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Quer disco perfeito? Toma o novo Wet Leg

 

 

 

 

Wet Leg – Moisturizer
38′, 12 faixas
(Domino)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

O rock é um estilo musical cíclico. De tempos em tempos surge algum artista que desafia seu prazo de validade, seu contexto histórico inicial, os limites estéticos e parece reinventar parâmetros, redefinir padrões e fazer todo mundo acreditar que está vendo e ouvindo algo inédito, fresco, novo, pronto para recolocar nos trilhos a nossa necessidade de acreditar no que o rock representa. Juventude, desafio ao sistema, liberdade, autonomia. Há tempos não tinha esta sensação e ela veio forte com o segundo álbum do Wet Leg, “Moisturizer”. Não podemos cair na armadilha de pensar e esperar por algum artista que acene com parâmetros do passado. Nunca poderíamos sentir esta impressão do novo com alguém que se limitasse a copiar o que já foi feito ou, pelo menos, se dispor a soar absolutamente abrasivo e desafiador, urgente. As meninas inglesas conseguem e vão além, porque, mais que tudo isso, elas oferecem um conjunto de doze canções perfeitinhas, prontas para atingir em cheio os corações e as mentes de quem estiver ouvindo. É tudo tão legal, bem feito e novinho que considero impossível ouvir essas doze faixas sem se importar. Elas cutucam, exigem atenção, fazem dançar, gritar, tocar air guitar/drums/bass e vão inspirar meninos e meninas ao redor do mundo, inspirando admiração, paixão, tesão, tudo ao mesmo tempo. É assim que é. Ainda bem.

 

O Wet Leg é uma dupla da Ilha de Wight, formada por Rhian Teasdale e Hester Chambers e este segundo disco é sobre amor. O hit “CPR” (que é a abreviação em inglês para aquela manobra de ressuscitação com um aparelho elétrico após uma parada cardíaca que vemos nos filmes) já escancara o tipo de abordagem que a dupla pretende dar ao tema – sexual, instigante, nervosa, urgente. É bom lembrar que a dupla surgiu há apenas quatro anos, quando o single “Chaise Longue”, do primeiro álbum, homônimo, tomou de assalto a Inglaterra, levando Teasdale e Chambers para listas de melhores do ano, festivais e premiações como Grammy, Brit Awards e Ivor Novello. Além disso, as meninas caíram na estrada como atração de abertura para a turnê mundial de Harry Styles, o que as levou a lugares distantes, como a Oceania e até mesmo o nosso combalido Brasil, que elas visitaram em 2023, como atração de uma edição do festival The Town. Tal rodagem mundo a fora efetivou os músicos que acompanharam a dupla nos shows, a saber, Joshua Mobaraki, o baixista Ellis Durand e o baterista Henry Holmes, além do produtor Dan Carey. Com essa galera reunida, a dupla criou este disco próximo da perfeição que é “Moisturizer”.

 

O que dá esta impressão de sintonia total com o tempo presente ao mesmo tempo em que conserva a força que o rock deveria ter, está na alternância de elementos vigentes na sonoridade pop rock de hoje. Tem guitarras punk reprocessadas sob o ponto de vista feminino e feminista mas também percebemos a habilidade de criar canções adornadas por levadas perfeitas de baixo e bateria, que muitos dirão ser influência direta de Fleetwood Mac fase “Rumours”, mas que eu prefiro dizer que vem tanto daí, quanto de ecos do AOR e de trabalhos recentes de gente como Tame Impala e demais pós-psicodélicos que foram domesticados. Também tem pitadas de Garbage, Blondie, Madonna e por aí vai. Tudo isso junto dá um som imediatamente reconhecível por três gerações no primeiro instante e faz com que elas se abracem num sorrisão sonoro que há muito não aparecia por aí. Mencionamos “CPR” como sendo a faixa de abertura do álbum, com menos de três minutos, colocando o ouvinte em alerta. Em seguida, “Liquidize”, pega emprestado um timbre alternativo noventista e desenvolve com uma melodia infecciosa, que cai muito bem nos vocais de Teasdale, que tem tédio e perigo em doses iguais. E são só as duas primeiras canções, com menos de seis minutos de tempo transcorrido. Nesta altura, já é impossível largar o disco.

 

“Catch These Fists”, logo em seguida, tem mais guitarrinhas urgentes, bateria atuante, levada sexy com vocais em tom baixo que explodem na hora certa. Quando pensamos que teremos mais canções endiabradas pela frente, surge “Davina McCall”, com uma levada muito mais doce e cheia de detalhes bacanas, tanto no vocal quanto no próprio andamento da faixa, que ameaça, mas não explode. De propósito. Daí em diante, tudo é realmente perfeitinho. “Jennifer’s Body”, meio anos noventa, meio 2030, abrindo espaço para “Mangetout”, outra dessas canções pop rock perfeitas, com tudo encaixado e em seu devido lugar, novamente com Teasdale dando asas à nossa imaginação nos vocais. “Pond Song”, dentro de um universo rock sexy abre espaço para a eficácia pop total de “Pokemon”, com o versinho “You just gotta chase me, baby, yeah, I’ll be your Pokémon”, uma declaração de amor acima de qualquer suspeita ou culpa. “Pillow Talk” com guitarras altas e versos como “Your only are around when you wanna fuck me”, uma porrada. “Don’t Speak” talvez seja minha preferida do álbum, com um arranjo que coloca os vocais em modo avião, guitarras elípticas e uma melodia familiar que dá vontade de adotar. “11:21” é a única faixa “lenta” do álbum, que, na verdade, tem muito mais tensão do que outra coisa, deixando para “U And Me At Home”, que celebra a delícia de estar com quem se ama entre quatro paredes, um sentimento que parece universal e atemporal.

 

“Moisturizer” é um disco maravilhoso, desses que te colocam de volta ao jogo. É à prova de tempo, seria sensacional em 1993, 2025 e 2034. Uma lindeza agridoce, sexy, invocada, genial. Ouça e se apaixone.

 

Ouça primeiro: todo o disco

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário sobre “Quer disco perfeito? Toma o novo Wet Leg

  • conheci wet leg semana passada vendo o video mais recente delas na tiny desk e fiquei hipnotizado, a ponto de voltar as músicas que elas tinham acabado de tocar, tamanho foi meu interesse. pô, eu sei que tem um trabalho de marketing colossal por trás, mas essas meninas conquistaram meu coração de primeira. a banda que acompanha as duas tá afinadinha e super em sintonia. que conjunção.

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