O melhor filme de Tom Cruise

 

 

Não adianta negar: Tom Cruise não é um bom ator. Ele tem algumas atuações que se destacam em meio a um oceano de desempenhos sofríveis e ruins, mesmo em seus filmes mais populares. Ou vocês vão dizer que “Top Gun” é um longa bacana por conta da atuação shakespeariana de Cruise? Claro que não. Ou que os “Missão Impossível” são sensacionais por conta da presença dele no elenco? Bem, talvez sim, mas isso talvez funcione mais como uma garantia de eficácia do filme do que como algo que vai proporcionar uma aula de dramaticidade. Também não. O próprio Cruise talvez nem se ligue muito nisso, apesar de ter entregado três atuações marcantes em sua extensa trajetória: “Nascido a 4 de Julho”, “Trovão Tropical” e, vá lá, “Jerry Maguire”. Apesar de ótimos, nenhum destes é seu melhor filme. Este posto vai para o inesperado e sensacional “Feito na América”, que estreou na Netflix por esses dias. Detalhe, “Nascido a 4 de Julho”, de Oliver Stone, também está disponível a partir desta semana e vale ser visto.

 

Produzido e lançado em 2017, o longa é dirigido por Doug Liman, que já havia selado a parceria com Cruise em “No Limite do Amanhã”, de 2014 e já tem outros dois projetos engatilhados com o astro: “Luna Park” – um sci-fi sobre um levante trabalhista na … Lua – e “Cannonball Run”, remake da abilolada comédia de 1981, que tinha Roger Moore, Jackie Chan, Don deLuise e um elenco sensacional. Em “Feito na América” a dupla tem um desempanho extremamente legal, surpreendente até. É desses filmes que misturam ação e comédia em doses muito bem equilibradas, sobrando espaço para narrativas baseadas em fatos reais. Cruise é Barry Seal, um ex-piloto comercial da TWA, recrutado pela CIA após ser pego com contrabando. Ele é inserido no contexto da América Central pré-anos 1980, em que os Estados Unidos usaram e abusaram de “espalhar a democracia”.

 

Logo a missão de Barry se transforma num rocambole de eventos verídicos e incrivelmente hilários, que o levarão a fazer amizade com governos, revolucionários, traficantes de drogas e até com o nascente Cartel de Medelin, com Pablo Escobar e tudo, de quem se torna piloto principal na rota até os Estados Unidos. Os fatos vão se ligando uns nos outros e o enriquecimento ilícito de Barry, misturado com todo o tipo de picaretagem e ótimas cenas aéreas – ele pilota um belíssimo Piper Aerostar, bimotor – no qual leva e traz todo tipo de mercadoria escusa. Neste terreno, Cruise se transforma num adorável e aparvalhado picareta, impossível de ser odiado. Ele debocha das autoridades, porque percebe que elas utilizam o mesmo modus operandi dos “bandidos”, enquanto vai notando que as ideologias se desmancham diante do dinheiro fácil que vai brotando.

 

Com um bom elenco de apoio, que inclui Domhall Gleeson, Jesse Plemmons e Sarah Wright, “Feito na América” flui belamente e tem cenas realmente engraçadas, como, por exemplo, quando Barry está usando vários orelhões da cidadezinha de Mena, Arkansas, e tem, ao mesmo tempo, CIA e Cartel de Medelin na linha, revezando diálogos. Ou quando é solto de uma condenação de décadas de prisão por Bill Clinton, tendo oferecido antes um Cadillac a cada um dos vários policiais – de várias agências americanas – que o prenderam. De quebra, o filme não tem o menor pudor na exposição absoluta da interferência americana na Nicarágua, financiando e treinando os “contras”, que se opunham ao governo sandinista revolucionário. Várias imagens de arquivo de Ronald Reagan, presidente americano da época, são mostradas como contraponto da política externa altamente questionável de seu governo, fazendo tudo parecer inacreditável. Por fim, o escândalo Irã-Contras, como ficou conhecido, é mencionado e mostra como a CIA se safou de tudo que a ligava às operações ilegais de Barry Seal.

 

Sério, o filme é ótimo. Não perca.

 

Em tempo: a trilha sonora é sensacional, trazendo de Townes Van Zandt a Linda Ronstadt, passando por … Hooked On Classics.

 

American Made (EUA, 2017)

Direção: Doug Liman

Com: Tom Cruise, Sarah Wright, Domhall Gleeson, Jesse Plemmons.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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