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U2 finalmente dá sinais de vida em EP

 

 

 

U2 – Easter Lily EP
32′, 6 faixas
(Island)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Há pouco mais de um mês, o U2 lançou um EP chamado “Days Of Ash”, anunciado com um trabalho de cunho político, que visava recuperar algo que a banda perdera ao longo das últimas décadas. Assim como os discos, singles, participações em trilhas sonoras e tributos, aquelas seis faixas eram pálidas, sem força, condizentes com a pífia produção da banda após 2004. Pois bem, é possível dizer que o material presente neste novo EP, “Easter Lily”, reverte essa impressão de perda de relevância. Bono, Edge, Adam e Larry finalmente parecem novamente capazes de compor, tocar e gravar como nos seus melhores dias. Essas seis canções ostentam as marcas do que o U2 tem de melhor, pelo menos, durante sua fase mais incensada, os anos 1980. Sim, “Easter Lily” é um EP autorreferente do U2 oitentista, messiânico, que lotava estádios como se fosse uma pregação. Convenhamos, isso é melhor do que o grande nada que vinha sendo lançado desde “How To Dismantle A Atomic Bomb”. Confesso que eu não esperava nada assim. Que bom.

 

Claro, ser autorreferente não é exatamente algo a se comemorar, mas abriremos uma exceção para o U2 dessa vez. O grupo irlandês parecia fadado a soar irrelevante, lírica e musicalmente, logo ele, que foi uma força dominante e criativa, por cerca de duas décadas da música pop. Mas falemos do presente, que é o mais importante. The Edge declarou em entrevista ao zine da banda, Propaganda, que essas canções, assim como as de “Days Of Ash” ganharam força e vida independente das sessões de gravação para o novo álbum que o grupo vem realizando. Sendo assim, o primeiro lote veio ao mundo como um feixe de declarações políticas sobre o caos atual em que o mundo se encontra. Essas novas seis faixas surgem como um aceno à força espiritual e pessoal que todos temos. Se pensarmos bem, sã os dois elementos que pavimentaram a estrada da banda nos primeiros dez anos, quando vieram ao mundo álbuns como “War” (1983), “Unforgetable Fire” (1984) e “The Joshua Tree” (1987). As novas criações não arranham a estatura dos clássicos daqueles tempos, mas são inegavelmente da mesma família.

 

Das seis canções, três são muito boas. De cara, “Song For Hal” abre os trabalhos com a guitarra de The Edge no que ela tem de mais clássico e reconhecível. Dá pra saber que é o U2 em uma fração de segundo e todo o arranjo mergulha naquela sonoridade familiar. A melodia é bela, tudo funciona e a mensagem, em homenagem ao produtor Hal Wilner, recentemente falecido. Bono consegue reproduzir alguns de seus traços válidos como intérprete e isso tudo gera expectativa para a faixa seguinte, “In A Life”, que novamente ostenta a guitarra de The Edge como marco fundamental. O andamento é diferente, mais rápido, com levíssima intervenção eletrônica na batida. Mais que algo dos anos 1980, ela parece com algo que poderia estar em “All That I Can’t Leave Behind”, álbum de 2000, que visava “retomar o som clássico do U2”. Mas é “Scars” que tem a manha. Essa lembra algo que poderia estar em “Unforgetable Fire”, talvez o maior elogio que a banda possa receber hoje em dia. A tal “cozinha do U2”, Adam Clayton e Larry Mullen Jr, retoma o que tem que melhor, algo igualmente característico da banda ao longo do tempo. A melodia é ótima, tudo funciona bem.

 

As três canções restantes descem um degrau em termos de força, mas ainda têm atrativos. O clima que vai crescendo em “Resurection Song”, que traz ótima performance do recuperado Mullen Jr, talvez seja um afetada além da conta, mas traz uma boa mensagem de boas voltas ao baterista clássico do grupo. “Easter Parade” é bem curiosa e aponta para algumas novidades em meio ao clima de resgate de identidade do U2. Tem teclados que poderiam ser de Vangelis e uma linha de baixo que vai crescendo e soando mais sintetizada no meio do caminho, mostrando que o quarteto, ora, finalmente, pode estar mesmo criando em alto nível e incorporando novidades estéticas que não soam frouxas. E Brian Eno, ele mesmo, coescreve a sussurrante e, vá lá, monótona por demais, “COEXIST (I Will Bless The Lord At All Times”, na qual a voz de Bono surge filtrada e meio alterada em seus tons mais altos, algo bem incômodo.

 

Este EP recoloca o U2 na prateleira das bandas e artistas que ainda são capazes de oferecer algo relevante. Se não é totalmente inesperado, surpreendente ou novo, não importa. O que está em jogo aqui é a sobrevivência criativa de uma das maiores bandas dos últimos tempos, que parecia desinteressada, incapaz de igualar os momentos mais importantes de sua carreira. Há esperança.

 

Ouça primeiro: “Song For Hal”, “In A Life”, “Scars”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário sobre “U2 finalmente dá sinais de vida em EP

  • Sinceramente, achei tão ruim quanto o anterior. As letras de auto ajuda e espiritualidade barata que parecem ter saído do Instagram e mais essa sonoridade completamente inócua.

    É um U2 oitentista? Sim, é, mas é aquela coisa, para mim parece uma paródia. Não tem “punch”, não tem criatividade, não tem tesão, é tudo no piloto automático, tudo esquematizado.

    E em “Resurrection Song” vem uma ameaça: “If I sounds ridiculous, I’m not done yet”. Dá não…

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