Bruce Springsteen brilha em “Western Stars” – O Filme

 

 

Pouca gente ficou sabendo: “Western Stars”, longa dirigido por Thom Zimny e Bruce Springsteen, sobre o último disco que ele lançou, está em cartaz no país. Minha mulher ficou sabendo disso através de um grupo de fãs brasileiros do cantor e compositor. No e-mail de Célula Pop, onde costumam chegar notícias de filmes e convites para sessões para críticos, nada apareceu. Claro, é um circuito pequeno. Por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, só três salas exibem o filme – duas na capital e uma na gloriosa cidade de Niterói. E foi aqui que vimos.

 

A moça da bilheteria nos olha e comenta com a colega: – olha, não tem ninguém na sessão.

A gente se olha: claro. Afinal de contas, quem ficou sabendo que “Western Stars” passaria nos cinemas brasileiros? Ninguém. Veja, o longa sobre o novo disco de Bruce Springsteen não vai mudar a vida de ninguém, mas o sujeito tem fãs em todas as partes do planeta. Alguém verá o que ele produz. E os admiradores fiéis irão empenhar um rico dinheirinho para poder compartilhar das experiências que Bruce proporciona para quem acompanha sua obra. Ao fim dos 83 minutos de projeção, além de nós, apenas uma mulher estava na sala 1 do Reserva Cultural de Niterói.

“Achei esse filme lindo” – ela exclamou para nós ao sairmos da sala.

 

Não se trata de exigir mais salas para o filme que conta a história de um disco que nem foi lançado no país em versão física. Ou querer que todo mundo conheça e ame Bruce – seria desejável, mas não esperamos isso, infelizmente – mas de fazer circular a informação. Célula Pop nem veiculou que o filme seria lançado por aqui porque, como disse acima, não tínhamos esta informação. De quem é a culpa? Da produtora, da assessoria de imprensa, da distribuidora, de quem? Há quanto tempo não vemos um clipe de Springsteen em algum programa especializado? Ainda há algum?

 

Com a notícia terceirizada para a Internet, fica paradoxalmente fácil e díficil estar bem informado. Temo pela geração de pessoas na casa dos 20 anos que jamais ouviu falar no Boss e perde horas vendo youtubers e influencers que chafurdam na banalidade.

 

Sobre o filme: é Bruce interpretando os personagens que ele criou em “Western Stars”, um dos belos discos de 2019. Quando foi lançado, ele declarou que era um trabalho sobre os dois lados da América: o lado em que a família e a coletividade importam, no qual você deve se inserir e assumir compromissos e o lado da individualidade, à qual você precisa responder e cuidar para não ser cooptado pelo que não importa. Bruce admite ser complicado e confessa que estes dois aspectos fazem parte de todo cidadão americano, ele incluído.

 

Sendo assim, o filme é uma reflexão sobre o disco, com todas as suas músicas executadas ao vivo por Bruce, uma banda montada especialmente para a gravação do álbum – e do filme -, além de uma orquestra de trinta componentes. Esse pessoal usou um celeiro centenário numa propriedade de Bruce, para dar ambiência e alma às gravações. Entre as canções, imagens do deserto, de carros, de filmes em super 8 e de Bruce, que explica as letras, as inspirações e tudo que o levou a compor as canções e amarrar o conceito do disco. Musicalmente, um tributo ao pop americano do fim dos anos 1960, especialmente no sentido Glen Campbell/Jimmy Webb do termo. Aliás, além das treze faixas do álbum, Bruce solta uma cover emocionante para “Rhinestone Cowboy”, canção emblemática de Cambpell.

 

Como o disco tem alma própria e conceito peculiar, a sonoridade obtida nas gravações ao vivo ficaram melhores que as originais, justificando a atenção à trilha sonora, lançada lá fora e disponível – assim como o trabalho original – em serviços de streaming.

 

Ver o filme é certeza de prazer e imersão para fãs do Boss. Mesmo quem não é iniciado na carreira dele, irá ficar encantado pelas belas imagens, pelas reflexões e pelos ótimos números musicais, mostrando que Bruce, aos 70 anos, ainda tem inspiração e necessidade de se expressar em música. O homem segue relevante e com fome de bola.

 

Verifique as sessões na sua cidade, o filme deve ficar em cartaz por pouco tempo.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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