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Os trinta anos de “Güentando a Ôia”, segundo disco do Mundo Livre S/A

 

O Mundo Livre S/A nasceu in 1984, em Jaboatão dos Guararapes, município da Região Metropolitana do Recife. E, acreditem, era uma banda punk. Seu líder, Fred Zeroquatro, costumava usar alfinete na bochecha naquele início dos anos 1980. Até o dia em que Gilberto Gil lançou a música “Punk da Periferia”. Fred ficou tão indignado com o que considerou um aproveitamento sem precedentes do movimento por parte de Gil, que simplesmente desistiu do punk. Zeroquatro decidiu, então, criar uma sonoridade baseada em seus dois maiores ídolos: Jorge Ben Jor e The Clash. Resolveu colocar guitarra distorcida no samba e cavaquinho no rock, criando uma linguagem absolutamente original.

O problema é que não existia lugar para se apresentar ao vivo, tanto no Recife quanto em Jaboatão. Fred, que passou em primeiro lugar em Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), teve como colega de faculdade ninguém menos do que Xico Sá. Nascia ali uma amizade para a vida toda. E, muitos anos depois, o Mundo Livre S/A se apresentaria, sobretudo, nos lançamentos de livros de Xico. Naquela virada de década, Recife ainda era um deserto cultural, e o Movimento Mangue estava longe de estourar.

Até que, in 1993, a banda foi descoberta por Carlos Eduardo Miranda e os Titãs, sócios no selo Banguela, um braço independente da gravadora Warner. Um ano depois, entravam em estúdio para gravar o genial Samba Esquema Noise, título em homenagem a Samba Esquema Novo, álbum de estreia de Jorge Ben Jor, lançado em 1963. O disco, produzido por Miranda, estourou o orçamento e contou com uma produção supercaprichada, cheia de sobreposições e participações especiais, o que acabou gerando um problema inesperado para o Mundo Livre.

O álbum ganhou tantas modificações em relação à fita demo que a banda simplesmente não conseguia reproduzir aquela parede de som ao vivo. À boca miúda da imprensa paulistana, o grupo ganhou o maldoso apelido de “Deus me Livre S/A”. Curiosidade da época: Otto, percussionista do Mundo Livre, fazia parte de uma das primeiras formações de Chico Science e Nação Zumbi, chegando a tocar com eles na histórica primeira edição do festival Abril pro Rock, em 1993.

Calejados com a experiência complexa do primeiro trabalho, eles optaram por uma produção muito mais crua, direta e fiel ao palco em Güentando a Ôia, o segundo disco, lançado em 1996 e produzido novamente por Miranda, desta vez pelo selo Excelente Discos. O álbum se revelou um petardo do rock feito nos anos 1990. De cara, a audição abre com três pedradas de respeito: “Free World”, “Destruindo a Camada de Ozônio” e “Computadores Fazem Arte”.

“Free World” aposta no casamento perfeito entre o cavaquinho e a guitarra pesada. Sua letra, que cita as linhas “Rio Doce/Piedade” e “Barra de Jangada/Casa Caiada”, só era entendida de verdade pelos locais: tratavam-se dos dois ônibus que faziam o maior percurso da região metropolitana, ligando Olinda a Jaboatão. “Destruindo a Camada de Ozônio”, de levada pesada, conta com a participação especialíssima de Chico Science em uma letra onde Fred canta: “Não espere nada do Centro / Se a periferia está morta / Pois o que era velho no Norte / Se torna novo no Sul”. Aqui é preciso ressaltar a formação de Zeroquatro, um intelectual de mão cheia que continua sendo um dos melhores letristas do país. Em seguida vem “Computadores Fazem Arte”. Embora Chico Science fosse tão fascinado pela composição de Fred a ponto de tê-la gravado antes, no debut Da Lama ao Caos (1994), é aqui que ela ganha sua versão original, pesada e definitiva com o Mundo Livre.

Depois vem a espertíssima “Desafiando Roma”, homenagem ao Subcomandante Marcos em seu auge como líder da revolução zapatista no México. Na sequência, o ouvinte é pego pela psicodélica “A Música que os Loucos Ouvem (Chupando Balas)”, que cita Stanley Kubrick e Andy Warhol. Logo entra a deliciosa “Tentando Entender as Mulheres”, cuja letra irônica despeja os versos certeiros: “Todo homem deveria ter um carro / Ou senão nem precisava ter testículo / De que serve um testículo sem um carro? / Sem um carro o testículo é um saco”. Sem deixar o ritmo cair, o disco emenda com o rockão “Girando em Torno do Sol”.

A faixa mais complexa do álbum atende por “Seu Suor é o Melhor de Você”, marcada pelo andamento firme de um surdo que guia o contratempo da guitarra pesada e do cavaquinho. Na sequência vem “Militando na Contra-Informação”, em que Fred narra, com postura de repórter, o famoso áudio vazado do então Ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, que confessava “não ter escrúpulos” e que “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. O castigo de Ricupero na época? A embaixada do Brasil em Roma. Revoltante…

Mais à frente, o disco entrega a minimalista “Leonor”, com Zeroquatro dividindo os vocais sonolentos apenas com a companhia do cavaquinho, em uma letra eufemística que funciona como uma ode à cocaína. A próxima, “Roendo os Restos de Ronald Reagan”, resgata a primeiríssima fase da banda em um pseudo hardcore veloz.

E chega então a minha preferida do trabalho, “Pastilhas Coloridas”, onde Fred canta as dificuldades de sua adolescência em Jaboatão, lugar que ele chamava de “Ilha Grande” por parecer tão distante do “continente” — como se referia ao centro do Recife. A faixa traz o corajoso e autobiográfico verso: “Amigos nas farmácias / E quando a erva faltava / Qualquer droga era boa”. O fechamento do álbum vem com a faixa-título, “Güentando a Ôia”, permeada por uma guitarra frenética. Para quem não é da região, “Ôia” é uma gíria pernambucana que significa o bico, o trabalho informal, a grana obtida de última hora para fechar o mês. Este foi o último registro do Mundo Livre com Otto na formação, que sairia logo depois para iniciar sua bem-sucedida carreira solo.

O Mundo Livre S/A continua sendo a banda mais intelectualizada do Brasil, dona de uma sonoridade inclassificável que entortou de vez as estruturas da Música Popular Brasileira. Embora nunca tenha desfrutado do sucesso comercial merecido na grande massa, carregando até hoje o rótulo de “banda underground”, sua importância histórica é gigantesca. Para quem quiser se aprofundar nessa trajetória, recomendo a excelente biografia Mundo Livre 4.0 – Do Punk ao Mangue, escrita pelo jornalista Pedro de Luna. Com Fred Zeroquatro celebrando seus 64 anos de idade e uma contribuição imensurável à nossa cultura, só me resta agradecer ao cara, com quem sempre tive uma ótima relação. Salve, Zeroquatro. Salve. Que o Mundo Livre ainda tenha muitos anos de estrada.

Nota do editor: Quando eu produzia e apresentava o programa “Os Argonautas”, na Rádio Kuarup FM, ao lado do meu amigo-irmão Leonardo Salomão, lembro de comprar o “Guentando” na Modern Sound, a preço de ouro. Levei para tocar no programa, era o que a gente fazia, tocava CDs. Tocamos “Free World S/A”, provavelmente. E, segundo consta, fomos o primeiro programa do Rio a tocar alguma coisa do disco. Eu custo a acreditar nisso, mas gosto bastante da ideia.  E isso tudo foi há TRINTA ANOS.

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

3 comentários sobre “Os trinta anos de “Güentando a Ôia”, segundo disco do Mundo Livre S/A

  • Assim que cliquei nessa matéria, corri para o YouTube para conhecer alguma obra musical da banda e ouvi “Meu Esquema”. Gostei muito! É uma música com profundidade musical e uma identidade marcante. Também gostei bastante da matéria. Esse reconhecimento cultural precisa chegar a mais pessoas da nossa geração. Parabéns pelo conteúdo!

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  • Moro em Jaboatão desde 1985 e só agora fico sabendo que a Mundo Livre S/A nasceu aqui. É lamentável que a segunda maior cidade pernambucana, ao longo dos anos não tem investido em cultura. Seus artistas são órfãos de valorização. Para conseguirem trabalhar no mundo das artes, precisam sair da cidade. Interessante a história da banda e a capacidade criativa, crítica e inteligente de realizar trabalhos bacanas.

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  • Ótima matéria! Não conhecia a banda, porém o pouco que li a respeito (e o trechinho que ouvi no final kkkkk) me cativou bastante! Definitivamente vou adicioná-los à minha playlist!

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