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O “EP político do U2” chega de surpresa

 

 

 

 

U2 – Days Of Ash EP
25′, 6 faixas
(Island)

2 out of 5 stars (2 / 5)

 

 

 

 

Olha o U2 aí, gente! Chora cavaco! Certamente seria assim que o baluarte Neguinho da Beija-Flor receberia um lançamento da banda irlandesa num período tão próximo ao nosso Carnaval. Ou talvez só seja um jeito engraçadinho para começar esta análise de mais um lançamento estéril do U2 em tempos pós-2004. Sim, porque – já dissemos aqui – Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Jr estão num abismo criativo que já vai para 22 anos. A gente também falou – veja link aqui – do quanto o grupo vem dando provas constrangedoras de ter perdido o gume afiado que deu ao mundo suas melhores criações, entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 1990. Neste tempo, sem sombra de dúvida, o U2 teve, como chama o The Guardian, o seu “período imperial”. Faz sentido. Eles estiveram na ponta de lança de uma vanguarda estética do rock, que entendeu a mistura com música eletrônica como um caminho viável para seguir relevante, moderno e instigante, algo que, a meu ver, é essencial para contestar qualquer coisa e delimitar terreno. Influenciaram de Jeff Buckley a Radiohead e Coldplay. A menos que você seja um Rolling Stones ou um The Who, que não precisa delimitar nada ou provar algo, o U2, por maior que tenha sido, não conseguiu preencher sua ficha de admissão nesse clube incontestável do rock. Esteve a um passo disso, mas, justamente perdeu sua chance quando decidiu “voltar às origens” em 2000, quando lançou o contido “All That You Can’t Leave Behind”. A partir daí, o caldo começou a desandar e deu no que deu. Sendo assim, temos esse “Days Of Ash EP”, um “lançamento político” que não muda nada no jogo recente da banda.

 

Fico imaginando se alguma pessoa ao redor do mundo vai pegar as seis faixas de U2 e, a partir delas, pensar: pô, esses caras estão certos, eu vou mudar tudo a partir de agora, derrubar o sistema, fazer justiça e tal”. Sério, não consigo imaginar qualquer pessoa minimamente engajada com lutas vigentes no planeta que sejam atingidas por essas canções. Não que elas sejam totalmente ruins, nem são, mas, sério, ouvi-las dentro dessa perspectiva é confirmar tristemente que Bono e sua turma não são mais uma fração do que foram, seja em termos líricos ou musicais. The Edge, o gênio da banda, responsável pelas estéticas sonoras que, devidamente compreendidas por outro gênio – Brian Eno – levaram o U2 para outro nível há décadas, hoje é apenas um guitarrista com uma marca registrada. É ele que aparece com mais destaque nas canções, fazendo seus riffs habituais e, sei lá, tentando soar relevante ou algo assim. Bono mantém seu vocal, devidamente vitimado pelo passar do tempo, mais ou menos no mesmo patamar de tons mais fortes e sussurros, pouco ou nada acrescentando. A cozinha segue competente, mas incapaz de algo minimamente original. É o que temos aqui.

 

Claro, temos os temas políticos vigentes. Temos “American Obituary” abrindo o álbum, em homenagem à ativista Renée Good, que foi assassinada por um agente do ICE em Minessotta, com guitarradas de The Edge por todos os cantos e aquele tom que tenta reeditar a força messiânica perdida pela banda ao longo do tempo e transformada tristemente em populismo de estádio. A juventude – que realmente muda as coisas – nem vai saber que essa canção existe. “Song Of The Future”, a terceira faixa, presta um tributo à jovem iraniana Sabrina Esmailzadeh, morta em seu país pela polícia, num dos fatos mais tristes dos últimos tempos, tristemente politizado pela lógica leste-oeste que rege as interpretações culturais. O ritmo dançante e funkeado me parece meio fora de lugar, mas essa é uma das canções que quase se salvam no habitat do álbum. Em “The Tears Of Things”, Bono vai fundo no estereótipo contestador de antanho, soando fora de lugar. Em algum ponto da canção, ele manda um “power to the people is so much stronger than the people who have power”. Então tá.

 

Ainda há duas canções. “One Life At A Time” soa mais etérea, num arranjo que abusa de efeitos vocais e violões dedilhados que, por fim, no meio da canção, soam elétricos e com groove, mas é uma dinâmica que não favorece a faixa, truncando e impedindo-a de deslanchar. E fim-final vem com a terrível “Yours Eternally”, uma colaboração com Ed Sheeran e o popstar ucraniano Taras Topola. O clima da canção é totalmente devedor ao formato Coldplay de canção de estádio, daquelas que precisam de efeitos especiais e pulseirinhas para ter sua totalidade compreendida pelo público. Triste.

 

A banda disse que essas canções nada têm a ver com o próximo álbum – previsto para este ano – que, segundo Bono e The Edge, terá uma temática totalmente diferente. Lembro de meu amigo Marco Antônio Bart que, certa vez disse: as bandas demoram muito tempo a acabar. Ele tem razão. Se o U2 tivesse encerrado suas atividades em 2004, nada disso teria acontecido. Teríamos a imagem preservada de uma formação relevante e responsável por grandes feitos em seu tempo. De lá pra cá, já 22 anos no tempo, só houve lançamentos irrelevantes. Esse “politizado” “Days Of Ash EP” soa mais como um portfólio encomendado para uma startup digital “elencar” pequenas manifestações controladas “contra os poderosos” para ser exibida numa grande rede de comunicação global em horário nobre. Irrelevante.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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