Durand Jones & The Indications – American Love Call

Gênero: Soul
Duração: 42 min.
Faixas: 12
Produção: Durand Jones and The Indications
Gravadora: Dead Oceans

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

Há um termo na crítica musical internacional para definir discos como este: deep soul. Já teve também um outro, bem parecido: vintage soul. Eles querem dizer quase a mesma coisa: uma banda ou artista que revisita o formato sonoro da soul music inicial, ou seja, aquela praticada na virada dos anos 1950/60, com mais aspereza nos vocais e nos arranjos de metais, mais próxima do R&B inicial. Mais Stax/Volt e menos Motown. É uma designação genérica, claro, mas que dá uma ideia razoável do que estes artistas querem fazer e dizer com sua música. Durand Jones and The Indiciations é uma dessas bandas. Jones é da Louisiana e foi para Bloomington, Indiana, para cursar a faculdade. Lá encontrou o resto do grupo e decidiram se juntar para viver o sonho. O resto é história – em movimento – ou, como disse o próprio vocalista: “move and groove”.

“American Love Call” é o segundo disco do grupo. É um trabalho de artesania musical, uma vez que tem êxito em recriar boa parte da estética soul de outro tempo, mas, uma audição mais atenta vai mostrar que esses caras já estão avançando sobre outros cânones da soul music, a saber, o Philly Sound e o caminho singrado pela nau de Curtis Mayfield quando estava nos Impressions. Uma das belezas do som que a banda faz é o contraste entre o registro rascante de Durand Jones e o falsete do baterista Aaron Frazer, recriando, guardadas as imensas proporções, a alternância entre vocalistas dos Temptations. E, sim, isso é um baita elogio.

Fazer deep soul nos USA da era Trump é falar do contraste entre a opressão do passado e a do presente. Por essas e outras, “American Morning Call” está cheio de canções que falam pra resistir e se organizar. Não poderia ser diferente ou mais coerente. Mesmo que isso seja atual e louvável, a música dos caras é muito mais interessante sob o ponto de vista dos timbres e evocação dos arranjos de metais e cordas clássicos e típicos da soul music, que ainda estão bem longe de ter a validade vencida. E há canções muito bonitas por aqui.

“Too Many Tears”, por exemplo, cantada por Frazier, tem um pedigree de canção de Smokey Robinson And The Miracles, sobre amor partido e não correspondido. A faixa-título tem parentesco com canções de consciência do calibre de “Wake Up Everybody”, de Harold Melvin And The Bluenotes, mostrando que, ao longo da extensão do país, as pessoas estão passando por perrengues e precisam resistir e reagir, fazer algo. É sincero por parte dos sujeitos, jovens e otimistas, como devem ser. “Walk Away” é balada de fim de relacionamento, crua e simples, enquanto “What I Know About You” arrepia com órgão e metais juntos, falando sobre amor e felicidade. A belezura, a joia da coroa, vem lá no fim do percurso. “How Can I Be Sure”, uma lindeza smokeyana mais setentista, com mudança de clima e arranjo lá pela metade e pinta de baladão de amor de FM, uma lindeza para ouvir junto com a pessoa amada.

Este segundo disco de Durand Jones & The Indications é uma pequena e sutil preciosidade que deve ser apreciada levando em conta os objetivos da banda, plenamente alcançados através dele: revisitar as influências douradas da soul music e inserir com delicadeza comentários sobre o presente, sem, no entanto, deixar que esses nossos tempos crus e estranhos contaminem demais as molduras sonoras. E isso eles conseguem. Um ticket para outros parâmetros musicais.

Ouça primeiro: “How Can I Be Sure”

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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