Nossos treze discos preferidos (+1 hors concurs) de Caetano Veloso
Caetano Veloso tem quase sessenta álbuns lançados ao longo de mais de cinco décadas de carreira, entre discos inéditos, ao vivo, colaborações e coletâneas autorizadas pelo artista. Uma obra tão extensa quanto influente na cultura brasileira do século 20. A gente adora o baiano e já fez várias matérias sobre ele ao longo da nossa existência, que já vai para o oitavo ano. Agora resolvemos escolher os nossos treze discos preferidos da discografia caetânica, justamente para privilegiar aqueles momentos em que Caetano ultrapassou seus próprios limites de excelência. Nosso critério é estético e afetivo, portanto, subjetivo. Caê é um artista tão plural e influente que sua trajetória permite várias abordagens e visões, todas elas válidas. Sendo assim, vamos ao nosso top top top de seus discos. Concorde, discorde, venha comentar e fazer o seu.
13 – Zii e Zie (2009) – Neste trabalho, Caetano abandona a produção mais polida para abraçar o que batizou de “guitarreiro”, unindo sua banda de apoio a uma sonoridade intencionalmente crua, ríspida e cheia de distorções elétricas. É o segundo capítulo da chamada “Trilogia Cê”. Longe de ser apenas um disco roqueiro trivial, “Zii e Zie” usa uma certa crueza instrumental para costurar crônicas urbanas afiadas e reflexões sobre a modernidade, o comportamento e a política cultural do país no século XXI. A beleza da análise de conjuntura carioca que é “Lapa” já justifica o álbum, mas ainda tem canções lindas como “A Cor Amarela” e “Falso Leblon”, a graciosa “Lobão tem Razão” e a luminosa versão de “Incompatibilidade de Gênios”, de João Bosco e Aldir Blanc.
12 – Caetano Veloso (1971) – Concebido e gravado durante o exílio forçado em Londres, este álbum é um documento histórico de dolorosa beleza, transbordando a solidão, a angústia e o isolamento geográfico longe da pátria. Os arranjos esparsos e a interpretação contida refletem o peso político e emocional daquele período sombrio. Aqui estão as emocionantes “London, London” e “Maria Bethania”.
11 – Caetano Veloso (1969) – Fruto imediato do turbilhão político e dos desdobramentos da ditadura que antecederam seu banimento do país, este LP de capa branca contendo apenas a assinatura do artista funciona como um testamento de resistência artística e radicalismo estético. O repertório navega por texturas vanguardistas e por uma profunda melancolia de despedida. O desfile de clássicos começa com a controversa gravação de “Charles Anjo 45”, passa pela versão personalíssima para “Não Identificado” e deságua na enigmática e sufocante “Irene”, homenagem a uma de suas irmãs.
10 – Circuladô (1991) – Aqui desfila o Caetano globalizado com senso crítico. Marcado por uma ambiciosa investigação formal, este disco cruza a poesia concreta de Haroldo de Campos com texturas percussivas densas e arranjos exuberantes. É um exercício sofisticado de erudição literária transposta para a canção pop moderna, apostando em uma riqueza rítmica fascinante. Dá pra dizer que “Fora da Ordem” é um clássico da música brasileira moderna, refletindo a desconfiança do artista com o frenesi globalizado da época.
09 – Joia (1975) – Minimalista, corajoso e radicalmente íntimo, este trabalho despida a produção de excessos ao apostar majoritariamente em violões nus, silêncios calculados e uma crueza emocional impressionante. O resultado é um mergulho profundo e vulnerável na psique do autor, exposta em sua forma mais essencial. Lindezas pouco óbvias estão presentes: “Lua, Lua, Lua, Lua”, “Canto do Povo de Algum Lugar”, “Na Asa do Vento” e uma delicada versão de “Help”, dos Beatles.
08 – Outras Palavras (1981) – Um desfile espetacular de inteligência pop e arranjos milimetricamente calculados, este álbum uniu com precisão o rigor intelectual e o apelo imediato da comunicação de massa. Temos, por exemplo, a complexidade de “Rapte-me Camaleoa” e da faixa-título, cheias de trocadilhos e a beleza acessível de “Lua e Estrela”. As canções unem poesia refinada e ganchos melódicos irresistíveis. E ainda tem uma canção que transborda a minha memória afetiva, que é “Sim/Não”.
07 – Transa (1971) – Considerado uma das maiores obras-primas da música brasileira, este disco concebido no exílio britânico mistura o bode e a saudade visceral do Brasil com influências do folk-rock e da contracultura internacional. A produção de Jards Macalé dá aos violões um protagonismo inédito. A inventividade dos arranjos mistura reggae, folk, samba e várias outras nuances. Um beijo pra Ana Bartolo, que nos fez ouvir “You Don’t Know Me”, lá em algum ponto de 1993.
06 – Cores, Nomes (1982) – Um dos álbuns mais adoravelmente pop de Caetano. Abrindo com “Queixa”, um de seus mais bem resolvidos clássicos populares, ele mostra um compositor à vontade com a recém-chegada modernidade dos anos 1980, sem perder de vista suas origens. Tem a surreal e linda “Trem das Cores”, a celebratória “Um Canto de Afoxé Para o Bloco do Ilê”, a romântica “Meu Bem, Meu Mal”, a versão de “Sonhos”, de Peninha e um clima leve, de cabeça em paz.
05 – Caetano (1987) – Banhado por uma atmosfera sofisticada que dialoga com a maturidade e a consolidação pop dos anos 1980, este álbum equilibra com elegância baladas memoráveis e reflexões urbanas agudas. O projeto reflete a habilidade do artista em transitar pela grande mídia sem abrir mão do rigor estético. Temos uma versão sensacional de “Fera Ferida”, a antropofágica tardia “Vamo Comer”, a moderníssima “Eu Sou Neguinha?”, a linda e estonteante “Giulieta Masina” e o clássico “O Ciúme”.
04 – Bicho (1977) – Inspirado por uma viagem aos Estados Unidos e pelo contato direto com a negritude americana e a percussão baiana, este é um dos discos mais dançantes, criativos e viscerais da carreira de Caê. Essas influências ditam o tom de um manifesto pela celebração corporal como jeito de existir. Do baixão explosivo de “Odara”, passando pela comunhão de “Gente”, a sublime “Um Índio” e chegando à definitiva “Tigresa”, este é um disco superlativo.
03 – Muito (Dentro da Estrela Azulada) (1978) – No pódio dos grandes momentos da discografia, este disco seria ainda mais sensacional se fosse mixado de maneira mais atenta. Mesmo assim, aqui estão momentos dourados de Caetano, tanto em sua faceta pop, quanto mais elaborada. O que dizer de um trabalho que tem “Terra”, “Sampa”, “Muito Romântico”, a idiossincrática “Love, Love, Love” e o clássico da carioquice setentista, que é “Tempo de Estio”. Uma lindeza linda.
02 – Estrangeiro (1989) – Funcionando como uma verdadeira ópera pop, este trabalho ambicioso cruza referências literárias, geografias distintas e a poesia urbana mais sofisticada do autor. Os arranjos grandiosos e as longas suítes instrumentais expandem os horizontes da canção brasileira em direção ao universal. Minha segunda gravação preferida de toda a lavra de Caetano está aqui, “O Estrangeiro”, além de “Branquinha”, “Os Outros Românticos”, “Este Amor”, “Meia Lua Inteira”, este disco é uma obra prima.
01 – Cinema Transcendental (1979) – No topo absoluto da discografia, este disco representa o ápice absoluto da comunhão entre a alta erudição poética e a cultura pop mais acessível, traduzido em melodias celestiais e arranjos de uma beleza desarmante. Ele sintetiza com perfeição a maturidade criativa de Caê, unindo leveza, profundidade e apuro estético definitivo. Minha canção mais querida de Caetano – e da vida – está aqui: “Trilhos Urbanos”. E ainda tem “Cajuina”, “Beleza Pura”, “Lua de São Jorge” e a definitiva “Oração ao Tempo”.
Hors Concours – Tropicália (1968)
Mais do que um simples álbum, este manifesto coletivo ergueu os pilares da modernidade na música brasileira ao fundir guitarras elétricas, vanguarda experimental, a crueza do país profundo e uma fina ironia pop. A obra redesenhou os rumos da cultura nacional de uma só vez, transformando o choque estético em arma política e artística. A faixa recomendada para audição é a genial e corrosiva “Panis et Circenses”.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
