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A sonoridade única do Pixies

 

 

O Pixies sempre foi rotulado pela imprensa especializada como uma banda de “Rock Alternativo”. Acho essa nomenclatura completamente equivocada, principalmente se for utilizada como nomenclatura estética. Ok, era um grupo independente batalhando por um lugar ao sol no “mainstream”, mas sua sonoridade vai muito além da conceituação de grupo alternativo. O Pixies fez muito mais do que isso. Conseguiu uma identidade única, e influenciou praticamente todas as bandas de rock que vieram depois deles.

 

O Pixies foi formado em 1986 por Charles Thompson, que logo adotaria o nome artístico Francis Black. Ele era companheiro de quarto, numa faculdade de Boston, do guitarrista Joey Santiago. Os dois colocaram anúncio nos classificados de um jornal procurando um baixista, e foi assim que encontraram Kim Deal. Ela, por sua vez, convidou o amigo David Lovering. E assim nasceu a formação clássica do Pixies.

 

A banda estreou em disco em 1988, com o impressionante “Surfer Rosa”, lotado de canções com letras pra lá de estranhas, sobre mutilação e outros temas pouco abordados no universo pop até então. E conta com as hoje clássicas “Bone Machine” (que abre o álbum), “Gigantic”, e o hit “Where is My Mind”, que muitos anos depois foi parar na trilha sonora de “Clube da Luta”, de 1999. A música é usada justamente no final do filme, que virou um “cult” obrigatório para qualquer cinéfilo.
Com “Sufer Rosa”, o Pixies mostrava sua inacreditável credencial. Um som denso, profundo, recheado de guitarras ora punk, ora folk, resultando num mix que a imprensa à época chamou de “uma mistura de punk com surf music”, outro erro grotesco de avaliação.

 

Para mim, o Pixies é simplesmente indefinível, e criou uma sonoridade praticamente impossível de catalogar. E ainda no final dos anos 1980, o que prova o vanguardismo e pioneirismo da banda.
Em 1989, lançaram o maravilhoso “Doolittle”, clássico álbum da cultura rock de todos os tempos. É nele que encontramos as essenciais “Debaser”, “Tame”, “Wave of Mutilation”, “Here Comes Your Man” (a mais pop da carreira, e que os levaria ao sucesso planetário), “Monkey Gone to Heaven”, La La La Love You (uma pepita pop composta pelo baterista David Lovering), e “Hey”, um blues pós-moderno e apocalítico de letra estranhíssima. Talvez “Hey” seja um resumo da banda, que consegue unir estranheza e pop numa medida inimaginável.

 

Depois que Kurt Cobain declarou que, ao compor “Smells Like Teen Spirit”, estava tentando desesperadamente criar uma canção no “estilo Pixies”, nunca mais consegui desvencilhar o maior sucesso do Nirvana de “Debaser”. Parecem canções separadas na maternidade de tão semelhantes. Pelo menos soam assim aos meus ouvidos. Dave Grohl, líder do Foo Fighters e ex-baterista do Nirvana, é outro que admite a gigantesca influência que o Pixies teve em sua careira.

 

Em agosto de 1990, a banda lança o ousado “Bossanova”, em que as três primeiras faixas já mostram o amplo raio de ação da sua musicalidade. “Cecilia Ann” é uma instrumental que parece saída da trilha de alguma série de herói japonês. Já “Rock Music” é suja e densa, antecipando o que viria a ser o movimento grunge de Seattle. E “Velouria” tem uma pegada mais pop. É incrível como casam bem as vozes de Francis Black e Kim Deal. “Dig For Fire” é outra grande canção de “Bossanova”, doce e intensa ao mesmo tempo.

 

“Trompe Le Monde”, cuja tradução do francês é “Enganar o Mundo”, é o último álbum da formação original, lançado em setembro de 1991. É nele que aparece a raivosa “Planet of Sound”, cuja letra estranhíssima sugere a captação de áudio de uma transmissão alienígena.

 

O Pixies é uma banda precursora. Após anos separados, voltaram no final da década de 2000, mudando de formação várias vezes, mas conservando sempre o trio Black Francis, Joey Santiago e David Lovering. Ainda soa relevante e atual. Aliás, mesmo as canções mais antigas conservam um frescor revolucionário.

 

Duvido muito que o leitor do Célula Pop não conheça profundamente a obra do Pixies. Caso você ainda não tenha escutado nada da banda, corrija essa lacuna imediatamente. E se delicie com o grupo mais esteticamente revolucionário das últimas três décadas.

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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