Entrevista – Mariana Volker

Dançaremos em cima da dor – Mariana Volker

 

Mariana Volker é uma das poucas cantoras de sua geração que também é multinstrumentista a compositora. Não bastasse essa habilidade de cobrar escanteio e cabecear, a moça também tem noção típica daquele cascudo artesão de sucessos radiofônicos, que grudam na mente do ouvinte e só saem de lá com removedor. Sua carreira começou há alguns anos e tinha tudo para seguir um rumo, digamos, diferente do que temos hoje. Após uma reviravolta pessoal e artística, Mariana envereda por um novo caminho, buscando conquistar um espaço neste terreno movediço e estranho que é a música pop brasileira de 2019.

Bati um papo rápido com ela por conta do lançamento de “Gigantesca”, o primeiro single do disco que ainda sai este ano – segundo ela mesma. O clipe é uma maravilha de empoderamento/reconhecimento feminino e a canção é superlativa, um hit que já está entre os melhores do ano, mesmo em março.

– Seu clipe novo, “Gigantesca”, é uma pequena obra prima. Como surgiu a ideia de usar meninas para representar você e as mulheres?

Essa ideia surgiu lá atrás, numa sessão de terapia, onde eu era convidada a conversar com essa Mariana pequena, com questões e traumas que precisavam ser resolvidos – e que acabavam refletindo totalmente na Mariana de hoje. Era um processo muito difícil, eu hesitava muito, mas foi bem importante. Acho que foi daí que tudo nasceu. Depois, junto com a diretora Letícia Pires, destrinchamos essa ideia juntas, ela trouxe o olhar dela também, e pensamos de que forma cada uma das meninas apareceria e que história cada uma delas iria contar. Foi muito emocionante ver a coisa tomando forma e, depois, o resultado final. Impressionante como, cada vez que assisto, ainda me traz algo de novo.

– “Palafita”, seu primeiro EP é de 2014. Ouvindo ele e o single de “Gigantesca”, feito agora, dá pra notar uma grande evolução. Como você vê esses dois trabalhos?

Eu tive que morrer para nascer de novo. Passei por uma depressão musical e alguns problemas pessoais de 2015 a 2016 e fiquei basicamente sem cantar, sem tocar. Nada. Piano fechado, silêncio total. Foi um período bem estranho. Mas passando por esse processo de silêncio eu comecei a entender que seria impossível parar, e que o meu retorno estava pautado no que eu queria dizer, mais do que simplesmente querer cantar alguma coisa. Era sobre a fala, sobre a Mariana que escrevia, muito mais do que a Mariana que cantava. E nesse processo todo (foi uma gestação), Gigantesca nasceu pequenininha, cantada baixinho, numa noite solitária onde só tinha eu e o piano. Aos poucos as coisas começaram a fazer mais sentido, fui compondo outras músicas, lendo e escutando outras mulheres, me alimentando dessa energia de criação e comecei também a pensar mais sobre a sonoridade, em como deixar o meu som mais presente, mais em diálogo com o que escuto, soando mais no hoje. Foi um longo trabalho, dias de estúdio, mexe aqui, mexe lá. Renascer é um parto, viu? E você só descobre fazendo, não tem muito jeito. Acho que foi uma evolução natural e muito necessária, que só foi possível porque eu tive a delicadeza comigo mesma de me dar tempo e espaço, e silêncio, pausa, respiro.

A diferença brutal, pra mim, é que em Palafita, a maioria das músicas não eram minhas, não tinha um discurso traçado (mas sem crise em relação à isso), ele era um junção de fragmentos como uma colagem (por isso fiz uma colagem na capa), uma Mariana ainda perdida após terminar uma banda que durou toda sua adolescência. Inclusive a sonoridade ainda era muito conectada à minha antiga banda também.

Já esse trabalho que está vindo, começando com Gigantesca, tem um porquê muito definido, uma voz, uma força que finalmente encontrei aqui dentro. Acho que isso torna tudo muito mais especial. Enfim… Prometo que vem mais coisas por aí.

 

– Como foi participar do The Voice Brasil?

Foi uma experiência muito desafiadora, muito mais interna (eu comigo mesma) do que com o que estava lá fora. Não é fácil ficar exposta num programa com alcance nacional tão grande, exposta à criticas, comparações… Por mais que você tente, você se pega sendo exigente demais, entrando em paranoia, voando na ansiedade. Mas no final das contas você tem que relaxar e levar numa boa, tentar se divertir. Acho que funcionou pra mim nesse sentido.

 

– “Gigantesca” é uma baita música com letra sobre afirmação, orgulho e felicidade. Conta como foi a inspiração pra escrevê-la?

Eu realmente precisei me desligar de tudo e passar por esse processo de mergulho interno e silêncio para que Gigantesca viesse. Ela teve a ver como esse meu momento de ressurgir e me encontrar forte de novo, e de poder reinventar meu trabalho (e quem eu sou, é claro), de estar conectada, lendo, ouvindo e conversando com outras mulheres. Eu estava mergulhada em Viviane Mosé, na época, e acho que me influenciou bastante. Viviane é uma das mulheres mais inspiradoras pra mim.

 

– Se você tivesse que apontar um diferencial teu em relação às outras cantoras da sua geração em atividade, o que seria?

Puxa… acho que cada cantora tem o seu próprio diferencial. Cada pessoa é única, né? E acredito que o grande barato de cantar e se expor dessa forma é justamente poder buscar quais são as suas próprias forças, potências e fragilidades, encontrar sua própria voz e expor tudo isso ao público. Então sempre vai ser único, ai é que está a beleza da coisa.

 

– Quando você acha que sairá seu primeiro disco? O que a gente pode esperar?

O disco tem previsão para esse ano ainda! Sob produção de Pedro Sodré. Vai ser dançante, delicado e brutal.

Dançaremos em cima da dor!

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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