Rubel visita várias sonoridades em disco duplo

 

 

 

 

Rubel – As Palavras, vol.1 & 2
56′, 20 faixas
(Dorileo)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

Imagine lançar um álbum duplo em pleno 2023 no Brasil. E imagine chamar pessoas como Milton Nascimento, Gabriel do Borel, Liniker, Luedji Luna, BK, Bala Desejo, Tim Bernardes, Xande de Pilares, Mestrinho e MC Carol para participar. É este o nível que Rubel propõe para si mesmo em “As Palavras Vol. 1 & 2”. Mais que um álbum com vinte faixas, ele oferece ao público um painel pessoal da vida no país nestes últimos anos. Além disso, vem matar a saudade do público que vinha conquistando com álbuns discretos como “Pearl” e o ótimo “Casas”, no qual deixou o folk inicial em favor de uma mistura de tinturas sonoras extraídas do âmbito pós-Los Hermanos com timbres eletrônicos. Agora Rubel não se contenta mais com um ou outro estilo, se sente capaz de criar uma fusão ao mesmo tempo popular e experimental de Funk, Forró, Pagode, Samba, Hip Hop e MPB.

 

 

Nas palavras do próprio Rubel, “´As Palavras´ partiu de uma extensa pesquisa, que durou quatro anos, de imersão na literatura brasileira e da história do cancioneiro brasileiro”, algo que, segundo ele, trouxe uma ampliação natural dos temas e ritmos com os quais lidara nos primeiros dois álbuns. As letras ainda suas vivências autobiográficas e pessoais: seus amores, desamores e descobertas, mas agora o compositor procura inserir nestes assuntos a vivência de uma realidade brasileira mais ampla e plural, tendo, como ponto de partida, histórias de outros personagens e de novos sentimentos (como em “Torto Arado”, inspirada no livro de Itamar Vieira, ou “Na Mão do Palhaço”, uma marchinha de carnaval sobre um homem conservador de meia idade que encontra a redenção a partir da folia) buscando um balanço entre violência, paixão, ironia e afeto.

 

 

Mas Rubel não está voltado apenas para o Brasil, o que é bom. Ainda que “As Palavras” seja um disco muito brasileiro em sua proposta, a visão sonora do artista é impregnada de referências estrangeiras e até experimentais. Por exemplo, em “Rubelía”, um trocadilho com o nome de Rosalía, ele mistura vários andamentos de ritmos percussivos, de reggaeton a samba, numa demonstração de que está atento ao que acontece e sobre como essas influências gringas podem ser apropriadas aqui dentro. Ele já fez isso em “Casas” e se mostra fiel a esta noção neste novo álbum. “Putaria”, que traz as presenças de BK, Gabriel do Borel e MC Carol, é uma tentativa bem louvável de fazer um funk proibidão/pancadão estilizado, que pode funcionar bem nas plateias mais abastadas da cidade, mas talvez falhe na hora do vamo vê na comunidade. Mas vale o esforço. Também vale os flertes com o samba, algo que ocorre de forma simpática com “Posso Dizer”, e com a participação de Xande de Pilares, na bela “Grão de Areia”, que parece um samba de outros tempos tamanho o lirismo e a beleza de sua melodia.

 

 

Dá pra dizer que o volume 1 de “As Palavras” é mais calcado no hoje, nas estéticas mais urbanas e contemporâneas. Enquanto isso, o volume 2 tem mais apelo junto a uma certa tradição musical brasileira, algo que dialoga mais com um passado vivido-idealizado em que cabem marchinhas, sambas, uma canção inspirada no Clube da Esquina (interpretada por Milton Nascimento) e duas releituras de Luiz Gonzaga. Essa divisão de assunto e estética, no entanto, quebra o encanto do álbum. A ideia de Rubel é propor um painel mais amplo, portanto, vale destacar algumas ótimas criações. “As Palavras”, faixa-título, traz um dueto simpático com Tim Bernardes, com duas formas de lirismo e belezura inseridas entre um arranjo acústico e eletrônico na medida. “Lua de Garrafa”, a tal canção em homenagem ao Clube da Esquina, tem a voz de Milton em toda a sua atual mistura de fragilidade e tradição, com um efeito reconfortante. “Torto Arado”, dueto com Luedji Luna, é uma incursão neste Brasil imemorial e interior, que nos habita e nos assombra em doses iguais. “Toda Beleza” é um semi-samba percussivo, cantado com o grupo Bala Desejo, enquanto a melhor faixa presente no álbum é a tal marchinha subversiva, “Na Mão do Palhaço”, quando Rubel reencontra o lado Los Hermanos que habita sua alma.

 

 

Talvez “As Palavras” fosse melhor se viesse num volume único, mas em tempos atuais, é desonesto criticar um artista por conta de seu desejo de expressar-se de forma mais plural e diversificada. Rubel muda de prateleira com este disco e mostra que pode – e deve – transitar nesse escalão mais jovem e arrojado da música nacional.

 

Ouça primeiro: “Na Mão do Palhaço”, “Torto Arado”, “Posso Dizer”, “Lua de Garrafa”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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