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Bruce Springsteen contra o 11 de setembro

 

 

Eu estava procurando emprego na manhã de 11 de setembro de 2001. Estava numa assessoria de recursos humanos no Centro do Rio, numa sala de espera cheia de candidatos a algum posto que não consigo lembrar, esperando a hora de entrar e preencher algum formulário de cadastro. Atrás da recepcionista, uma TV (de tubo) ligada, sem som, possivelmente na Globo. Em meio à espera e tensão que momento proporcionava, fixei o olhar na telinha e me chamou a atenção quando um avião de passageiros, aparentemente se chocava contra uma das torres do World Trade Center. Confesso que a imagem não me chamou a atenção, como seria de se esperar. Talvez eu tenha pensado que era algum trailer de filme ou algo absolutamente irreal, mas fui me dando conta de que não, não era ficção. Aos poucos a imagem foi se repetindo, outras parecidas surgiram, muitos repórteres e âncoras surgiram em seguida e a célebre vinheta do Plantão Globo apareceu. Até hoje ela é a senha absoluta de que algo muito errado aconteceu. Seja pela imagem, seja pela trilha sonora. Mas esse texto não é sobre mim, é sobre Bruce Springsteen. Em meio a um evento tão definidor da realidade sócio-política que se instalou nesse início de século, foi o Boss que deu a resposta adequada, encapsulando o momento em um álbum próximo da perfeição: “The Rising”.

 

Conta a lenda que a senha surgiu quando Bruce, então preso no trânsito, viu um motorista emparelhar o carro com o seu e disparar: “Precisamos de você agora”. Era outubro de 2001, um mês após a tragédia e a opinião pública americana – e do mundo – estava perplexa. Como algo daquela magnitude havia acontecido? O clima reinante, em pleno governo de george w bush, era de revanche, de contra-ataque e, dentro desse contexto político, não é exagero dizer que o atentado às Torres do World Trade Center motivou um endurecimento da política externa americana, endossando a presença deles no Oriente Médio à época, inclusive mascarando a falta de motivos para novas incursões no Iraque. Bem, o foco do nosso texto não é esse, mas o que Bruce Springsteen fez então. Ele experimentava um momento importante, no qual a E Stret Band havia se reunido cerca de um ano antes. Novamente na estrada com os velhos companheiros Steve Van Zandt, Greg Tallent, Roy Bittan, Clarence Clemmons, Dan Federici e Max Weinberg, além de sua esposa, Patti Scialfa. Bruce viu que era o momento exato de ir para o estúdio. O resultado disso, “The Rising”, é tanto a resposta para o momento imediato do pós-9/11 quanto o preenchimento de um hiato de 18 anos sem gravar com todos aqueles músicos ao mesmo tempo. Desde “Born In The USA”, lançado no distante ano de 1984, a banda não se reunia no estúdio.

 

Vale lembrar que a carreira de Bruce neste espaço de tempo foi totalmente vitoriosa. Lançou belos álbuns sozinho, como “Tunnel Of Love”, de 1988, e “The Ghost Of Tom Joad” (1995); ganhou o Oscar de Melhor Canção, por “Streets Of Phuladelphia”, tema principal do filme de Jonathan Demme, de 1994; recebeu outra indicação ao prêmio, por “Dead Man Walking”, em 1996 (muito melhor que “Streets…”, mas que passou em branco), derrotada por … “The Colours Of The Wind”, do filme “Pocahontas”, além de manter-se ativo e excursionando pelo mundo. Apesar disso, não dá pra comparar nada feito nestes anos à opulência que “The Rising” exibiu quando foi lançado. As marcas do atentado ainda estavam latentes e visíveis na cultura americana e o álbum serviu como um bem-vindo curativo, promovendo reflexão, entendimento e, sobretudo, continuando os temas que Bruce sempre tratou em seus trabalhos, como a descoberta da força interior que todos temos, a percepção de que unidos somos mais fortes e capazes de encontrar soluções. A canção-título é quase a crônica não-escrita de alguém que poderia estar em Nova York tentando escapar dos escombros dos prédios, percebendo, ao mesmo tempo, que os escombros eram muito maiores, abrangendo um país inteiro, um jeito de pensar, algo que precisava ser substituído imediatamente diante do aviso impossível de ignorar, que finalmente chegara. Bruce detalha a letra no especial “VH-1 Storytellers”, que foi lançado em DVD algum tempo depois e que se tornou um dos meus vídeos preferidos da vida.

 

Olhando a letra da canção, nota-se o habitual espírito católico que Bruce enverga em momentos dessa natureza. O mesmo que está presente em obras importantíssimas como “Thunder Road”, “The River” ou “Darkness On The Edge Of Town”. Figuras como “perdão”, “sacrifício”, “receber o que deu em troca”, tudo isso está ao longo dos versos de “The Rising”, mas ele sempre conseguiu temperar esse fervor religioso e torná-lo palatável e oportuno. Sendo assim, não é uma pregação religiosa, mas um chamado ao entendimento puro e simples, certamente o que mais precisava ser dito naquele momento. A abertura com “Lonesome Day”, de cara, já dava ao ouvinte aquela familiaridade sonora que há tanto havia sumido dos álbuns de Bruce. A bateria marcante de Weinberg, os vocais rasgados, o instrumental perfeito e quase marcial, tudo isso ancorando a letra que usa uma metáfora de amor perdido para definir o momento e o sentimento reinantes. Mesmo assim, o refrão insiste que vai ficar tudo bem, mesmo neste dia solitário, repetindo vários “it’s alright”. E a melodia é belíssima.

 

“The Rising”, o disco, não trata apenas do atentado às torres. Ele é mais uma obra do momento, influenciada pelo tom reinante de então. Há canções que falam de outros temas, como o hit “Waiting On A Sunny Day”, que soa como um libelo de otimismo inevitável, algo como o “verão invencível” do qual falava o escritor franco-argelino Albert Camus. Lembro de ver Bruce explicando, no mesmo especial da VH-1 a inspiração para a canção: Smokey Robinson. De fato, o arranjo, o tom da canção e seu resultado no álbum – e no contexto da época – apontam para uma figura invencível do jovem Smokey caminhando numa estrada que vai ficando mais colorida à medida que ele passa. E tem a impressionante “My City Of Ruins”, que encerra o álbum, com um tom de comunhão e culto, com Bruce admitindo que implora pelo amor divino, pela força divina, que, num entendimento livre, podemos entender como algo ecumênico, sem religião definida, implorando pela compreensão entre as pessoas, após a cidade estar reduzida a ruínas.

 

“The Rising” chegou aos primeiros lugares das paradas musicais de Estados Unidos e Inglaterra e deu um novo alento à carreira de Bruce, novamente com a banda a seu lado. Mais que um disco sobre um único tema, ele foi a reflexão feita por alguém capaz de diagnosticar a alma das pessoas. Foi o que o motorista pediu a Bruce: “Precisamos de você agora”. É como ele quisesse dizer: “Temos que ouvir o que você tem a falar agora, não se omita, sua voz é importante”. Ele estava certo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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