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Os dois épicos adolescentes de Gus Van Sant

 

 

Ontem, ao dar uma bisbilhotada no que está disponível na Netflix, me dei conta de que “Encontrando Forrester” está na programação do serviço de streaming. Daí surge a oportunidade para fazer um pequen texto sobre este e seu filme gêmeo, “Gênio Indomável”, feito três anos antes, marcando a estreia de Matt Damon e Ben Affleck no cinema, tanto na atuação, quanto no roteiro. Para entender como Gus Van Sant, um dos pioneiros do New Queer Cinema e herói do circuito independente americano, acabou dirigindo estes dois dramas de prestígio com estruturas quase idênticas no intervalo de três anos, é preciso entender sua carreira na virada do milênio. A resposta para o parentesco entre “Gênio Indomável” (1997) e “Encontrando Forrester” (2000) vai além das semelhanças temáticas, da engrenagem implacável de Hollywood e das escolhas estratégicas de sobrevivência de um autor tentando domar a indústria sem ser engolido por ela.

 

 

A chegada de Van Sant a “Gênio Indomável” foi, em muitos aspectos, um casamento de conveniências. Em meados dos anos 1990, após o sucesso de “Garotos de Programa” e o tropeço comercial de “Até as Vaqueiras Ficam Tristes”, o diretor precisava de um projeto que o validasse no mainstream. Simultaneamente, Matt Damon e Ben Affleck rodavam os estúdios com um roteiro promissor que havia sido comprado pela Castle Rock, mas que acabou salvo pela Miramax de Harvey Weinstein graças à intervenção de Kevin Smith. Mel Gibson e Michael Mann flertaram com a direção, mas Damon e Affleck queriam Van Sant, justamente por admirarem sua sensibilidade para retratar jovens marginalizados. Van Sant aceitou o roteiro, que era uma clássica e bem amarrada jornada do herói, e injetou nele a sua melancolia autoral. Para viabilizar a produção, o longa ambientado nos bairros operários de South Boston e nos corredores de Harvard e do MIT foi filmado majoritariamente em Toronto, no Canadá, por razões orçamentárias.

 

A Universidade de Toronto serviu de dublê para o MIT, enquanto a fotografia de Jean-Yves Escoffier envelopou o filme em tons frios e outonais, ressaltando a aridez acadêmica e o isolamento emocional de Will Hunting. Mas a verdadeira subversão de Van Sant no projeto foi a trilha sonora. Em vez de se apoiar apenas na partitura instrumental encomendada a Danny Elfman, o diretor ancorou a alma do filme nas canções acústicas de Elliott Smith. A voz sussurrada de Smith e seu violão cru, especialmente na faixa “Miss Misery”, funcionavam como um monólogo interior do protagonista, desestabilizando o formato de “filme de estúdio” com uma fragilidade dolorosamente indie. Sua indicação ao Oscar de Melhor Canção, disputando com “My Heart Will Go On”, tema de “Titanic”, interpretado por Celine Dion, permanece como um dos momentos mais interessantes do badalado prêmio.

 

Não é possível falar de “Gênio Indomável” sem levar em conta a performance de Robin Williams, que aqui fez, talvez, o trabalho mais contido e devastador de toda a sua trajetória. Em uma filmografia marcada pela energia, pelo improviso frenético e pela persona do comediante que habita o centro do palco, Williams escolheu para o psicólogo Sean Maguire o caminho da subtração. A genialidade da sua atuação está no “não fazer”: o olhar vazio de um homem que sobrevive ao luto, a postura levemente curvada de quem carrega o peso de uma vida interrompida e a contenção vocal que explodia apenas nos momentos certos. Diferente de outros papéis onde ele buscava o afeto imediato do público, aqui ele mostra uma vulnerabilidade rústica, quase áspera. A cena da confissão no banco do parque, onde Maguire desconstrói a pretensão acadêmica de Will Hunting com uma naturalidade desconcertante, é o coração técnico do filme; é ali que o espectador entende que Williams está oferecendo o seu próprio corpo como um espelho para a dor do rapaz. Ao ganhar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por esse papel, ele foi premiado pelo carisma e pelo reconhecimento de um ator que, ao silenciar o seu próprio ruído, permitiu que a humanidade do personagem falasse mais alto do que qualquer truque cênico.

 

 

O sucesso colossal de “Gênio Indomável” deu a Gus Van Sant o cobiçado “cheque em branco” de Hollywood. E o que ele fez com esse poder? Exatamente um ano depois, em 1998, lançou o experimento mais bizarro e suicida de sua carreira: um remake plano a plano de “Psicose”, de Alfred Hitchcock. O filme foi massacrado pela crítica, gerou prejuízos e alienou o diretor da mesma indústria que acabara de abraçá-lo. É exatamente aqui que “Encontrando Forrester” entra na equação, respondendo à pergunta do porquê ele filmou algo tão parecido logo na sequência. Em 2000, Van Sant precisava desesperadamente reconstruir seu capital político em Hollywood para poder financiar os projetos experimentais que realmente queria fazer (e que viriam logo depois, com sua aclamada “Trilogia da Morte”, iniciada por “Gerry” e “Elefante”). Quando o roteiro de Mike Rich — um radialista que havia vencido um concurso de roteiros — chegou às suas mãos, já com o peso de Sean Connery como produtor e protagonista, Van Sant viu ali um porto seguro. Era o espelho perfeito de “Gênio Indomável”: o jovem prodígio da periferia (desta vez Jamal Wallace, do Bronx) e o mentor genial recluso (o autor William Forrester).

 

Apesar de ser um recuo para uma fórmula segura, Van Sant filmou “Forrester” com uma maturidade visual muito superior e uma abordagem quase oposta em seus detalhes técnicos. Diferente do truque geográfico do filme anterior, “Encontrando Forrester” foi rodado nas locações reais de Nova York. Van Sant e o diretor de fotografia Harris Savides, seu colaborador mais genial, capturaram o contraste palpável entre a luz estourada e viva das quadras de basquete do Bronx e a clausura empoeirada do apartamento de Forrester no Bronx (este último, um cenário meticulosamente construído em estúdio). Savides usou lentes mais soltas e uma textura visual quente, quase tátil. A trilha sonora acompanhou essa mudança de temperatura. Saiu o folk melancólico e entrou o jazz de Bill Frisell, Miles Davis e Ornette Coleman. Essa escolha não foi cosmética; o jazz, com sua fundação no improviso e na quebra de compasso, refletia o próprio método de escrita que Forrester tentava ensinar a Jamal: “escreva com o coração, reescreva com a cabeça”. A dinâmica no set também refletiu essa cadência. Enquanto o primeiro filme se sustentava na metralhadora de diálogos entre Damon e Robin Williams, a relação entre o veterano Connery e o estreante absoluto Rob Brown foi esculpida no silêncio, no espaço entre as palavras, culminando no uso catártico da versão de Israel Kamakawiwo’ole para “Somewhere Over the Rainbow” nos letreiros finais.

 

Os dois filmes formam uma dupla estética sobre as armadilhas da genialidade e as instituições que tentam domá-la. Van Sant utilizou o roteiro de Damon e Affleck para provar que sabia jogar o jogo de Hollywood, e usou o roteiro de Mike Rich para limpar seu nome após quebrar as regras desse mesmo jogo. Mas, ao longo do caminho, o cineasta imprimiu sua assinatura inapagável em ambos. Ele transformou estúdios em santuários de luto, e cidades como Boston e Nova York em grandes labirintos onde a verdadeira inteligência não é medida por fórmulas matemáticas ou prêmios literários, mas pela coragem de abrir a porta de casa e permitir que alguém de fora finalmente entre.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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