Muito além do algoritmo como ferramenta de pesquisa
Mais da metade das novas músicas adicionadas diariamente à Deezer — cerca de 90 mil arquivos por mês no pico do mês de junho — não vem do uso de instrumentos, estúdios ou de qualquer instância de inspiração humana. São faixas geradas inteiramente por Inteligência Artificial. Sim, isso mesmo. Diante desse dado, que por si só já assusta o ouvinte mais esclarecido, como redefine a paisagem do streaming, vale a pergunta que raramente fazemos no piloto automático do nosso dia a dia: o que exatamente estamos procurando quando damos o play em uma canção? Ou melhor, no caso deste ouvinte mais esclarecido – o que estão fazendo com a canção?
A facilidade com que as ferramentas generativas como Suno e Udio criam e disponibilizam milhares de faixas sintéticas por minuto está mudando a lógica da distribuição digital e revelando um sintoma alarmante. Esse movimento está longe de significar algum surto de vanguarda artística, ele está inserido numa engrenagem fria de fraude artística e financeira. Embora o áudio totalmente sintético represente de 1% a 3% dos streams reais, a plataforma descobriu que até 85% dessas reproduções em 2025 serviam apenas para desviar dinheiro de royalties por meio de manipulações automatizadas. Quando a tecnologia é sequestrada para engenharia financeira, o debate deixa de ser sobre inovação e passa a ser sobre o esvaziamento do próprio sentido da curadoria e do impacto econômico — um risco que, segundo estudos do setor, pode colocar em jogo quase 25% da receita dos criadores até 2028.
O dado mais incômodo de toda essa história, trazido por pesquisas recentes da Ipsos encomendadas pela própria Deezer, é que 97% das pessoas — tanto no Brasil quanto no exterior — simplesmente não conseguem distinguir, em um teste cego, o que foi composto por um ser humano do que foi sintetizado por um algoritmo. Tecnicamente, a máquina aprendeu a imitar os contornos, as texturas e as estruturas harmônicas que nos agradam. Mas essa constatação nos coloca diante de um espelho desconfortável: se qualquer fórmula matemática bem-acabada é capaz de nos entreter por três minutos, o que nos diferencia de um robô na hora de escutar?
A resposta, claro, está naquilo que nenhum código de computador consegue simular: a biografia, a fratura real, o erro, o contexto social e a urgência de quem senta para transformar uma angústia ou uma alegria em som. A música humana carrega o peso e a beleza da nossa identidade e da vulnerabilidade. Quando abrimos as portas para que softwares preencham o catálogo com simulacros emocionais em escala industrial, corremos o risco de transformar a cultura em uma linha de montagem de mercadorias descartáveis, onde a arte perde seu valor simbólico para virar mero dado estatístico.
Iniciativas como a rotulagem explícita de faixas sintéticas — pioneirismo assumido pela plataforma em junho de 2026 —, a remoção de conteúdos inativos por mais de seis meses e o bloqueio de esquemas fraudulentos ajudam a colocar um mínimo de ordem nessa bagunça. A própria empresa agora licencia sua tecnologia de detecção para o resto da indústria, mas essas barreiras estão longe de resolver o cerne do problema. A verdadeira questão é ética e cultural. No Brasil, onde 76% das pessoas ouvem faixas de IA por curiosidade, há um desejo claro de transparência, mas também o perigo da banalização.
No fim das contas, a apatia diante da substituição do artista pelo robô é perigosa. Se permitirmos que o algoritmo decida o que deve nos emocionar, o futuro do streaming corre o risco de virar uma enorme sala vazia — apenas ecos eletrônicos tocando para quem já esqueceu o que é se encantar de verdade.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
