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“Cry Baby” é uma aula de hip hop contemporâneo

 

 

 

 

Vince Staples – Cry Baby
35′, 10 faixas
(Loma Vista)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Para quem acompanhou a última década do hip-hop, Vince Staples não surgiu como um rapper de conveniências. Vindo das ruas de Long Beach, Vince construiu uma carreira baseada na frieza de suas rimas e em uma recusa quase teimosa em seguir as tendências do mercado. Agora, em seu sétimo álbum de estúdio, “Cry Baby” (2026), Staples vem com um tratado curto e grosso sobre o cansaço e a desesperença de viver em um país que, para muitos, se tornou um pesadelo disfarçado de sucesso. Entender Staples nessa empreitada exige deixar de lado a imagem do rapper que busca o estrelato a qualquer custo, já que, desde que explodiu com “Summertime ’06”, há dez anos, ele se posicionou como uma voz quase documental sobre a vida em comunidades marginalizadas. Diferente de contemporâneos que romantizam a violência, Staples a vê como um trauma a ser decifrado e superado. Ele assume um lugar de cronista do cotidiano. E faz isso muito bem.

 

“Cry Baby” é agressivo e politizado, marcado pela mudança decisiva na produção ao trocar os samples clássicos e batidas de trap por instrumentação ao vivo, soando como um disco de tinturas lo-fi de rock e pós-punk. O disco soa tenso, propositalmente desconfortável, onde músicas como “Blackberry Marmalade”, “Go! Go! Gorilla” e “White Flag” parecem feitas sob medida para sonorizar discussões sobre o fim do “sonho americano”. Staples utiliza esse novo arranjo musical para criar uma atmosfera capaz de reproduzir a paranoia sistêmica americana vigente. Isso acaba transformando o álbum em um recorte compacto de 10 faixas e 35 minutos, onde cada momento é carregado de peso.

 

Em canções como “Only in America”, Vince destrincha as contradições de uma nação que prega a liberdade enquanto endossa o medo sistêmico como meio de vida e afirmação, provando que o disco tenta – e consegue – falar sobre o que apodrece a base da sociedade. Ao trocar a Def Jam pela independência da gravadora Loma Vista, Staples parece ter ganhado a liberdade necessária para ser menos “artista” e mais “profeta do caos”, fazendo a obra que sempre quis: um espelho político, sujo e necessário para os nossos tempos. “Cry Baby” é uma obra que trata o hip-hop como ferramenta de denúncia e experimentação, consolidando-o como um dos lançamentos mais agudos e essenciais deste ano.

 

Olhando para o cenário da música hoje, precisamos ser sinceros: a gente, aqui na Célula Pop, muitas vezes acaba deixando de lado a força e a profundidade política do rap. Existe uma riqueza de histórias e uma inteligência na forma como o hip-hop traduz os problemas do mundo que, às vezes, ignoramos, o que nos afasta de conversas importantes sobre a nossa própria realidade. Essa falta de atenção com o gênero nas nossas discussões faz com que percamos o contato com o que há de mais urgente na cultura, e é justamente por isso que um trabalho como o de Vince Staples se torna tão fundamental.

 

No fim das contas, a importância de “Cry Baby” em 2026 vai além da qualidade do disco. Staples não só eleva o nível do que esperamos do hip-hop. Se queremos entender para onde o mundo caminha e como a arte pode nos guiar politicamente é em discos como este que encontraremos as respostas que tanto buscamos.

 

 

Ouça primeiro: “Only In America”, “Blackberry Marmalade”, “Go Go Gorilla”, “Do You Know The Devil”, “The Running Man”, “White Flag”, “7 In The Morning”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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