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Bora, time! Beatriz Serrano e o livro Descontente

 

 

 

O pior chefe/cliente que eu tive foi também uma das piores pessoas que conheci na vida.

 

Uma vez, no trabalho, numa dessas reconfigurações de espaço, me enfiaram numa sala fechada com mais três ou quatro caras da equipe, e foi uma das nossas melhores épocas. Ali a gente discutia ideias enquanto ouvia de Sorriso Maroto a Kraftwerk, fazia piadas, bebia café — tínhamos comprado uma máquina de expresso para a sala —, tirava dúvidas uns com os outros, criava insights para o restante do time, debatia a então preocupante situação do Vasco da Gama etc.

 

Mas um dia o chefe/cliente descobriu que ali se falava de futebol e se ouvia música. Não importava o quanto o trabalho rendesse; o importante era que ninguém fosse feliz durante o expediente e, se possível, que também não o fosse fora dele; que ninguém sorrisse, vivesse, transasse ou tivesse algo para dizer entre um café e outro. Um tempo depois, na sequência de uma crise gerida na unha, o chefe/cliente decidiu precisar do dinheiro de minha vaga para trazer alguém de competência questionável, mas que lhe fosse conveniente por motivos que não me interessam. Os chefes/chefes me demitiram com um tapinha no ombro e um desejo de boa sorte.

 

Passei algum tempo desempregado e deprimido depois disso, mas o lado bom foi não precisar mais esbarrar com o chefe/cliente. Só voltei a encontrá-lo na voz que saía do rádio de um carro de aplicativo, ao fim de um dia particularmente ruim, e em noticiários sobre denúncias que não deram em muita coisa, embora eu tenha torcido bastante para que dessem. O mercado de trabalho costuma produzir histórias assim. Lembrei desta ao começar a leitura de “Descontente”, da espanhola Beatriz Serrano (Editora Record, 2026).

 

Nas primeiras páginas, fica a impressão de que, se alguém publicasse parte dos pensamentos da protagonista Marisa no LinkedIn — aquela rede onde metade performa um amor que não existe por um trabalho que sabe ser menos relevante do que declara, enquanto a outra metade realmente parece acreditar no que diz, embora raramente consigamos distinguir os farsantes dos iludidos —, o mundo viria abaixo.

 

A trama acompanha uma diretora de contas de 32 anos em uma renomada agência de publicidade de Madri. Marisa enfrenta crises profundas de ansiedade, solidão, tédio crônico e dependência de ansiolíticos para lidar com o trabalho. Cansada de tudo, usa o cinismo para suportar a certeza de que todos os pormenores da agência não passam de uma grande atuação: seja um simples “oi, meninassss”, com o “s” estendido, ao entrar em uma reunião (que provavelmente poderia ter sido um e-mail); sejam as felicitações a uma colega que acaba de anunciar a gravidez, mas que, Marisa tem certeza, em alguns meses, pouco depois do nascimento da criança, será tratada como incapaz aos primeiros sinais de queda de performance.

 

O que começa divertido para o leitor, incluindo declarações como “Não sei qual vida me parece mais triste, se a do ladrão de cápsulas de café de empresa ou a da pessoa de quem roubam o café e que vive angustiada por causa do roubo”, vai aos poucos se tornando incômodo, porque não é preciso muito para esquecer que se trata de uma obra de ficção e não do desabafo de alguém que se sentava na cadeira ao lado da sua no trabalho.

 

“Para as pessoas do trabalho, não faz diferença se você sobrevive ou morre. Se eu morresse amanhã, a principal preocupação das pessoas que trabalham comigo seria saber quem ficaria responsável pela campanha de Natal.”

 

É como se Beatriz Serrano tivesse lido todos os relatos daquelas famigeradas planilhas das agências e os transformado numa história única — não que sorrisos e frases falsas, reuniões sem sentido, fofocas vazias no café ou a dependência de medicamentos para suportar a rotina sejam exclusividade das agências de publicidade, quando são parte inerente ao cotidiano do mercado de trabalho.

 

Tenho certeza de que boa parte dos que publicam no LinkedIn sobre Amar O Que Fazem E Ainda Serem Pagos Por Isso sorriria com tristeza ao longo de Descontente.

 

Mais uma lembrança: ninguém gostava daquele meu chefe/cliente, mas algumas pessoas faziam mais questão de fingir. Ele era como a criança do condomínio que ganha dos pais os brinquedos mais caros na esperança de que isso a ajude a fazer amiguinhos. Num momento particularmente triste e ridículo, lembro de sua secretária passando pela sala e anunciando: “Hoje é aniversário do fulano, ele está chegando! Quando ele sair do elevador, por favor, fiquem de pé e batam palmas!”.

 

Mais espelho que lente de aumento, Descontente é sobre cenas como essas. É sobre palestras motivacionais ao som de Coldplay, sobre chamar equipe de família quando não se sabe nada ou quase nada da pessoa que senta a poucas mesas de você, é sobre o discurso nocivo de vestir a camisa que, por fim, nos aproxima cada vez mais de uma camisa-de-força.

Jorge Wagner

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.

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