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Por dentro da estreia de Nick Drake

 

 

 

Estamos na Inglaterra da virada de 1968/9. Tudo está acontecendo nesta ilha, em termos musicais. Tem Led Zeppelin aquecendo os motores. Tem The Who em fase psicodélica pré-óperas rock. Tem Rolling Stone em seu momento mais exuberante até então. Tem Beatles próximos do fim, mas que fim é esse com uma dupla de álbuns como “Abbey Road” e “Let It Be”? Tem Cream, Jimi Hendrix, John Mayall, Jeff Beck, um monte de gente fazendo música. E que música. E tem uma cena que vem em paralelo a essa, a do folk inglês. Quando pensamos no estilo, lembramos mais do braço americano dele, com Dylan, Joni Mitchell e Byrds à frente, além das variações e misturas com o rock, via Neil Young e derivados. Acabamos deixando os ingleses para um segundo plano extremamente injusto. Havia gente sensacional em atividade por lá, como o escocês Donovan, já com uma carreira de destaque e, pelo menos, duas bandas sensacionais: Fairport Convention e a Pentangle. Cada uma a seu jeito, elas definiam essa versão inglesa do folk, adicionando muitas lendas e folclore antigo da ilha, bem como um instrumental que se caracterizava pelos dedilhados impressionantes de violões, algo que fazia de músicos como Richard Thompson (Fairport Convention) e Bert Janch (Pentangle) dois luminares da cena. E ainda havia vocalistas impressionantes, altamente influenciadas por Joni Mitchell – Sandy Denny, no Fairport e Jacqui McShee no Pentangle. Foi neste ambiente que Nick Drake, com vinte anos, surgiu.

 

Nascido em Burma, em 1948, colônia britânica que hoje se chama Mianmar, Drake veio para a Inglaterra para cursar o colégio. Acabou mais dedicado à música, aprendendo a tocar piano e saxofone logo cedo. Em pouco tempo, ali pela metade da década de 1960, ele já integrava bandas informais e em breve passaria uma temporada em Marselha, França, para aprender violão, chegando a tocar no centro da cidade em troca de uns caraminguás, ao lado de amigos. Nessa fase, Drake fez até um bate-e-volta até Marrocos e, segundo consta em sua biografia, foi iniciado no consumo de maconha. Pouco tempo depois, no início de 1967, ele já estava em Cambridge, com o intuito de formar-se em literatura. No entanto, em menos de seis meses, tudo mudaria na vida do jovem. Iniciado no folk e impressionado com as obras de Dylan e Van Morrison, Drake começou a tocar na noite de Londres em bares e buracos mil. Numa dessas apresentações, ele chamou a atenção de Ashley Hutchings, baixista do Fairport Convention, que estava na plateia e ficou impressionado com a voz e figura de Drake – alto, tímido mas imponente – e com seu talento ao violão.

 

Essa noite mudou tudo, de fato. Foi Hutchings que apresentou Nick a Joe Boyd, produtor americano que trabalhava para a Island Records e que havia descoberto o próprio Fairport Convention algum tempo antes. Amigos imediatos, Drake e Boyd formariam um laço que atravessaria a curta carreira dele. E foi Boyd que assumiu a produção do primeiro disco de Drake, que seria lançado em 3 de julho de 1969: “Five Leaves Left”. Eu confesso que conheci Nick Drake apenas no início dos anos 2000, quando sua obra foi reavaliada criticamente e recebeu o reconhecimento que merecia desde quando foi lançada. O timbre de sua voz, profundo, grave, misterioso, se impõe em meio a um instrumental cheio dos tais dedilhados de violão – dele e de gente como Richard Thompson, que participa do álbum. Além dele, seu irmão, Danny, também está presente. Nos arranjos de corda, Robert Kirby, que Nick conhecera pouco tempo antes, quando estava em Cambrige, tornou-se uma espécie de braço direito neste início de carreira. O relançamento de “Five Leaves Left” em formato quádruplo, lança uma luz brilhante e merecida sobre um dos álbuns mais bonitos já feitos. E que passou batido quando lançado.

 

Lembro de ouvir “Riverman” e me emocionar com o arranjo de cordas, que contrasta com a melodia elíptica da canção. O violão de Drake parece percorrer um caminho próprio e cíclico, enquanto as cordas vão entrando discretamente a ponto de disputarem a atenção do ouvinte a partir da metade da canção, com andamentos que parecem arremessar tudo e todos num abismo final, mas que nos seduz mesmo assim. E isso foi só a primeira canção que ouvi. Em “The Making Of Five Leaves Left”, há outtakes de todas as canções do álbum, além de algumas inéditas. Há gravações feitas em Cambridge ao longo do ano de 1968, mostrando a evolução do repertório, especialmente de canções impressionantes como “Time Has Told Me” e “Fruit Tree”, que se tornariam clássicos entre os fãs. Além delas, uma das mais belas obras de Drake, “The Toughts Of Mary Jane”, também surge nestas gravações de Cambridge, ainda rascunhada e sem as adoráveis flautas que foram adicionadas à sua versão final. Mais à frente, o segundo take feito por Drake em 3 de janeiro de 1969, já com um arranjo muito próximo do definitivo. Outra que chama a atenção é a exuberante “Cello Song”, que também surge rascunhada em 1968 e próxima da definição em um take de 4 de janeiro de 1969.

 

Mas, admito, dentre os 32 takes inéditos que esta caixa traz, o que mais me espanta e encanta são os dois para “Riverman”. O primeiro é de 4 de janeiro de 1969, com o andamento e o arranjo próximos do que ouvimos no álbum. O que falta – e faz muita falta – é o naipe de cordas, que, de tão ausente, se faz ouvir na parede da nossa memória. Mesmo assim, o andamento de voz e violão revelam ainda mais a genialidade da canção. O take 2, de abril de 1969, traz a canção praticamente finalizada, com as cordas, mas com mais destaque para a introdução de cello que o arranjo definitivo – ou a mixagem, vá saber – parece ter deixado discreto demais. Neste take o cello entra a partir do primeiro minuto e prepara o ouvinte para algo impressionante que virá, enquanto a voz de Drake vai planando solene ao longo da melodia. A revelação vai acontecer lá pelo minuto 1:45, quando violinos chegam como se fossem aves vindas do sul. O resto é tão belo que não dá para descrever com palavras. Só ouvindo.

 

Além desses takes inéditos, “Five Leaves Left” ressurge com nova mixagem e som mais puro e límpido possível, num trabalho feito pelo próprio engenheiro de som, John Wood. O resultado é, mais uma ver, impressionante. Se você ainda não percorreu o tempo devido dentro da obra de Nick Drake, aqui está o seu melhor ticket de entrada. Lembrando sempre que, cinco anos depois, Drake estaria morto, após cometer suicídio, imerso numa profunda depressão. Tudo que ele produziu é absolutamente indispensável.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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