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Maria Luiza Jobim chega ao terceiro disco

 

 

Maria Luiza Jobim – Rosa no Céu
25′, 8 faixas
(Das Duas)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Confesso que me surpreendi bastante com o trabalho anterior de Maria Luiza Jobim, “Azul”, lançado há três anos. É um disco solar, carioca, contemplativo e tranquilo, algo que casa perfeitamente com a própria imagem da cantora e compositora, filha mais jovem de Tom Jobim. De lá pra cá, muito mudou na vida de Maria, especialmente o panorama. Morando em Lisboa, ela trouxe para seu novo trabalho, “Rosa no Céu”, esse novo referencial geográfico, usando o tom celeste que, segundo ela mesma disse em seu perfil do Instagram, “aparece logo antes do lusco fusco”. Essa expressão totalmente carioca serve pra descrever o que todos chamam de “noitinha”, “fim da tarde”, “hora do anjo”, ou algo assim. E quando há o choque de massas de ar quente e ar frio, o céu assume essa coloração. Existe no Rio e em outros lugares do planeta, como nas imediações de Lisboa, quando ela, ao lado da amiga Mallu Magalhães, certa feita notou a semelhança cromática. De lá pra cá, ambas trocam fotos de céus rosas em aplicativos de mensagens e, mais que isso, tornaram-se parceiras artísticas, fato refletido nesse álbum. Além de Mallu, Marcelo Camelo, seu marido, produz as oito faixas de integram o álbum, além de dividirem com ela a autoria. O resultado é diferente de “Azul”, mas também tem espaço para beleza, elegância e bom gosto nas referências. Vejamos.

 

Se “Azul”, que tinha produção de Alberto Continentino e da própria Maria Luiza, era diverso em termos de colaborações e presenças, “Rosa no Céu” é totalmente focado na interação do trio composto por Camelo, Mallu e ela própria. A única presença nos vocais é de Chico Chico, que divide com Maria uma versão de “La Javanaise”, de Serge Gainsbourg. Esta, sintomaticamente, é a única faixa que ouvimos e pensamos: “poxa, isso é desnecessário”. Ainda que bem produzida e interpretada, a liga de composições e parceria entre o trio é tão bem resolvida que a presença da canção francesa soa meio fora de contexto. Maria canta em inglês e português ao longo das faixas e se afirma como uma ótima cantora, capaz de uma voz própria, doce e elegante. Aliás, esta é a palavra que a acompanha de forma inapelável – a interpretação dela é elegante, contida ou expansiva nos momentos certos. A simbiose das composições com os arranjos e produção se prova absolutamente natural. O que se ouve é uma sucessão de híbridos pós-bossa nova, mas, assim como outra portadora do DNA do movimento, Bebel Gilberto, Maria Luiza consegue adquirir uma identidade muito própria e muito além de qualquer amarra estética que o sobrenome possa sugerir.

 

Maria também tem talento como compositora. A melhor canção do álbum, “Go Go Go”, com letra em inglês, é totalmente dela. Com ritmo fluido e letra de início de amor, a faixa vai descendo redondo, mansa, com inegável sotaque internacional consolidado, lembrando algo que outro “hermano”, Rodrigo Amarante, fez em seu último álbum, “Drama” (2021). “Portugal”, composta pelo trio, tem percussão mais proeminente e uma pegada acústica que vai crescendo em meio ao avanço da letra – também em inglês – vai narrando a busca por um amor que justifica a mudança de continente (Maria teve um relacionamento com o cantor português Antonio Zambujo). O tom autobiográfico de “Sofá Vermelho”, dela e de Camelo, é uma pós-bossa que vai mapeando aquilo que não mais está, mas que ficou, mesmo assim. O tom é bonito, falando dos indícios que “sei que vai ficar”, como ela mesma diz. Ainda que seja um tema recorrente nas canções pop desde sempre, torná-lo legítimo e belo é sintoma de competência e sinceridade e nada disso falta por aqui. “We Are Young” é de Mallu e Camelo e surge com a mesma unidade estética, porém mais voltada para os elementos acústicos básicos de voz e violão, com uma influência das gravações que Adriana Calcanhotto faria nessa mesma roupagem.

 

O tom muda em “Boca a Boca”, que tem letra em português e sinaliza outra parceria de Maria e Camelo, com uma pegada mais lúdica e afetuosa, dessa vez mostrando a felicidade inevitável de um amor que chega como se fosse a consequência natural de tudo. “Sinais” também vai nesse caminho, também cantada em português e falando sobre o que queremos enxergar sobre algo que pode ser bom, mas ainda não aconteceu. É a velha mania de ver sinais de tudo, como se quiséssemos acalmar a ansiedade do coração. A leveza do arranjo complementa a doçura da mensagem e tudo funciona. E a faixa-título, que fecha o álbum, é bela demais. O arranjo de cordas e a interpretação de Maria sugerem algo que poderia ser de Nara Leão, ou algo assim. A letra é linda, composta por Mallu e Camelo em fina sintonia e com poder descritivo das pequenas coisas, do cotidiano, do dia a dia, como o próprio tom de rosa no céu que surge sem que a gente espere.

 

“Rosa no Céu” é belo, elegante e apropriado. É uma variação interessante e bem-vinda de música brasileira feita com um olhar diferente de elementos que também traduzem realidade e herança daqui. Se não chafurda na realidade nua e crua daqui, pode acenar com uma doçura que tem nos feito muita falta nos últimos tempos.

 

Ouça primeiro: “Go Go Go”, “Rosa no Céu”, “Sinais”, “Sofá Vermelho”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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