Neil Young volta reflexivo e nostálgico

Neil Young and Chrome Hearts – Second Song
42′, 7 faixas
(Reprise)
(4 / 5)
A primeira canção de “Second Song”, o quinquagésimo álbum de Neil Young, a sair como single foi sua faixa-título. Até aí, tudo bem. Com mais de onze minutos, ela mostra, sob o ponto de vista em primeira pessoa, Neil dirigindo uma picape dentro de seu rancho, percorrendo caminhos verdejantes num dia nublado, enquanto a letra vai surgindo na tela. A melodia foi arranjada como tantas outras gravadas por ele ao longo dessas seis décadas de atividade – instrumental folk calcado em violões, placidez por todos os cantos, evidenciando a sua persona que me é mais querida, responsável por obras primeiras como “After The Gold Rush” (1971) e “Comes A Time” (1978), dois de meus álbuns mais adorados desde sempre. Tudo seria mais do mesmo se não fosse por detalhes muito importantes: Neil está com oitenta anos, escreveu palavras e versos que constatam a passagem do tempo e parecem lamentar por uma época em que as pessoas eram mais capazes de expressar – e praticar – entendimento. Do próximo, das coisas, da vida. Esta reflexão poderia soar banal e até mercadológica, não fosse feita por um titã como Neil Young. Ele já viu de tudo, já fez de tudo, gravou de tudo, produz compulsivamente ainda hoje e, aos 8.0, segue inquieto e motivado para lançar álbuns e compor canções inéditas. Sorte nossa.
“Second Song” traz de volta os Chrome Hearts, músicos que já tocaram com ele em outras ocasiões, há muito e pouco tempo. Temos o sensacional tecladista Spooner Oldham, que fez parte dos Stray Gators, além de Micah Nelson (vocais e guitarra), Corey McCormick (baixo e vocais) e Anthony LoGerfo (bateria), que, juntos, formam três quartos do Promise Of The Real, outra banda que acompanhou Young recentemente, além do produtor, o mitológico Lou Adler, auxiliado por Niko Bolas, outro colaborador frequente. Com essa galera, ele lançou “Talkin To The Trees” ano passado, um bom trabalho, no qual exercitou outro músculo de sua carreira – o contestador, crítico e sujeito capaz de perceber as mudanças das marés política e social do mundo. A resposta para isso, via de regra, surge como fúria guitarreira e vocais nos limites da desafinação, mas que comunicam verdade e convencimento. Em “Second Sun”, como dissemos, o mood é oposto. Porém, as constatações que Neil faz e compartilha com seu ouvinte são contundentes, lembrando de tempos em que as crianças iam para a escola, ecomizavam trocados para comer alguma coisa, num vislumbre duplo – de tristeza: “Out on the edge of darkness // The children waited for sunrise //Something they could believe in” e de esperança: “Too much has changed around us // But we can bring it back somehow”. E não esqueçamos: em onze minutos de duração, não dando a mínima para qualquer concessão comercial.
Além dessas familiaridades, outro traço típico da carreira de Neil está presente: duas canções engavetadas há tempos, que surgem só agora, no caso, “Casting Me Away from You” e “I’ll Love You Forever”, compostas em algum lugar dos anos 1960, vêm a luz do dia seis décadas depois. “Casting…”, registrada pela primeira vez em 1965, foi retrabalhada e se transformou em “Emperor Of Wyoming”, instrumental que abriu seu primeiro disco solo, em 1969, enquanto “I’ll Love You Forever” é de 1964, feita em homenagem a uma namorada de faculdade, segundo ele, o primeiro amor real que viveu. É interessante essa comunicação entre o homem de vinte e tantos e o de oitenta anos, algo que é inegavelmente característico de Neil. Certamente é um dos motivos pelos quais ele consegue soar atemporal e contemporâneo ao mesmo tempo, sem contradições, perda de sentido ou algo que turve a clareza de suas reflexões. Os arranjos predominantemente acústicos presentes nas sete canções do álbum podem ser considerados parte de sua postura diante de questionamentos sobre a qualidade sonora da reprodução de plataformas digitais. É como se ele obrigasse o usuário do digital a curvar-se e à tecnologia diante do que, segundo ele, realmente importa.
Se “Second Song”, a canção, é um libelo que contrasta desesperança com otimismo, “Soon I Might Be Going” é uma declaração de amor à filha, Amber Jean, com quem manteve um relacionamento ambíguo ao longo de tempos. Também soa como um inventário de reflexões sobre o mundo, como se fosse alguém vendo noticiários na TV enquanto zapeia pelos canais. Das faixas do álbum, certamente é que tem mais peso, pontuada por uma guitarra tipicamente distorcida, característica do homem, mas colocada com delicadeza ao longo da melodia, numa duração que ultrapassa os nove minutos. E fechando o álbum, “I’ll Love You Forever”, da qual falamos acima, recebeu um arranjo que cita delicadamente uma das gravações mais conhecidas de Neil: “Harvest Moon”, faixa-título de seu disco de 1992. A doçura do original foi adaptada para dedicar-se à atual esposa de Young, a atriz Daryl Hannah. É uma bela maneira de encerrar um álbum que parece descender diretamente de outros momentos belos da carreira dele, como “Prairie Wind” (2005) ou os já mencionados “Comes A Time” e “After The Gold Rush”.
Neil Young é uma força da natureza. Imparável, impossível de ignorar, felizmente ainda ativo e capaz de se incomodar com as coisas e as pessoas e, mais que tudo, querer que sejam melhores. Este é mais um belo disco que ele nos dá.
Ouça primeiro: “I’ll Love You Forever”, “Soon I Might Be Going”, “Second Song”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
