A Live do Lulu

 

 

Lulu Santos, claro, realizou uma live neste período de quarentena. O formato já se transformou numa espécie de “visto” para a carreira dos artistas brasileiros. A discussão sobre o formato já foi exaurida aqui no site e, sinceramente, a ideia agora é tentar analisar o que está surgindo, especialmente pelo fato de estarmos diante de uma nítida evolução do que já significou “live”. Se ainda há gente – como eu – que prefere a espontaneidade original, é possível notar uma progressão estética nas lives que vai na direção contrária. Cada vez mais elas surgem superproduzidas e arrojadas e, neste campo, ainda não vi nenhuma que fosse mais arrojada que a de Lulu Santos.

 

Todos sabemos três coisas sobre ele: Lulu já não grava nada relevante há décadas – exceto pelo interessante último disco, “Pra Sempre”; poucos artistas têm um repertório tão legal e, sim, a voz de Lulu – que nunca foi essas coisas – já desapareceu quase por completo. Por essas e outras, a live que ele apresentou ontem no Youtube visou reproduzir um clima de show profissional. Com banda completa (cada um em sua casa), produção impecável, som perfeito e o patrocínio da Renner, Lulu deu um espetáculo de profissionalismo e respeito ao público. Claro, levando em conta as pessoas que esperam que uma live tenha exatamente o que um show profissional ao vivo tem. Para as que pensam que o evento é intimista e tal, o que vimos ontem foi, bem, deixa pra lá, a discussão não é mais essa. O próprio Lulu admitiu o desejo de fazer uma apresentação que reproduzisse um show seu, com o máximo de perfeição. Conseguiu.

 

De fato, o repertório que Lulu Santos construiu ao longo de décadas de carreira é impecável. Poucos artistas no pop nacional têm algo semelhante, especialmente porque ele teve fluência tanto nas canções agitadas como nas baladas e sempre soube se cercar de ótimos músicos. Que artista pode emendar uma manjada mais eficaz cover de Frenéticas (“Dancing Days”) com “Sábado À Noite” e, depois mandar uma sequência de clássicos oitentistas como “Um Certo Alguém”, “O Último Romântico” e “A Cura”, todas executadas acusticamente? E as baladas também estiveram presentes – momentos em que a voz de Lulu entra num timbre gravíssimo, complicado mesmo -, casos de “Certas Coisas”, “Lua de Mel” e as indefectíveis “Lua de Mel” e “Como Uma Onda”. Também houve espaço para duas canções do novo álbum, “Orgulho e Preconceito” e “Pra Sempre”, bem inseridas no contexto. Além disso, duas ótimas canções, algumas das últimas que ele compôs com real importância e qualidade para integrar sua carreira, estavam lá: a ótima “Já É” e a praticamente perfeita “Aviso aos Navegantes”.

 

No fim das contas, a live do Lulu, devidamente turbinada por recursos que a maioria dos artistas não têm, atendeu ao que seu público esperava: um show profissional do artista. E nada mais, ainda que isso seja, de fato, bastante.

 

Em tempo: a defesa da necessidade de ajudar a classe artística e a importância de prestigiar os profissionais envolvidos na produção de um show foi uma bola dentro. É legal que um artista com a projeção que Lulu desfruta hoje em dia se pronuncie a favor dos profissionais.

 

Em tempo 2: A defesa do SUS foi surpreendente e sensacional.

 

 

Setlist

Deixa isso pra lá
Tempos modernos
Toda forma de amor
Sábado à noite
Dancing Days
Certo Alguém
Último Romântico
A cura
Apenas mais uma de amor
Tudo bem
Tão bem (trechinho)
Certas coisas
Orgulho e preconceito
Sócio do amor
Aviso aos navegantes
Já é
Assim caminha a humanidade
Pra sempre
Lua de mel
Sereia
Como uma onda
Casa
Descobridor dos sete mares

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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