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Será esse o “disco doente” dos Strokes?

 

 

 

 

The Strokes – Reality Awaits
43′, 9 faixas
(RCA)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

A audição desse novo trabalho dos Strokes me lembrou uma fala do grande agente especial Fox Moulder para sua companheira de FBI, Dana Scully, na última temporada de “Arquivo X”: “O grande problema do mundo, Scully, é que as coisas inexplicáveis foram todas explicadas”. É que, para quem não se lembra, há 25 anos, quando os Strokes surgiram como um raio cósmico nas paradas de sucesso e nas páginas dos veículos de comunicação, eram a maior novidade que o rock oferecia desde o Oasis, surgido oito anos antes. E a missão era a mesma: salvar o rock. E a chegada de seu primeiro álbum, “Is This It”, em agosto de 2001, era essa alardeada reconquista de espaço. Deixava de lado, de uma só tacada, a pompa das bandas pós-Radiohead, o pós-grunge bobão, o nu metal truculento e abraçava uma estética back to basics, no sentido Lou Reed-Bowie-punk novaiorquino do termo. Funcionou até certo ponto, mas gerou pós-Strokes igualmente chatos como os pós-grunges e a própria banda não deu a mínima para esse papel de salvadora do rock, pelo contrário, aventurou-se em sonoridades pouco comuns, deixando essa atitude do início de lado. Se os Strokes tinham 20 e poucos anos então, agora, com quase 50, o que poderíamos esperar desse seu sétimo disco, “Reality Awaits”? Isso, esquisitice, acenos a uma linearidade há muito menosprezada pela banda e deliberações sobre o estado atual do mundo. De alguma forma, funciona e faz sentido dentro do que os Strokes se tornaram com o tempo.

 

Há alguns anos a gente publicou aqui um ranking dos discos dos Strokes e o último, “The New Abnormal”, de 2020, foi o preferido. Abaixo dele, o segundo, “Room On Fire”, de 2003, justo um álbum para cada fase da banda. Há nitidamente essa separação, que aconteceu a partir de “Angles”, lançado em 2011, o quarto álbum. Ali os Strokes deixaram de lado qualquer apreço pelo modelo de canção que inicialmente apresentaram ao mundo, “Last Nite” à frente. Saem de cena esse roquinho magro, considerado a salvação de tudo no longínquo ano de 2001 e entra em cena um pós-punk estranho, esquisito, meio new wave, meio qualquer coisa, com experimentalismo, viagens existenciais e canções com arranjos que seguiam lógica própria. Para meu gosto pessoal, essa fase estranha dos Strokes se configurou em algo muito mais bacana e surpreendente do que o início da carreira. Casablancas e sua turma foram abraçando uma sonoridade sem medo de experimentar e, ao mesmo tempo, chutaram a milhas de distância as expectativas por reedições daquele sucesso esperançoso do início. É como se a banda se esmerasse em demolir essas esperanças pela salvação do rock. Na verdade, os Strokes não parecem dar a mínima para o rock e isso é legal.

 

Sendo assim, temos esse “Reality Awaits”. Foi gravado em 2022 na Costa Rica, com produção de Rick Rubin, o mesmo que assinou o ótimo anterior. Se “The New Abnormal” era um álbum instigante e cheio de ótimas canções, este aqui é igualmente bacana, mas exige mais tempo de audição para “pegar no gosto” do ouvinte. Uma vez estabelecida essa conexão, não dá pra desgrudar de algumas canções presentes aqui. Claro, em primeiro lugar veio a “esquisitice dentro da esquisitice”, que foi o uso ostensivo de autotune na voz de Casablancas. Não dá pra sacar naturalmente se foi uma grande pegadinha ou se a banda quis reproduzir texturas metálicas meio artificiais próximas dos vocoders dos anos 1980, mas, em alguns momentos, o resultado tangencia o constrangimento. Porém, depois de alguams audições, até esse detalhe deixa de ser irritante. A produção de Rubin deixa a banda à vontade em termos de ousar nos arranjos. Tem de tudo, desde baladas românticas derramadas, passando por proto-new waves de laboratório e algumas lindezas inesperadas, que entram para o cânone da banda sem pedir licença.

 

Neste punhado de acertos sonoros “Dine N’Dash” abre o desfile com uma levada que mistura The Cure e New Order em doses iguais, numa melodia bela e clima de melancolia. Certamente é uma das grandes canções da banda em todos os tempos temporais. Logo atrás dela vem “Going To Babble On”, outra que deve tudo aos anos 1980, com andamento bacaninha e bom arranjos de guitarras, com Julian pairando nos céus do autotune em alguns momentos, mas nada que atrapalhe. O baixo de Nikolai Fraiture encarna o estilo de Peter Hook com certa habilidade e a coisa funciona. E tem o hit single “Going Shopping”, que tem um jeitão de Paul Simon fase “Graceland” soterrado em autotune, na fronteira da irritação e da genialidade das guitarrinhas crocantes que estão por todos os cantos. Tem “The Fruits Of Conquest”, uma faixa estranha, meio Rolling Stones anos 1980, com falsete e percussão pesada, algo bem inesperado, mas que faz sentido no meio do caos. E tem um rock, digamos, mais próximo do que os Strokes foram um dia, chamado “Lonely In The Future”, cuja melodia lembra um monte de canções antigas da banda. Nas letras, Casablancas vai do amor não correspondido ao viés político, passando pela crônica social, política, chegando a emular sotaques esquisitos, como a pegada caribenha que permeia a já mencionada “The Fruits Of Conquest”.

 

É possível que esse disco ainda cresça mais até o fim do ano. Do jeito que está, é um chute nas bolas de quem esperava alguma salvação para o rock em pleno 2026 – teve artigo publicado no “The Irish Times” sobre o assunto. Ele é uma declaração de autenticidade e total desconsideração pelas expectativas mais convencionais que alguém possa ter sobre os Strokes. É caótico, misterioso e pode parecer chato à primeira audição. Nossa recomendação: insista. A recompensa é certa.

 

Ouça primeiro: “Dine N’Dash”, “Lonely In The Future”, “Going To Babble On”, “Going Shopping”, “The Fruits Of Conquest”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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