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Flea se aventura no jazz em disco solo

 

 

 

 

Flea – Honora
51′, 10 faixas
(Nonesuch)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Para muitos, o baixo de Flea é a alma dos veteranos Red Hot Chili Peppers, ou, na pior das hipóteses, a sua marca registrada. Seu baixo proeminente, vigoroso, dá sustento às criações da banda e faz bonito até com quem não gosta do que os Peppers vêm fazendo desde, pelo menos, 1998. Mas isso é papo para outra conversa. O fato é que o baixista lança agora, sessentão, o seu primeiro disco solo, “Honora”. Ele sempre disse que gostaria de gravar um disco viajante, jazzístico, com ênfase nos grooves, que avançasse sobre algo como uma interseção entre a psicodelia dos anos 1960 e o groove funk que se ergueu ao longo dos anos 1970. Tudo bem, não é pouca coisa e, como resultado desse processo de décadas, temos este interessante “Honora”. A primeira notícia, para fãs e não-fãs dos Peppers terem em mente é que não há nada remotamente parecido com o som da banda nestes mais de cinquenta minutos, divididos em onze faixas. Pelo contrário. Flea se reveza entre o baixo e o trompete, recrutando inclusive uma baixista para as sessões, Anna Buttress que, ao lado do guitarrista Jeff Parker, do baterista Deantoni Parks e do saxofonista Josh Johnson, forma a banda que conduz as faixas. Mas, tudo bem. É bom? Vejamos.

 

Flea assina quatro das onze faixas e recruta, além dessa galera que forma a banda central, um time respeitável de convidados. A presença de Thom Yorke no bom single “Traffic Lights” mostrou uma das facetas do álbum ao público: é um trabalho que se pretende moderno, ainda que devedor dessas influências mencionadas acima. Tem uma esquisitice típica das gravações de Yorke com o Radiohead e seus projetos paralelos, mas nada que seja necessariamente parecido com eles. A faixa tem um groove torto, percussão sutil, mas presente (a cargo de outro convidado, Mauro Refosco, colaborador também de Yorke e de David Byrne) e uma inegável sedução instrumental para uma galera jovem que adora dizer que ouve e entende jazz. É, digamos, algo bem próximo do estilo, mas que se põe ainda próximo do formato convencional de canção mais pop. Outro convidado interessante presente no time é Rickey Washington, o pai de Kamasi Washington, que deu aulas de trompete para Flea durante dois anos, com vistas a melhorar sua performance no instrumento. Rickey participa com flautas e saxofones ao longo das faixas.

 

E, bem, temos Nick Cave e Warren Ellis a bordo, enfatizando a opção por Flea de soar próximo dessa vanguarda Radiohead-Bad Seeds que encanta a várias pessoas “esclarecidas”, mas que pode, muitas vezes, soar próxima do tédio total. Cave aparece numa interessante versão de “Wichita Lineman”, clássico do pop americano, escrito por Jimmy Webb, em 1967, e já regravado por meio mundo. A abordagem da canção é … estranha, minimalista, com Cave sussurrando a letra e a banda provendo um instrumental esparso, desconfortável. Fazer versão de Webb não é novidade para Nick, que já gravou “By The Time I Get To Phoenix”, outro clássico do compositor, em seu disco de covers, “Kicking Against The Pricks”, de 1986. Há outras duas versões presentes: “Maggot Brain”, clássico do Funkadelic, composto por George Clinton e Eddie Hazel e “Thinkin Bout You”, de Frank Ocean. Ambas surgem em arranjos completamente surpreendentes, muito distantes dos originais, instrumentais, mostrando duas qualidades que fazem muita falta aos Chili Peppers há mais de trinta anos: ousadia e coragem.

 

As composições de Flea também soam ousadas e mostram o desejo do homem de se manter fiel ao que havia pensado como elemento central de seu álbum solo. Essa visão viajante-instrumental tangente ao jazz, sem fazer qualquer questão de andar por território familiar. E a grande prova desse acerto é quando ouvimos os quase onze minutos de “Frailed”, uma composição que tem a presença de Rickey Washington nas flautas e outro convidado ilustre: John Frusciante, guitarrista dos Peppers, aqui tocando … trompete, mostrando que os integrantes da banda têm uma predileção estranha por este meio sonoro como segunda língua musical. Ironias à parte, a composição é uma belíssima peça jazzística próxima do spiritual jazz, com tema ambiente, grandioso e que revela aos poucos o belo trabalho de arranjo e interplay. No fim do disco, duas pisadas na bola: “Willow Weep For Me”, que tem seu arranjo estragado por um sintetizador fora de contexto e “Free As I Want To Be”, que tem abordagem mais próxima dos Peppers, um passo atrás dado o contexto do disco, além de um coral masculino que soa quase caricato. Anti-climax total.

 

Flea mandou bem neste álbum solo. Ousou ao sair de sua proverbial “zona de conforto”, mas derrapou um pouco na falta de noção. Pecado menor. A parte boa de “Honora” supera com folgas as pisadas na bola. Ouça.

 

Ouça primeiro: “Thinkin Bout You”, “Traffic Lights”, “Wichita Lineman”, “Frailed”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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