Colunas

A inacreditável Textículos de Mary & A Banda Da’s Cachorra

 

 

Março de 2002, redação da Folha de Pernambuco. Eu estava batendo uma matéria qualquer quando fui informado que alguém estava na recepção do jornal, solicitando falar com algum repórter da editoria de Cultura. Fui ver quem era e reconheci de cara. Tratava-se de Fabio Mafra, nome artístico “Chupeta”, à paisana, sem as roupas extravagantes que usava nas apresentações do Textículos de Mary.

 

Eu já o conhecia de vista, além dos shows, porque ele era colega de um primo meu no curso de “História” da Universidade Federal de Pernambuco. Rapidamente e com a cara mais cínica do mundo, ele me entrega um objeto e diz: “Essa é uma marmita cultural. Divirta-se”. Voltei para a redação e abri a marmita, cujo conteúdo era: um pênis gigante, daqueles comprados em sex shop; uma vagina idem; o release da banda e o recém lançado CD “Textículos de Mary & A Banda D’as Cachorras – Cheque Girls”.

 

 

Foi um sucesso instantâneo no jornal.

 

 

Formada em 1998 entre Recife e Olinda, a banda contava com três vocalistas assumidamente gays e um grupo de heterossexuais nos instrumentos. Sua formação oficial contava com Chupeta (Fabio Mafra, vocais), Lollypop (Henrique Durant, vocais), Cilene Lapadinha (Tony, vocais), Bambi (Adriano Salhab, guitarra), Friuílli (Karin Schmalz, teclados), Loira Negra (Linaldo Batista, percussão), Kayadroga (Caio, Guitarra), Dúbia Keitesuelen (Rafael, Baixo), Scarlet Cavalera (Henrique e, depois, Carlinhos, bateria) e Pixota (Licia Ferraz, Backing Vocal).

 

 

A banda estava cansada da estética mangue de Recife, e resolveu ousar no som, uma saborosa mistura de punk com glam rock, e nas apresentações. Tocavam travestidos e simulavam orgias no palco, numa performance chocante e fascinante ao mesmo tempo. Suas letras eram pesadas e fenomenais. Eis alguns exemplos da poética do Textículos de Mary:

 

 

“Eu quero ser sua cadela / engatada no seu pau” (Propóstata); “Depois do décimo-quinto baseado / Eu não respondo por mim /Eu não respondo por nada / Passo a noite / Varo a madrugada /Como cadela no cio /De uma bichinha atacada” (Menarca); “Porque eu sou bicha! / Me apresenta pro He-Man / Beijinho! Beijinho! / Pau! Pau!” (Todinha Sua, aquela cantata pela Xuxa)”; “Eu não gosto de michê / Mas meu cu gosta” (Legalize BamBam), e por aí vai…Essas são as mais leves!

 

 

Era de se imaginar que uma banda tão iconoclasta assim duraria pouco. Mas a ascensão deles foi meteórica. Foi o único artista a emplacar duas edições seguidas nos festivais Rec-Beat e Abril pro Rock. Até despertar o interesse da gravadora Deck Disck. Aí começaram os problemas.
Conversei com Fabio Mafra, o Chupeta, que hoje é arqueólogo e ensina “Arqueologia” e “História” em Caicó, interior do Rio Grande do Norte: “Desde o início, a ideia da gravadora era lançar uma versão descolada e gay dos Mamonas Assassinas. Um produto para aparecer na TV, em Luciana Gimenez e Jô Soares. Tadinhos!”. E prossegue. “Sugeriram mudanças de letras e cortes de membros da banda, mas não aceitamos. Por conta disso, tive que assinar um termo de responsabilidade pelas letras”. Apesar do clima tenso, Fabio diz que gostou da produção do disco. “No geral, eu gosto do álbum. Tivemos um ótimo técnico de som. Mas o arranjo de ‘Charles Bronson’s Song’ foi alterado pelo produtor musical (Rafael Ramos, grifo meu), e não ficou legal. Fora que eu não entendia nada de música, técnicas de gravação, estúdio, o que restringia ainda mais o controle do resultado final”.

 

 

As apresentações ao vivo também eram marcadas pelo clima de tensão. “No primeiro show do Rec-Beat eu disse: ‘Bichas, se preparem! A gente vai levar garrafa e lata de cerveja na cabeça!’. O legal foi que, logo no começo do show, quando me abaixei no palco, em direção do público, voou uma cueca. Foi uma doideira”.

 

 

Quem teve oportunidade de conferir os shows do Textículos de Mary, sabe que as apresentações sempre foram arrebatadoras. E a banda era uma unanimidade na imprensa de todo o Brasil, chegando a ganhar o prêmio de “melhor banda popular” de 2002 pela APCA, “Associação Paulista de Críticos de Arte”. Mas a realidade do grupo, que sempre defendeu as “minorias” (gays, pretos, gordos, judeus), estava longe de ser glamourosa. Todos os integrantes precisavam de “empregos normais” para se sustentar. “A banda nunca deu dinheiro. Somente na gravação do primeiro disco, tivemos uma diária para ficar no Rio de Janeiro. Sempre gastamos em divulgação, roupas, maquiagem, cenário”.

 

 

Incensada pela crítica, o Textículos de Mary enfrentava problemas surreais, o que acabou fazendo com que a banda tomasse a decisão de encerrar a carreira. “Todo mundo precisava trabalhar e não rolava mais shows. As casas de espetáculos começaram a fechar durante o processo de gentrificação do Recife Antigo. E rolou uma proibição de eventos públicos continuarem no local após a meia-noite, e a gente só podia tocar depois desse horário”.

 

 

Mas a banda armou um gran finale. Anunciou um show de despedida, em 2004, no histórico Teatro do Parque. O problema é que a produção do evento, desconhecendo a proposta estética e sonora da banda, colocou o grupo para abrir para Eduardo Dusek. Ou seja, 80% do público era constituído de senhores e senhoras que levaram os filhos e os netos para ver Duseck. E qual não foi a surpresa da plateia ao se deparar com Chupeta e sua Gangue no palco.

 

 

Inspiradíssimo, Fabio chegou a mostrar uma macaxeira esculpida em forma de pênis para dizer: “Aqui está a música de raiz para vocês. Prefeito João Paulo, pode consumir! É macrobiótico!”. Era uma referência à dieta adotada pelo então prefeito do Recife, João Paulo, do PT. E uma crítica ao poder público, que só investia, segundo Chupeta, em artistas de tons mais regionalistas. O show duraria meia-hora, mas a banda estendeu o tempo. Chupeta chegou a vociferar no microfone, sugerindo um delicado “quarenta minutos de cu é rola!”. Cortaram o som e alguém da plateia, indignado com o que viu e ouviu, chamou a polícia.

 

 

A banda foi expulsa do palco. Eu, que estava cobrindo o show, corri para o camarim para perguntar a Fabio o que tinha acontecido. “Cortaram o som e chamaram a polícia. Mas não vi nenhum policial. Uma pena. Adoro homem fardado!”. Nada tão Textículos de Mary como isso!

 

 

Pergunto para Fabio se ele sente falta da vida de artista. “Nem um pouco! Costumo dizer aos meus alunos que eles são minha plateia. O palco é uma droga viciante, mas agradeço o livramento. Entrar no mundo da música profissional foi traumático, pois é um ambiente parecido com um tanque de tubarões. Quanto mais pessoas você explora e descarta, mais sucesso faz. Fiquei dois anos sem ouvir música”.

 

 

Para ter uma ideia da revolução e inteligência que marcaram a carreira do Textículos de Mary, encerro essa coluna com a letra de “Natasha Orloff”, a delirante história de um travesti russo.

 

 

“Natasha Orloff entrou com a bola toda
E deslanchou de sola quando a União desabou
Ante a esse curso neo-liberalista
Que em Capitalista a Ucrânia transformou
Natasha agora vive intoxicada
Topa qualquer parada em que possa lucrar
Sentindo fome aperta a barriga
Em uma cinta liga comprada na C&A
Quaraquacá eu era comunista
De linha Stalinista educada em colégio militar
Agora vendo ideologias
Engarrafadas nesse meu corpinho longilíneo e angular
Porque música de comunista é mal assombro”.

 

 

 

 

Nota do Editor: Diante da dificuldade em encontrar fotos em boa qualidade da banda, a imagem que ilustra o texto foi criada com inteligência artificial, mas, segundo o autor do texto, está bem parecida com o grupo em seus primeiros dias. Sendo assim, que seja!

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *