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Terceiro disco eleva a prateleira das Linda Lindas

 

 

 

The Linda Lindas – Gotta Get Out
36′, 12 faixas
(Reprise)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Se você gosta de rock em sua face punk/pós-punk com influências de Blondie, Ramones, L7 reempacotadas para o início do milênio, sem muita frescura, mas com certa dose de doçura, The Linda Lindas é sua melhor opção atualmente. Muito além dos esporádicos momentos enguitarrados de artistas como Olivia Rodrigo, Beabadoodee e similares, as Lindas são totalmente orbitantes dessa lógica, não fazem canções sem levar em conta dinâmica, peso e sempre reservam espaço para boas levadas de guitarra, viradinhas de bateria e demonstração de talento no baixo. Se elas começaram há quatro anos, com o surpreendente álbum “Growin’ Up”, puxado por um clipe em que cantavam seu primeiro single, “Racist, Sexist Boy” numa biblioteca pública, quatro anos depois dessa gloriosa estreia, Lucia de la Garza e sua irmã, Mila (guitarra e vocais, bateria e vocais), mais Eloise Wong (baixo, piano e vocais) e Bela Salazar (guitarra e vocais) estão surpreendentemente mais sólidas. Cresceram mas ainda são muito jovens, com idades que oscilam entre 16 e 22, porém sua sonoridade evoluiu a olhos e ouvidos. Abriram shows de Rolling Stones, de Green Day, de Smashing Pumpkins. Vão participar do Power To The People Festival, idealizado por Tom Morello, ao lado dele, de Bruce Springsteen, Foo Fighters, entre outros, no dia 03 de outubro. Agora chega esse terceiro e sensacional álbum, “Gotta Get Out”, uma pequena maravilha crocante.

 

A produção ficou a cargo de Carlos de La Garza, pai de Lucia e Mila, engenheiro de som e velha raposa de estúdio, responsável, entre outras coisas, pela ascensão do Paramore. Aliás, a vocalista da banda, Hayley Williams, participa da faixa “Closer”, acrescentando uma camada a mais de vocais e lastro à melodia, que já é bastante bacana por si só. O que surpreende em “Gotta Get Out” é a coesão das faixas, ainda que seja possível notar uma grande desenvoltura das Lindas no trânsito por vários estilos adjacentes. Há, inclusive, duas impressionantes concessões ao hardcore mais pesado em “Break” e, especialmente, “Blood In Our Hands”, nas quais a baixista Eloise Wong assume os vocais principais, tangenciando o gutural, em canções que atacam frontalmente a brutalidade dos estados unidos atuais sob trump. Para uma banda de meninas que começou a carreira atacando meninos racistas e sexistas, nada poderia ser mais coerente, ainda que a maturidade e o engajamento delas seja até emocionante, dada a passividade reinante. E tudo isso acontece com ótimas canções, todas muito bem pensadas, tocadas e produzidas. E há algumas novidades bacanas ao longo delas.

 

Um bom exemplo é a incorporação de timbres de teclados em várias faixas. Em vez de descaracterizar a música do grupo, essa decisão completou o espectro sonoro, tornou a banda mais fluente e abrangente sem perder o gume. Logo de cara, abrindo o disco, há um fraseado de teclado em “Gotta Get Out”, a canção-título, que tem alguns acenos a sons e situações que lembram o New Order de “Power, Corruption and Lies” e o The Cure de “The Head On The Door”, o que é perfeitamente bem-vindo e justificável. Para dar o contraste necessário, “Burning Out”, que vem em seguida, é construída por um riff de guitarra eminentemente pós-grunge, mas sem qualquer sombra de empastelamento que o rótulo poderia sugerir. Os vocais de Lucia De La Garza são competentes e melodiosos, e as outras meninas harmonizam muito bem. E o exemplo de versatilidade também permeia a maravilhosa “Helado de Limón”, minha preferida absoluta do álbum – cantada em espanhol, a canção é um libelo anti-sofrimento de meninas por conta de machismo pós-adolescente, construindo uma melodia memorável, com riffs que fariam o Foo Fighters corar de vergonha e uma letra que contém o verso sensacional: “No soy tu villana // Ni tu redención // Yo caminõ sola // Con mi próprio sabor” e, mais adiante: “No busco tu aplauso // Ni validación // Mi história la escribo // Sin tu opiniõn”. Aplausos. Muitos.

 

As canções ótimas pipocam. O riff anguloso de guitarra e a linha de baixo de “Nothing Left” são sensacionais, a melodia e o arranjo de “High Horse” também vão alto, com destaque novamente para o uso do teclado no meio da ambiência da canção, dando um tom pós-punk oitentista legítimo. Tem mais anos 1980 na levada aerodinâmica de “I Could Be Wrong” e um aceno afetuoso e apaixonado ao The Cure – que parece ser a banda queridinha da nova/novíssima safra de cantoras americanas alterntivas – em “Everybody Told Me”, que, a despeito da melodia contemplativa, também tem um pouco de Fleetwood Mac em sua dinâmica de baixo e bateria. Os vocais de Mina De La Garza, a baterista, dão um tom de fragilidade não-bundona que faz muito bem à canção. E “See You Next Time”, que fecha a conta do álbum, é totalmente tributária do rock harmonioso e tristonho do The Sundays, uma banda que parece estar em plena redescoberta por parte dessa geração de artistas femininas estadunidenses, o que é algo bastante louvável.

 

“Gotta Get Out” é um discaço. Seria um clichê abominável dizer que ele “é um álbum de gente grande” para contrastar com a juventude das Lindas e a gente não vai usá-lo, até porque, elas sempre foram relevantes e conseguem colocar sua juventude, sua paixão e força diante do mundo de um jeito absolutamente adorável que, como dissemos, chega a comover em alguns momentos. Admirável.

 

Ouça primeiro: todo o disco.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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