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A surreal história dos Ramones

 

 

Um cara com sérios problemas mentais; um pedreiro de extrema-direita; um garoto de programa viciado em todo tipo de droga; e um sujeito normal. Assim eram, respectivamente, Joey Ramone (vocais), Johnny Ramone (guitarra), Dee Dee Ramone (baixo) e Tommy Ramone (bateria). É justo dizer que o Ramones criou o punk. Vamos aos fatos: o disco homônimo de estreia do Ramones foi lançado no dia 23 de abril de 1976. Já o Sex Pistols lançou seu clássico “Never Mind the Bollocks; Heres a Sex Pistols” em 28 de outubro de 1977. Ou seja, mais de um ano depois do primeiro álbum dos novaiorquinos.

 

Para ser mais exato, o punk surgiu no dia em que Joey Ramone, com um violão de apenas uma corda, criou o riff de “I Don’t Care”, que seria plagiado pelo Legião Urbana na música “Que País é Este”, composta em 1978 e lançada em 1987.

 

A origem do nome “Ramones” é sensacional. Dee Dee descobriu que Paul MacCartney usava o pseudônimo Paul Ramon quando se hospedava em hotéis. Sendo assim, não só batizou a banda como convenceu os integrantes da banda a adotarem o “sobrenome” Ramone.

 

Os Ramones foram revolucionários ao acelerar suas canções à velocidade máxima do que era costumeiro até então. As músicas quase nunca ultrapassavam os três minutos e, ao vivo, eram emendadas uma na outra, mal dando tempo para o público respirar. Era uma fórmula absolutamente original. E Johnny inventou uma nova forma de tocar guitarra, dando palhetadas apenas para baixo em suas cordas.

 

A relação entre os integrantes era péssima, com Johnny exercendo uma função praticamente ditatorial na banda. Era o guitarrista que comandava tudo, desde as músicas que entrariam nos discos até as finanças do grupo. Para piorar, em determinado ponto da carreira, Johnny literalmente roubou a esposa de Joey, Linda Daniele, mais conhecida como Linda Ramone. Ela se casou com Joey no início dos anos 1980. Em 1984, deixou o vocalista do Ramones para namorar com Johnny, com quem ficaria até a morte do guitarrista, em 15 de dezembro de 2004.

 

Tal fato azedou de vez a relação entre o vocalista e o guitarrista do Ramones, que deixaram de se falar. Contribuiu muito para isso o TOC severo sofrido por Joey Ramone e a personalidade controladora de Johnny. Além das desavenças políticas. Joey era um democrata nato, enquanto Johnny era um conservador linha dura. O clima na Van que transportava a banda em suas turnês era pesado e tenso, segundo Marky Ramone, que substitui Tommy na bateria em maio de 1978.

 

A banda, por sinal, vivia uma situação altamente bipolar. Nunca foi grande nos Estados Unidos. Em compensação, faziam um sucesso avassalador na América Latina, em especial no Brasil e na Argentina. Era praticamente uma beatlemania quando desembarcavam nesses países. Só no Brasil, fizeram 15 shows, todos absolutamente lotados. Lógico que rolava uma melancolia quando voltavam aos Estados Unidos para tocar para algumas centenas de pessoas, especialmente no lendário CBGB, casa de outras bandas históricas como Talking Heads, Blondie, Pretenders e Television.

 

Entre 1976 e 1995, os Ramones lançaram 14 discos de estúdio e quatro ao vivo. Eternizaram dezenas de clássicos, como “Beat on the Brat”, “Rockaway Beach”, “Sheena is a Punk Rocker”, “I Wanna be Sedated” e “Blitzkrieg Bop”.

 

Particularmente, me identifico plenamente com “I Believe in Miracles”, em que Joey Ramone canta que “acredita em milagres porque ele mesmo é um”.

 

Infelizmente, todos os integrantes da formação original dos Ramones já morreram.

 

Eles tiveram pelo menos dois momentos históricos. Em 2002, foram indicados para o “Rock and Roll Hall of Fame”, quando todos dedicaram o prêmio ao então recém-falecido Joey Ramone. A voz dissonante, para variar, foi a de Johnny, que tascou um “viva ao presidente Bush”. Não bastasse isso, a banda descobriu depois que, por engano, trocou os troféus de cada integrante.

 

A outra homenagem veio antes, em 1993, quando a banda apareceu no desenho animado “Os Simpsons”, verdadeiro sucesso planetário.

 

Eu tive a sorte de esbarrar com Marky Ramone duas vezes. A primeira, na coletiva de imprensa do “Abril pro Rock” de 2007, quando o baterista foi uma das principais atrações do festival.
A segunda foi em 2010, no “Festival DoSol”, em Natal. Daquela vez, ao ver o ex-baterista do Ramones sozinho no saguão do hotel, não resisti e pedi um autógrafo.

 

Tem gente que é fã dos quatro garotos de Liverpool. Eu sempre fui mais chegado aos quatro desajustados de Nova York.

 

Para quem quiser se aprofundar na história dos Ramones, recomendo três livros:

– Eu Dormi com Joey Ramone – Mickey Leigh e Legs McNeil. Ed. Dublinense

– Commando – A Autobiografia de Johnny Ramone. Ed. LeYa

– Minha Vida como um Ramone – Marky Ramone. Ed. Planeta

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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