Eagles em 1975: O fim do deserto e o início da noite
É muito comum, no exercício da crítica musical mais ranzinza, olhar para os Eagles como um subproduto asséptico do sonho californiano. Existe uma linhagem de pensamento que os coloca como vilões de uma pureza country-rock que teria sido “maculada” pelo sucesso massivo e pela perfeição técnica. No entanto, ao celebrarmos o legado de One of These Nights (1975), é preciso deixar o preconceito de lado e entender que este disco não é apenas um monumento ao pop rock dos anos 1970, mas o registro exato do momento em que a banda deixou de ser um grupo de caubóis melancólicos para se tornar a maior força facilitadora da estética sonora daquela década. Para entender One of These Nights, precisamos voltar ao clima de sua composição, entre o final de 1974 e os primeiros meses de 1975. Até ali, os Eagles — Glenn Frey, Don Henley, Bernie Leadon e Randy Meisner — eram vistos como os herdeiros diretos de Gram Parsons e do som de Laurel Canyon. Mas Frey e Henley queriam mais. Eles sentiam o cheiro da mudança no ar. O rock de “raízes” ficava para trás, e o som das pistas e rádios R&B começava a ditar o pulso do mundo.
O álbum marca o divórcio definitivo com a produção de Glyn Johns, que queria mantê-los como uma “banda de rock de garagem polida”, e a consolidação da parceria com Bill Szymczyk. O resultado foi uma virada de chave estética. Onde antes havia o banjo de Leadon, agora surgia o groove sinuoso e a guitarra cortante de Don Felder, que havia sido promovido a membro oficial.
A faixa-título, que abre o disco, é um choque. Aquela linha de baixo pulsante e o bumbo seco de Henley não vieram do Nashville Sound; vieram da Philadelphia Soul. Glenn Frey foi explícito ao dizer que queria capturar a “vibe” do R&B da época. Quando os Eagles “foram à discoteca”, eles não o fizeram como imitadores baratos, mas como arquitetos que entenderam que o rock precisava de balanço para sobreviver ao cinismo do pós-Watergate. “One of These Nights” (a canção) é uma obra-prima de tensão e liberação. O falsete de Henley e o solo de guitarra de Felder — um dos mais viscerais da história do grupo — mostram que a banda estava pronta para abandonar o deserto e entrar nas boates de Los Angeles, mas levando consigo uma sofisticação harmônica que poucos de seus contemporâneos possuíam.
O álbum é fascinante porque captura o conflito interno da banda em tempo real. Enquanto a faixa-título e “Too Many Hands” apontavam para um rock mais encorpado e moderno, Bernie Leadon ainda tentava segurar a bandeira do purismo em “I Wish You Peace”. Esse cabo de guerra criativo gerou clássicos imortais: “Lyin’ Eyes”. espécie de prova definitiva de que eles podiam escrever a narrativa perfeita sobre a vacuidade de Hollywood sob uma roupagem country-pop e “Take It to the Limit”, o ápice vocal de Randy Meisner, uma balada que resume o sentimento de exaustão e busca constante por algo mais, tema central da obra da banda.
Dizer que os Eagles não são relevantes é ignorar a excelência da carpintaria pop. Em One of These Nights, eles se tornaram facilitadores de um som que definiria o rádio FM pelas décadas seguintes, unindo precisão técnica a uma sensibilidade que traduzia o hedonismo e a solidão da época. Para coroar esse cinquentenário, o álbum ganha uma edição de luxo comemorativa em 1º de maio de 2026. O lançamento chega em dois formatos principais: um box de 3CD/Blu-ray, apresentando uma nova mixagem de 2025 feita por Rob Jacobs e áudio em Dolby Atmos, e uma edição em 3LP com lacres cortados por Chris Bellman. O grande tesouro deste pacote é o registro inédito de um show no Anaheim Stadium em setembro de 1975, que captura a banda em um momento histórico de transição — é a última performance oficial de Bernie Leadon e conta com a participação especial de Joe Walsh no bis, antecipando o que os Eagles viriam a se tornar.
Ao ouvirmos One of These Nights hoje, percebemos que ele não envelheceu como uma peça de museu, mas como um manual de reinvenção. Os Eagles foram à discoteca, sim, mas levaram o rock com eles, garantindo que o gênero tivesse fôlego para encarar as luzes da noite que apenas começava.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
