Top 13 – Gilberto Gil (Feliz Aniversário!)

 

Gilberto Gil faz 77 anos hoje. Não há na música brasileira um músico tão plural, valoroso, inventivo e democrático como Gil. Fosse ele americano ou inglês, seria um dos gigantes da música mundial. Fluente no idioma da música regional brasileira, da música negra americana, da música moderna do planeta. Gil é compositor virtuoso, elaborando melodias e letras sensacionais. Tropicalista, iconoclasta, cidadão do mundo e Homem da Renascença, Gil é tudo isso e muito mais.

 

Por isso, resolvi selecionar seus treze discos mais importantes e colocá-los aqui, como se fosse um guia para conhecer e se maravilhar com as criações deste colosso da cultura nacional – mundial.

 

Parabéns, parabéns. E muito, muito obrigado.

 

 

– Realce (1979) – Até hoje, este é um dos discos mais arrojados da música brasileira e sempre o será. Gravado em Los Angeles, num tempo em que a Califórnia era o centro criativo do mundo, com tudo o que havia de mais moderno então. Músicos gringos, influência da música afroplanetária do Earth, Wind And Fire e um repertório que vai de “Toda Menina Baiana” a “Não Chores Mais”, passando por “Superhomem – A Canção” e a faixa-título. Um estrondo. Gil foi o primeiro artista brasileiro a entrar nos anos 1980.

 

 

– Refavela (1977) – Gil gravou este disco após voltar da Nigéria, onde participou do II Festac. Lá viu o quanto a diáspora africana era forte e abrangente. Chegou no Brasil endoidecido, arregimentou músicos de primeira linha e misturou Bahia, Black Rio, África, ressignificando tudo, criando uma espécie de marco temporal daquele período cultural e histórico. Nem precisava ter feito canções maravilhosas como a faixa-título, “Balafon”, “Aqui e Agora”, “Sandra”, “Patuscada de Gandhi”.

 

 

– Refazenda (1975) – A Tropicália já havia acabado há uns cinco anos e Gil permanecia imerso em seu conceito principal: a regurgitação cultural após a absorção de novas informações. Ou seja, a tradição modificada pela novidade, algo que sempre norteou suas criações. Aqui ele se volta para o interior do país, refaz o êxodo rural, revisita o Nordeste essencial de sua vida e se sai com uma obra tão importante quanto complexa. “Refazenda”, a canção, é uma das mais importantes e complexas criações artísticas brasileiras em todos os setores. Um disco colossal.

 

 

– Raça Humana (1984) – Um dos maiores discos dos anos 1980, frequentemente esquecido em listas de melhores daquela década. Gil e Liminha, seu escudeiro e produtor nesta fase da carreira, novamente obtém resultados ótimos no estúdio, com Gil investigando o momento histórico de então, passando pelas Diretas Já e arremetendo para o futuro, que havia chegado sob vários pontos de vista. Ele cria verdadeiros tratados, como a faixa-título, “Tempo Rei” e “A Mão da Limpeza”, além de hits certeiros na época, como “Vamos Fugir” e “O Rock do Segurança” e uma canção perfeita: “Pessoa Nefasta”. Gil dialogou com o rock nacional como nenhum outro de sua geração.

 

– Expresso 2222 (1972) – Recém-chegado do exílio, Gil, que aproveitara seu tempo em Londres para se conectar com o que estava acontecendo no rock e na cultura locais, estava com fome de bola. Entrou em estúdio e concebeu um disco sobre o futuro que idealizara e que, parecia então, nunca chegaria. Não só isso, “Expresso 2222” era uma espécie de crônica do próprio fracasso de uma utopia brasileira que se tornada uma distopia a céu aberto. Pelo menos trêss canções são clássicos absolutos: “Oriente”, “Back In Bahia” e a faixa-título.

 

 

– Gilberto Gil (1969) – O melhor disco do Gil tropicalista, sempre com o futuro à sua frente mas muito mais perto do que parecia. A crônica da vez era a sensacional “Cérebro Eletrônico”, que faz tudo mas é mudo. Crítica à mecanização indiscriminada da vida cotidiana, algo que seria tratado pelo Kraftwerk em outra linguagem, anos depois. Além dela, “Dois Mil e Um”, “Objeto Semi-Identificado” e a sensacional “Aquele Abraço”, que mandava uma banana para o Brasil da ditadura militar, com cutucadas sensacionais no senso comum imbecilizado que teima em recrudescer no país. E pensar que houve gente pensando que era uma canção de amor ao Rio…

 

 

– Luar (1981) – Espécie de irmão mais jovem de “Realce”, “Luar” confirmava o pioneirismo de Gil na década de 1980 e sua desenvoltura com o padrão técnico de criação da época, algo que se traduz perfeitamente nas mutações que sua música sofrera em questão de dois anos. Faixas polidas como “A Gente Precisa Ver O Luar” e “Lente do Amor”, que foi tema da série global Amizade Colorida. Isso sem falar na excelência de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, que Gil queria ver cantada por Roberto Carlos, e “Palco”, um dos maiores clássicos de sua carreira em todos os tempos.

 

 

– Gil e Jorge (1975) – Um encontro surgido na sala de estar da casa de André Midani e transformado em disco. Apesar de não ser perfeito como poderia, este álbum tem momentos de impressionante espontaneidade, parecendo mesmo que estamos diante dos dois artistas em momento de criação total. “Essa É Pra Tocar No Rádio”, “Meu Glorioso São Critóvão” são exemplos em que as fronteiras entre Gil e Jorge são borradas, fazendo com que eles recriem canções um do outro, num momento raro. De quebra, oculto nos créditos, um certo Cat Stevens, então no Rio, participa com violões.

 

 

– Extra (1983) – Um discaço meio esquecido no início roqueiro dos anos 1980. “Extra” é um trabalho mais focado que “Luar”, por exemplo, e apresenta o Gil plural e antenado com seu momento. Ele já assimilara o ideário do rock brasileiro de então e expressava seu olhar na ótima “Punk da Periferia”, visitava o reggae primordial na faixa-título, o samba em “Mar de Copacabana” e, como se não fosse suficiente, oferece ao público uma de suas mais lindas canções em todos os tempos: “A Linha e o Linho”. “Extra”, o disco, é muito maior do que se supõe, um trabalho que reafirmava o protagonismo de Gil no período.

 

 

– Um Banda Um (1982) – Outro trabalho sensacional deste Gil oitentista, que se estabeleceu primeiro em “Realce” e seguiu década adentro. Aqui ele reafirma esta ótima fase, não só mais um trabalho exemplar em termos de bom uso do estúdio e das técnicas inovadoras que haviam chegado há pouco tempo, mas com uma nova safra de clássicos instantâneos: a belíssima “Drão”, as ótimas “Andar Com Fé” e “Deixar Você”, além de outro clássico de seu repertório: “Esotérico”, que tem o verso definitivo “porque mistério sempre há de pintar por aí”. Outro discaço.

 

 

– Gilberto Gil (1968) – O Gil tropicalista em assimilação total das influências roqueiras da época, misturando-as – como informação vinda de fora – aos ritmos e tradições nativas, criando algo novo. Esse era o mote que ele seguia à risca. Desta orientação primordial, surgiam, por exemplo, a doçura de “Luzia Luluza” ou “Domingo no Parque”, uma espécie de síntese literária moderna, filha-sobrinha da grande tradição de autores como Jorge Amado ou Graciliano Ramos. Mas o momento máximo dessa mistura é “Procissão”, em que o Nordeste religioso é revisto e repensado em meio a solos impressionantes de guitarra e letra que ataca o oportunismo eleitoreiro dos coronéis do sertão. Uma aula de Brasil.

 

 

– OK OK OK (2017) – O disco de 2017 de Gil está para sua carreira como “Caravanas” está para a de Chico Buarque. Aqui ambos abraçam sua idade, dialogam com quem permaneceu vivo no mundo – e nas memórias – e reafirmam sua presença, mesmo que seja como homens velhos e experientes, incapazes de algumas coisas, mas muito mais capazes de outras. Produzido e assistido pelo filho Bem, Gil atravessa o tempo como se fosse o rei dos animais e se sai especialmente bem na faixa-título e na impressionante “Ouço”, cujo verso “Ouço todos os corações do mundo, sim, todos eles, me tomando de assalto”.

 

 

– Dia Dorim, Noite Neon (1985) – Outro disco oitentista de Gil, certamente o ápice de seu diálogo com os novos tempos. Aqui ele registra em “Nos Barracos da Cidade” uma crítica política como há muito não fazia e dá um abraço explícito no rock nacional em “Roque Santeiro, O Rock”, além de ascender a esferas altíssimas em termos de letra e síntese em “Logos x Logo”, com o verso “trocaram o logos da posteridade pelo logo da prosperidade”. Novamente a produção de Liminha é um diferencial, conferindo polimento e modernidade totais.

 

 

Duas Menções Honrosas:

– Em Concerto (1987) – Gravado ao vivo no Projeto Luz do Solo, com a participação caótica de Jorge Mautner. Gil conta histórias, fala de si e de sua carreira e enfileira versões impressionantes de “Filhos de Gandhi”, “Domingo no Parque”, “Palco”, “Soy Loco Por Ti America”, além de verter Stevie Wonder para o português em “Só Chamei Porque Te Amo”. Na minha opinião, a interpretação de “Procissão” presente neste disco é a definitiva. Gil confere um clima mágico, de violões sacros e teclados que dão à canção uma aura transcendente que o original não consegue transmitir. Impressionante.

 

 

 

– Kaya N’Gan Daya (2002) – Gil sempre foi um dos artistas brasileiros mais fluentes no reggae. Por isso, não é espanto ver a desenvoltura que ele obtem neste disco-tributo ao repertório de Bob Marley, gravado na Jamaica. Aqui ele não só revisita, mas recria, várias canções, conseguindo resultados sensacionais em “Waiting In Vain”, “One Drop” e acrescentando um verso em português a “Time Will Tell”, transformada em “Tempo Só”, que quase faz a canção tornar-se sua: “Jah jamais permitirá que as mãos do terror venham sufocar o amor, somente o tempo, o tempo só, dirá se irei luz ou permanecerei pó, se encontrarei Deus ou permanecerei só, se ainda hei de abraçar minha avó. Somente o tempo, o tempo só”.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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