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Neneh Cherry em 1996

 

 

 

Man é o terceiro álbum de Neneh Cherry, lançado em setembro de 1996. No momento em que completa 30 anos, merece ser apresentado como uma encruzilhada de gêneros e de colaborações. É também um marco no amadurecimento artístico de Cherry. A cantora e compositora sueca, então com 32 anos, já acumulava uma carreira impressionante. Vivien Goldman a define como “artista hip-hop-eletro-jazz com pegada punk”. E vamos combinar que não é muita gente que consegue ter o currículo que Neneh já mostrava em 1996.

Além de ser incluída no livro de Goldman, a autora de Man tem uma de suas faixas citadas em uma lista de 75 músicas entre melhores no R&B dos anos 90. Com seu álbum estreia de 1989, ela já se destacara no então reduzido cenário de rappers femininas. Na mesma época, fazia companhia a figuras que serão centrais na definição do que ficou conhecido como trip-hop.

 

Como veremos, Man tem muitas mãos. A principal delas é a do marido, Cameron McVey, produtor com quem Cherry divide quase todas as composições em Man. Outro colaborador no álbum é David Allen, conhecido pela parceria com a The Cure entre 1984 e 1992. Man inclui “Seven Seconds”, dueto de Cherry com o senegalês Youssou N’Dour. Lançado como single, a música tornou-se um hit ao alcançar o top 10 em diversos países. Na França, permaneceu em primeiro lugar por 16 semanas.

 

Por outro lado, Man não foi comercializado nos EUA pela Virgin, gravadora de Cherry desde seu primeiro álbum. Talvez essa seja a principal razão para ter reunido poucas críticas e comentários. Neneh lançou uma autobiografia em 2024, mas o livro não entra em detalhes sobre o álbum. De todo modo, ele é a principal fonte para conhecermos Man, que fica melhor apreciado se seguimos uma linha do tempo que acompanha o seu antes e depois.

 

 

Bem antes

 

Neneh Cherry nasceu cercada de arte. Sua mãe, uma branca sueca, era uma artista multimídia e seu pai, percussionista negro nascido em Serra Leoa. O tio era Ornette Coleman, uma das lendas do jazz, assim como seu padrasto, o trompetista Don Cherry, de quem herdou o sobrenome e a chance de morar em Nova York e circular por outros lugares. Foi em uma das turnês de Don que Neneh, quando tinha apenas 14 anos, conheceu a The Slits. Dois anos depois, ela trocou a Suécia pela Inglaterra, acompanhando de perto a cena do punk, do pós-punk e do reggae. Originalmente formada por quatro mulheres, a The Slits era parte dessa cena com seu punk reggae. Cherry participou de shows e de gravações até o final da banda em 1982.

 

Na sequência, entre outros projetos, Cherry passou a integrar a Rip Rig + Panic, banda que misturava free jazz, dub, punk e música africana. Dois de seus músicos vinham do The Pop Group, um marco na história musical de Bristol. Um deles era Bruce Smith, que também tocou bateria na The Slits e se tornou o marido de Neneh Cherry. O casamento durou menos que a Rip Rig + Panic, que gravou quatro álbuns entre 1981 e 1985. Ao final desse período, Cherry conheceu Cameron McVey, seu companheiro até hoje. Eles eram parte da trupe do estilista de moda Ray Petri, conhecido como Bufallo. “Buffalo Stance” (1988) foi exatamente o primeiro lançamento de Cherry como artista solo. A faixa nasce de uma outra, que era o lado B do single “Looking Good Diving”, de McVey e seu parceiro Jamie Morgan.

 

“Buffalo Stance” é um grande tento do pop eletrônico do final da década de 1980. Com a mão de Tim “Bomb the Bass” Simenon, pode ser descrito como o improvável encontro entre hip hop, Madonna e New Order. A faixa foi o carro chefe de Raw Like Sushi (1989), a aclamada estreia em álbum de Neheh Cherry. Raw Like Sushi contou com a colaboração de Jonathan Sharp (aka Jonny Dollar), também envolvido na época, juntamente com Cameron “Booga Bear” Vey, na produção de Blue Lines (1991), o primeiro álbum da Massive Attack. Robert Del Naja e Andrew Vowles contribuíram para o álbum de Cherry, que por sua vez é uma das compositoras de “Hymn of the Big Wheel”. Quem ouvir a versão de Cherry para “I’ve Got You Under my Skin” (1990), vai perceber as afinidades com o que identifica o som da Massive Attack.

 

Essas afinidades estão também presentes em Homebrew (1992), o segundo álbum de Cherry. Uma das faixas, “Somedays”, conta com a participação de Geoff Barrow, da Portishead, na composição e produção. No geral, há mais presença do rock (“Trout”, um duo com Michael Stipe da R.E.M., sampleia Steppenwolf e Led Zeppelin) e de um hip hop no estilo A Tribe Called Quest (logo na faixa inicial, “Sassy”).

 

Mulheres

 

O maior sucesso de Homebrew nos Estados Unidos fez o casal Cherry-McVey se transferir para Nova York em 1993. Mas a experiência foi abreviada por um assalto. O desejo de novos ares resultou em cerca de quatro anos vivendo no sul da Espanha. A prova está nas fotos da capa e do encarte de Man.

 

Na Espanha, Cherry ficou grávida de sua terceira filha e viu seu padrasto falecer. O álbum de 1996 é dedicado a ele. Nesse período de experiências contraditórias, lembra Cherry, “Cam e eu reunimos um grupo de músicos e fomos para um estúdio com alojamento, a apenas quarenta minutos ao norte de Marbella. Gravamos doze faixas — sobre vida, morte e amor — para um novo álbum, Man, em apenas duas semanas”. Na verdade, Man resulta de um arranjo mais complexo do que esse, a começar com o número de faixas, que é onze, e a quantidade de estúdios, nove de acordo com os créditos do encarte. O álbum conta com duas faixas com lançamentos anteriores. A primeira é a já mencionada “Seven Seconds”, que ocorreu durante o período nova-iorquino com a presença de Jonny Dollar.

 

A parceria entre McVey e Sharp estende-se por várias faixas de Man. Além de “Seven Seconds”, ela aparece, entre outras, em “Woman” e “Feel It”, que também se destacam no álbum (e em singles). Como em “Everything”, essas músicas se sustentam em texturas eletrônicas habilmente compostas para soarem orgânicas, bases para Cherry desfilar sua voz encantadora – que, no álbum de 1996, desvia do rap. O outro lançamento anterior é “Trouble Man”, versão da música que Marvin Gaye elaborou para a trilha sonora de 1972 do filme homônimo. A releitura de Cherry faz parte da coletânea Inner City Blues (1995), que inclui “I Want You”, uma colaboração entre Madonna e a Massive Attack.

 

“Trouble Man” não conta com a participação de Dollar. Nesse caso, McVey está acompanhado de Mark Saunders, um velho conhecido, presente já em “Buffalo Stance”. Em Man, ele assina mais duas faixas, incluindo “Golden Ring”, outra cover – nesse caso, da American Gypsy, banda estadunidense de funk que lançou a música em 1974. “Trouble Man”, que tem a colaboração do mano Eagle-Eye Cherry tocando piano, é onde a possível conexão de Cherry com o new soul fica mais evidente. Já a acústica “Golden Ring” mostra sinais do impacto sonoro das paisagens andaluzas, perceptíveis também em “Beastility”.

 

Entre os músicos mencionados por Cherry em suas memórias certamente deveriam estar o guitarrista Steve (Grippa) Hopwood e o tecladista Simon Richmond, com participações em várias faixas. Mas os créditos do álbum apontam um numeroso grupo de colaboradores, que raramente formam bandas no sentido convencional do termo. A exceção aparece em “Kootchi” e “Hornbeam”, que mostram Cherry acompanhada por baixo-guitarra-bateria-teclado. Há muita energia nelas, mesmo que a produção não permita explosões. E é nelas que ocorre a participação de David Allen, também presente em outras duas músicas. Uma delas é “Carry Me”, que, embora esteja mais em sintonia com as faixas dominadas pelos teclados, soa fantasmagórica e conta com um solo de violão nada convencional.

 

Man, como vimos, traz duas covers. Por outro lado, abre mão dos samples que abundam nos dois álbuns anteriores. Isso permite considerá-lo um trabalho mais autoral, dando continuidade ao trajeto de Cherry como compositora, sem afetar o volume de colaborações. Além daquelas já mencionadas, a de Tricky merece um comentário. Tricky esteve na casa de Cherry em 1995 junto com Saunders e dessa passagem resultaram algumas músicas. “Together Now” é ao mesmo tempo pop e estranha. Além de ser a penúltima faixa de Man, foi incluída em Nearly God (1996), o segundo álbum do rapper britânico. “Devotion” e “I Wanna Know” entraram no lado B do single “Feel It”. “Crack Baby”, no single de “Kootchi”. O fato de, artisticamente, Neneh Cherry em boa parte de sua trajetória ser uma mulher cercada de homens sempre foi motivo de reflexão. Evidentemente, Man, com sua capa preenchida apenas por mulheres, é um título que contém uma provocação. As letras de “Feel It” e “Carry Me” também tem a ver com o tema.

 

A provocação fica explícita em “Woman”, uma espécie de resposta a “It’s a Man’s Man’s Man’s World” (1966) de James Brown que reitera a associação de Cherry com o new soul. A letra, porém, é o mais importante. Enquanto o Sr. Dinamite imagina uma mulher como parte do mundo masculino, a sueca canta: “Mas eu sou o tipo de mulher / que foi feita para durar / Eles tentaram me apagar / Mas não podiam riscar o meu passado”. O vídeo reforça essa mensagem. Cherry é a única mulher e as cenas mostram homens (trouble men…) entretidos com objetos e pessoas invisíveis, como se isso revelasse o vazio de suas vidas.

 

Nada disso contradiz a atração que Cherry sente por homens, que inspira as safadezas que preenchem as letras de “Kootchi”, “Bestiality” e “Hornbeam”. O vídeo de “Kootchi” capta bem a tensão sexual da música, com Cherry deitada em uma cama e sendo abordada por homens que estão literalmente se arrastando. Outras letras, com a de “Everything”, narram uma busca de si, passando por caminhos tortos. O vídeo de “Feel It” não deixa de dialogar com tal busca, ainda que sua trama siga as obsessões do diretor Michel Gondry com as repetições, o inusitado e o surreal de nossas vidas.

 

Na vida de Neneh Cherry, essas reflexões sobre si certamente envolvem questões raciais. Muitas vezes ela se deparou com expectativas ou reações que a consideraram negra demais em um mundo branco, mas também branca demais em um ambiente negro. Segundo suas memórias, foi uma experiência dessa natureza que levou à escrita da letra de “Seven Seconds”. A parceria com Youssou N’Dour acrescentou outros elementos. Trata-se de dois artistas negros em uma canção cujo título e refrão referem-se ao nascimento de uma criança (que “não tem ideia do tom de pele em que ela vive”). A música é cantada em três idiomas (inglês, francês e uolofe, uma língua da África Ocidental) e no vídeo de Stéphane Sednaoui desfilam pessoas de muitos fenótipos.

 

Teria sido interessante saber das impressões de Cherry sobre sua visita ao Brasil quando aqui esteve para os shows do Free Jazz Festival em outubro de 1997. Foram exatamente os atos finais da turnê de Man. Mas sua autobiografia nada menciona sobre essa viagem.

 

Muito depois

 

O mesmo livro faz uma declaração que conjuga celebração e lamento: “Sinto grande prazer em poder contribuir como mulher, mãe e pessoa criativa no ambiente doméstico, mas sei que é essencial permitir-me ser tudo isso ao mesmo tempo. Ao construir uma família e tentar realizar meu próprio trabalho — assim como Moki [mãe de Cherry] e inúmeras outras artistas —, tive de fazer alguns sacrifícios em relação à minha criatividade”.

 

Todo o livro nos faz pensar sobre as condições de uma artista mulher, que viveu a experiência da maternidade muito cedo em sua vida. Como mãe de três meninas (e madrasta de um filho de McVey), ela buscou integrar tais vivências em sua arte. Ou seja, ela não quis separar a mãe da artista. Isso lhe custou algumas coisas, mas também lhe rendeu o prazer de ver suas filhas se dedicarem a carreiras na música. Parcerias artísticas com sua família se expressaram na banda que Cherry formou com o marido e uma das filhas. A CirKus lançou dois álbuns, em 2006 e 2009. Houve outras colaborações, com destaque para as participações de Cherry em faixas de Living in the Present Future (2000), de Eagle-Eye Cherry, e de Demon Days (2005), da Gorillaz.

 

No entanto, o período após Man foi de menor visibilidade para Cherry. Ela comenta que, de volta a Londres, chegou a gravar (em 1997 ou 1998) o que seria um novo álbum, mas ele nunca foi lançado. Nos anos 2000, ela retornou a viver na Suécia, acompanhando de perto a morte a mãe em 2009. Em 2011, Cherry iniciou uma parceria com o grupo de jazz experimental The Thing e o resultado foi o álbum The Cherry Thing (2012).

 

O nome Neneh Cherry voltou a estampar uma capa apenas em 2014, quando lançou Blank Project, com uma sonoridade ao mesmo tempo nervosa e delicada. Em 2018, foi a vez Broken Politics, repleto de sutilezas. Já The Versions veio à luz em 2022. Cherry convidou várias mulheres para protagonizar versões de suas músicas. Entre elas estão “Woman” e “Kootchi”, ambas do repertório de Man, que já em 1997 havia sido homenageado com uma coleção de remixes produzidos na França.

 

Uma carreira artística tão longa e interessante merece nossa atenção. O álbum de 1996 é um bom motivo para comentar os vários tempos de Neneh Cherry.

 

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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