O soulman Alex Chilton retorna ao vivo

 

Alex Chilton – Boogie Shoes: Live On Beale Street

Gênero: Soul, rock

Duração: 43:51 min.
Faixas: 10
Produção: David Less
Gravadora: Omnivore

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

No início dos anos 1990, via Bizz, uma geração de fãs brasileiros de música descobriu o Big Star. A banda de Memphis, Tennessee, liderada pelas mentes pensantes de Chris Bell e Alex Chilton, gravou poucos e importantes álbuns, tendo seu destino marcado decisivamente pela depressão e consequente morte de Bell em 1978. A sonoridade folk rock perpetrada pelo Big Star, misturada com influências decisivas de Beatles e Byrds deu a eles o status de cult band e serviu de inspiração para formações queridas dos anos 1990, como Posies, Teenage Fanclub, Fountains Of Wayne e várias outras. Pois bem, Chilton, nunca foi um folk rocker. Estava presente no Big Star como uma espécie de contraponto rock à persona de Bell, este sim, um ser mais contemplativo e tristonho. Chilton era, na verdade, um soulboy, ex-vocalista de uma adorável formação sessentista, The Box Tops, que chegou a cravar um hit dourado em seu tempo, “The Letter”. Após o Big Star, em carreira solo, Alex Chilton nunca foi um rockstar, pelo contrário. Lançou discos estranhos, idiossincráticos e peculiares, mas todos com pontas de sua genialidade. Após sua morte em 2010, vários lançamentos de sobras de estúdio, gravações obscuras e ao vivo surgiram, mas nenhuma é tão adorável quanto este “Boogie Shoes”, que oferece ao ouvinte cerca de 44 minutos de imersão no que a música americana tem de melhor.

 

Como se não bastasse a excelência, digamos, estética, do disco, ele ainda tem razões muito nobres para existir. O álbum oferece boa parte de uma apresentação de Alex em Memphis, no Frestock, um evento feito para arrecadar fundos para o tratamento médico de Fred Ford, um dos responsáveis pelo Beale Street Music Festival. Chilton foi convidado para participar e, como não tinha músicos para acompanhá-lo na ocasião, foi reunido um timaço de cobras criadas da cena soul da cidade, incluindo aí os metais e a seção rítmica da Hi, uma lendária gravadora de Memphis. Esses músicos já haviam participado de gravações históricas de gente como Ann Peebles, Ike & Tina Turner, O. V. Wright, Otis Clay e o sacrossanto reverendo Al Green. Ou seja, foi a junção de dois lados da mesma moeda. Chilton concordou e se apresentou no Fredstock, que ocorreu em 1999. O resultado é este disco.

 

São dez faixas que percorrem o caminho das pedras da década de 1960, sob o ponto de vista de uma criatura americana como Chilton. Tem o amor devoto ao rock básico, ao r&b lascivo e àquela música soul que, tanto elevava os espíritos, como oferecia outros tipos de comunhão, humanos, terrenos, perfeitos. Alex é anunciado, sobe ao palco e, para certa surpresa do ouvinte e da audiência, engata uma versão maravilhosa de “Boogie Shoes”, a faixa-título do álbum, originalmente de KC & The Sunshine Band. A partir daí, é um desfile de pepitas douradas do imaginário americano sessentista. Temos “Precious, Precious”, de Otis Clay, com seu andamento de balada soul dourada e sentida, com ótima presença do naipe de metais e o acendo de Chilton para a banda, dizendo que a próxima canção é “634-5789”, imortalizada por Wilson Pickett.

 

A partir daí, o ouvinte já está lá, na beira do palco. Entram “Kansas City” (Jerry Leiber e Mike Stoller), “Lucille” (de Little Richard) e “Big Boss Man”, de Jimmy Reed, três paradas obrigatórias nessa viagem de carro pelas estradas do sul dos USA. Só que, a partir daí, Chilton muda o itinerário e nos leva para Detroit, numa adorável versão de “Where Did Our Love Go”, das Supremes, só para voltar ao sul, para o Missouri de Chuck Berry e sua maravilhosa e definitiva “Maybelline”. Após sua execução, Chilton avisa que vai continuar com outra canção que tem nome de mulher no título e engata “Hello Josephine”, de Fats Domino, com uma levada exuberante. O fecho vem com “Trying To Live My Life Without You”, outra de Otis Clay.

 

Esta gravação ao vivo deve ter influenciado decisivamente na obra de Chilton, porque, um ano depois, ele lançaria uma adorável coleção de covers, chamada “Set”, na qual ele segue enfileirando clássicos sensacionais e não tão óbvios para o ouvinte. Este registro no Fredstock, “Boogie Shoes”, é um desses momentos em que não há ninguém melhor no mundo do que as pessoas que estão no palco, tocando aquelas canções. Ao longo destes 44 minutos, Alex Chilton e a Hi Rhytmn Section foram as melhores pessoas do mundo.

 

Ouça primeiro: o disco todo, sem pular.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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