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Letrux dá passo atrás em novo álbum

 

 

 

Letrux – SadSexySillySongs
32′, 12 faixas
(Coala Records)

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

 

 

 

Letrux é legal, a gente sabe. Ela é articulada, inteligente, engraçada, esbanja talento e tem recursos líricos e musicais de sobra. Não por acaso, desde 2017 vem lançando ótimos discos que compõem uma trajetória respeitável na música alternativa nacional. Isso sem falar o tempo em que Letícia integrou o Letuce. E também não é por acaso que a própria Letrux sabe disso, elegendo a sua própria rota sonora como tema de seu novo trabalho. “SadSexySillySongs” é um disco de inéditas, mas que faz carinho na própria característica da cantora e compositora em sua obra, ou seja, fazer canções que se dividem em tristes, sexies e bobas, tudo junto, resultando na sua própria persona-obra. Tudo bem, é válido e justo, mas é preciso ter um elemento essencial – as canções que respondam por isso. E talvez respeitar suas características de um jeito mais, digamos, fiel. Letrux resolveu levar adiante a empreitada com um conceito que resvala numa abordagem minimalista, mais intimista, investindo em seu lado de intérprete, o que é bom, mas que, a meu ver, precisa ser amparado por boas canções. E a safra deste novo trabalho precisaria ser ótima para dar conta dessa proposta. E não é.

 

“SadSexySillySongs” visa espelhar os momentos propostos por “Letrux em noite de climão” (2017), “Letrux aos prantos” (2020) e “Letrux como mulher girafa” (2023), elegendo cada um deles como repositório de uma categoria de canções. Quem assina a produção é Thiago Rebello, fiel escudeiro e baixista da banda que acompanha Letícia e a própria soltou uma nota para a imprensa falando que o disco não é “acústico e sim minimalista”. Faz diferença e faz sentido. As canções foram arranjadas com muitos violões mas também tem sintetizador, tudo com o objetivo de concentrar as atenções no talento de intérprete. No fim das contas, a autorreferência dá as cartas ao longo do álbum, o que deixa as coisas num terreno perigoso. Até porque, além da teatralidade – talvez sua marca registrada – Letícia tem muito de Marina e Rita Lee, sintomaticamente, os momentos mais interessantes são aqueles em que ela soa parecida demais com essas inspirações. E há quatro faixas (uma delas, uma quase-vinheta, de pouco mais de um minuto) em inglês, meio sem sentido, mas tudo bem, são pecados menores.

 

Gostamos realmente de quatro momentos do álbum. E quando Letícia acerta a mão por aqui, acerta bem no alvo. A ótima “O Ciúme Me Dá Frio” é uma belíssima crônica de amor e insegurança femininas, confessional, na fossa e extremamente real. Fala mais alto a veia poética de Letícia, que sempre foi muito bem construída. O arranjo da canção lembra momentos mais lentos de Rita Lee, com sintetizadores e violões dialogando e tem alguns versos realmente bacanas: “Outro dia você colocou João Gilberto no som // Eu não gostei não // Não // Olha que eu amo João // Mas eu sei que João te faz lembrar dela” tudo isso com ótimos dedilhados de guitarras fraseando andamentos muito legais. A pegada mais pop de “Essa Cidade É Complicada” lembra muito Mahmundi e, novamente, Rita Lee e a Marina Lima dos anos 1980, com um inventário de lembranças sobre um relacionamento passado que insiste em ficar na lembrança, com Letícia lidando com dribles em lugares, músicas, intenções e sombras fortes o bastante para confundir lembranças e esquecimentos. O único problema dessa canção é que ela acaba aos dois minutos e meio. Poderia ser maior.

 

A Rita Lee do início dos anos 1980 dá o tom de “Caligrafia Tarada”, que tem um arranjo que se vale da mesma latinidade bolerística de coisas como “Caso Sério”, por exemplo. E novamente temos ótimos exemplos da poética letruxiana, que aparece em “Chega mais pega minha pela // Vem rabiscar // Pra ver se o mar se esvai”. E a outra faixa que completa esse quarteto de ótimas criações é “Over My Dead Body”, que segue no arranjo eletroacústico de synths e guitarras/violões, com uma especial beleza na melodia e no andamento. A mixagem e a produção são excelentes, tudo é bem nítido e bem pensado. Em certo momento, a canção muda completamente, introduzindo um elemento percussivo que passa a alternar com a moldura sonora inicial. E depois muda novamente. É, provavelmente, o momento mais criativo do álbum, com Letícia mandando bem na interpretação, entre o desespero e a mansidão.

 

No fim das contas, “SadSexySillySongs” fica aquém dos padrões estabelecidos pela própria Letrux em trabalhos anteriores. Mesmo assim, essas quatro canções que mencionamos são muito, muito boas. Letícia tem crédito, seguimos em frente.

 

Ouça primeiro: “Over My Dead Body”, “Caligrafia Tarada”, “Essa Cidade É Complicada”, “Ciúme me Dá Frio”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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