“Disclosure Day” não é filme de ET

Quando a crítica especializada disparou contra “Disclosure Day”, o novo épico de Steven Spielberg, houve uma grande coincidência nas opiniões: a de que se tratava de mais um “filme de ET” da lavra do diretor. E, pior, ele seria datado, arrastado e com um vilão corporativo sem carisma. É curioso observar como, em plena era da informação, ainda estejamos buscando em um cineasta de oitenta anos as mesmas respostas que ele nos dava quando tínhamos vinte. Quem entrou na sala de cinema esperando a maravilha transcendente de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” ou o afeto puro de “E.T.” saiu frustrado, sentindo-se enganado por um “filme de ET” que não entrega o espetáculo prometido. Mas talvez o erro não esteja na tela; talvez o erro esteja na nossa miopia. Se abandonarmos a expectativa de ver um filme sobre invasão ou contato científico e olharmos para o que Spielberg realmente colocou na mesa, veremos que ele não fez um épico de ficção científica. Ele fez uma autópsia.
O problema de “Disclosure Day” para muitos críticos foi justamente a sua sobriedade. O filme não quer saber da nave, da biologia do alienígena ou de como eles atravessam o espaço-tempo. Ele quer saber do aqui e agora. Ele nos pergunta, sem rodeios, o que aconteceria se a humanidade, dividida e cinzenta como está em 2026, fosse obrigada a encarar a verdade absoluta: a de que não estamos sozinhos no universo. E de como essa revelação implodiria pilares que, até agora, julgávamos inquestionáveis. O filme propõe que a nossa estrutura social — ancorada em uma visão de mundo que coloca o ser humano como o centro do universo e movida por um sistema econômico que só aceita o que dá lucro — não suportaria a luz da revelação.
A escolha de tratar a religião organizada como um muro de contenção não é um ataque gratuito à fé, é muito mais uma observação sociológica. Spielberg aponta que, em tempos de crise, as instituições que deveriam nos guiar tornam-se, na verdade, zeladoras da nossa ignorância. Para o sistema religioso, uma revelação que nos tira do trono de protagonistas da criação está bem longe de ser uma boa notícia a ser celebrada. Ela é o fim do seu monopólio sobre o sentido da vida. É mais cômodo — e lucrativo — gerenciar o medo do que gerenciar a dúvida.
Nesse processo de dissecação, a presença do elenco é fundamental. Emily Blunt, atriz de recursos muito acima da média, tem aqui uma performance convincente como uma mulher que carrega o peso de uma verdade que, quanto mais se revela, mais parece esmagar quem a detém; a atuação de Blunt é o coração que impede o filme de se tornar meramente frio ou intelectual. Ao seu lado, a parceria de Spielberg com David Koepp mostra-se mais madura do que nunca. Koepp, que conhece o DNA do diretor desde “Jurassic Park”, desenha diálogos que funcionam como lâminas, com o objetivo de expor as contradições ideológicas dos personagens. O roteiro de Koepp evita os discursos grandiloquentes, optando por um realismo cínico que permite ao elenco habitar o desconforto de um mundo que, ao ser confrontado com a verdade, prefere se fechar.
E é aqui que entra o personagem de Colin Firth, alvo de tantas críticas por parecer um “vilão clichê”. Ele não precisa de camadas shakespearianas porque ele não é um indivíduo; ele é o burocrata do sistema. O capitalismo de 2026, com sua mutação predatória, não suporta a ideia de algo que não pode ser taxado, patenteado ou convertido em voto. A verdade alienígena é um “ativo de risco” terrível: ela não tem valor de mercado e desestabiliza as fundações do poder. Spielberg sugere, com a clareza de quem já viu quase cinco décadas de cinema, que a nossa elite não teme que os alienígenas nos destruam; eles temem que a humanidade perceba que o seu “modo de vida” é, na verdade, uma prisão de luxo.
Os clichês que incomodaram tanta gente — as salas escuras, os documentos sigilosos, a tensão militar — funcionam como um disfarce. Spielberg os usa para que o espectador se sinta em casa, num terreno conhecido, para depois nos dar o bote. Quando esperamos o momento de redenção spielbergiana, aquele instante em que a música sobe e nos sentimos “melhores”, ele corta a cena. Ele nos entrega a realidade: o caos que o filme pressagia não é causado por uma frota invasora, mas pela nossa própria incapacidade de lidar com algo que não podemos controlar, comprar ou converter.
“Disclosure Day” é amargo porque é honesto. Ele olha para nós, a geração que acreditou que o futuro seria uma sucessão de descobertas gloriosas, e nos mostra o reflexo no espelho: não somos mais os exploradores curiosos de 1977. Somos os gestores de um sistema que se tornou pequeno, medroso e obcecado pelo seu próprio umbigo.
Se você saiu do cinema achando que viu apenas um “filme de ET” mediano, recomendo olhar de novo — não para a tela, mas para as instituições que governam a sua vida. O Disclosure que Spielberg tentou nos mostrar não está lá fora. O filme não fala sobre o que os alienígenas trazem para a Terra; ele fala sobre o que a Terra, em sua teimosia, se recusa a soltar. Spielberg não falhou; ele apenas nos contou uma verdade que, infelizmente, nós não estamos dispostos a ouvir.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
