupla não pensa em nada disso, só quer viver sua onda de fazer algo “estranho”, vestida de um jeito igualmente “estranho” e ver várias pessoas pulando enlouquecidas diante de suas apresentações. Quem não gostaria? A ideia é essa. Mas isso acena para uma duração muito curta da validade do que fazem. O consumo é imediato, hiperveloz, meio desprovido de qualquer ressonância. Veículos como Pitchfork e similares, que se alimentam de forma fagocitária da ideia de “novo”, estão em festa com esse sucesso do duo. Sintomático.
Pouco se sabe sobre o Angine. Apenas que são da província de Quebec, na parte francesa do Canadá e que ficaram conhecidos depois que uma sessão no canal de YouTube da KEXP foi apresentada no Festival de Rennes, na França, no fim de 2025. Isso bastou para que a dupla fosse imediatamente alçada à condição de “next big thing”, ou, como diz a própria Pitchfork, o “maior mistério canadense desde “O Senhor dos Mortos”, de David Cronenberg. Se pensarmos que o filme é de 2024, a régua de mistérios do site não é lá essas coisas. Musicalmente falando – que é o ponto para nós – os caras soam como derivações minimalistas de bandas como Primus, King Gizzard e, vá lá, King Crimson da fase “Discipline”. Mas tudo isso parece pairar bem distante da entrega reducionista que a dupla oferece. Novamente vem a ideia de que, não há como propor uma música muito complexa sem exigir que o público preste atenção a ela. Como fazer isso sabendo que é preciso pular e festejar vendo duas pessoas com máscaras de bolinhas pretas e roupas com a mesma padronagem, que cobrem o corpo inteiro?
Enfim, nem toda música precisa ser complexa, certo? O que nos deixa com a quase certeza de que, de fato, a experiência Angine de Poitrine é proposta com o uso indissociável da imagem e do “ao vivo” do jeito que é posto. Do contrário, aguentar duas horas das microtonalidades das “canções” da dupla é algo muito cansativo. Não consigo destacar nenhuma faixa digna de menção, todas estão no escopo mencionado acima, há certa simpatia pelo fato lúdico que a empreitada pode ter, mas, novamente, é preciso uma vontade, digamos, extra-música, para entrar nessa. Mesmo assim, é, vá lá, engraçado estar diante desses dois. Uma vez, no máximo. Ah, quase ia me esquecendo. “Vol.II” tem seis faixas, todas instrumentais, repetitivas e com nomes muito estranhos, mas acho que não faz muita diferença.
Ouça primeiro: “Sarniezz”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Total delírio e deslumbramento até críticos que eu respeito e nem vou citar nomes caíram nessa picaretagem!!
Eles são inteligentes. Inventaram esses figurinos ridículos para ninguém prestar atenção nessas composições completamente desinteressantes e insípidas.
Caso clássico de hype, delírio coletivo e efeito manada. Não adianta se vestir de maneira peculiar, se sua música soa da maneira mais convencional possível. Banda experimental? Nah. Parece uma banda de surf music de festa temática de adolescente.