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Os dois discos finais do Talk Talk

 

 

Quem acompanha os artistas revirando as prateleiras da Amoeba Music no famoso quadro What’s In My Bag? já sabe o que esperar: o prazer de descobrir discos raros, relíquias esquecidas e as revelações curiosas que moldaram a identidade de cada músico. O programa sempre surpreende. Uma das edições marcantes não foi diferente, quando Nick Harmer e Ben Gibbard, do Death Cab for Cutie, sacaram da bolsa uma cópia de “Spirit of Eden”, lançado pelo Talk Talk em 1988. Harmer trouxe um bastidor revelador: independentemente das mudanças de formação na banda de Seattle, os dois últimos álbuns do Talk Talk sempre foram uma unanimidade absoluta entre eles. Para Gibbard, aquela dinâmica de abrir espaço entre as notas, permitindo que o silêncio respirasse antes do estouro da bateria, virou inspiração certa para as composições do próprio Death Cab em começo de carreira e ao longo do tempo. O comentário resume bem o tamanho do mistério: como um grupo que nasceu sob os holofotes do tecnopop comercial britânico se transformou num farol essencial de todo o rock alternativo e do pós-rock subsequente?

 

 

Para compreender a extensão dessa guinada, é preciso lembrar o ponto de partida. No início dos anos 1980, Mark Hollis era mais um rosto nos videoclipes coloridos da EMI, dividindo as paradas da New Wave com bandas como o Duran Duran. Dessa fase áurea, ficaram os hinos de pista como “Such a Shame” e a onipresente “It’s My Life” — que o No Doubt resgataria décadas mais tarde. Só que a futilidade das paradas de sucesso sufocava as aspirações artísticas de Hollis. Em uma atitude rara na história da indústria, ele utilizou o crédito financeiro e artístico conquistado com o disco lançado no auge do sucesso da banda, “The Colour of Spring” (1986), para comprar tempo e isolamento. Desse divórcio com o mercado nasceram “Spirit of Eden” (1988) e “Laughing Stock” (1991), obras fundamentais que ajudaram a implodir a própria estrutura da canção pop muito antes de bandas hoje veneradas fazerem o mesmo.

 

A criação de “Spirit of Eden”, realizada em uma igreja desativada na Inglaterra, ganhou contornos de lenda. Hollis e o produtor Tim Friese-Greene se fecharam no estúdio por mais de um ano, trabalhando na escuridão, iluminados apenas por velas e lâmpadas a óleo. O método confrontava a lógica tecnológica da época: instrumentistas de jazz e de música clássica eram convidados para horas de improvisação livre sobre bases minimalistas. Depois, em um exaustivo trabalho de montagem analógica, Hollis cortava os excessos das fitas, organizando um mosaico onde o vazio pesava tanto quanto a nota.

 

O choque da gravadora ao ouvir o resultado foi inevitável. Sem refrões ou concessões radiofônicas, a abertura “The Rainbow” iniciava o disco com um sopro abstrato que remetia ao Miles Davis de In a Silent Way, desaguando em guitarras fortes e inesperadas. O verdadeiro desastre, sob a ótica da EMI, veio logo após o lançamento. Diante de um álbum densamente atmosférico e complexo, a banda avisou que não faria nenhuma turnê de divulgação — Hollis considerava impossível reproduzir aquela dinâmica e o silêncio dos arranjos em palcos barulhentos de arena. O pânico comercial tomou conta dos executivos. A gravadora, em um movimento desesperado para reaver o investimento, chegou a processar o Talk Talk, alegando nos tribunais que “Spirit of Eden” não era material comercialmente satisfatório”. A audácia corporativa de processar um artista por excesso de arte chocou o meio musical, mas a justiça arquivou o processo. Sentindo que a postura da major sufocaria qualquer passo futuro, o empresário da banda conseguiu, após uma desgastante batalha de litígio, a rescisão e o encerramento definitivo do contrato com a EMI. A banda estava falida, mas finalmente livre.

 

 

Foi aí que entrou em cena a Polydor. Percebendo que o Talk Talk já não pertencia ao universo das grandes ligas do pop de consumo rápido, a editora propôs um contrato de distribuição através de uma das suas marcas mais lendárias e respeitadas: a Verve Records. Fundada nos anos 1940 para abrigar gigantes do jazz como Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Billie Holiday e, mais tarde, o experimentalismo radical do Velvet Underground, a Verve era o único lugar daquele tempo onde o radicalismo de Mark Hollis faria sentido. Para a editora, assinar com o Talk Talk era uma declaração de prestígio e vanguarda. Hollis assinou um contrato de longo prazo com a Polydor/Verve e, em entrevistas à imprensa britânica na época, não escondeu o alívio. Ele chegou a declarar que aquela era a situação ideal com que sempre sonhara: um lugar onde o compromisso estabelecido era, simplesmente, entregar o melhor trabalho que conseguisse fazer, sem pressões de calendário ou exigências de formatos. O ambiente do jazz deu-lhe a blindagem necessária.

 

 

O passo seguinte conseguiu ser ainda mais radical, materializado no lançamento de “Laughing Stock” em 1991. Se o trabalho anterior tateava uma atmosfera espiritual, este aqui era puro expressionismo. “Myrrhman” abre o álbum apenas com o chiado de um amplificador aberto e cordas tensas que se movem devagar, servindo de antessala para o minimalismo de “New Grass”, composição guiada por uma levada de bateria circular e um órgão que dita o ritmo da faixa. No extremo oposto, “Ascension Day” joga com o peso bruto da bateria de Lee Harris antes de ser engolida por um corte repentino e seco de silêncio. Hollis provava que a ausência de som podia carregar uma intensidade mais violenta do que qualquer distorção. Como o tempo provaria pouco depois, ele estava enxergando o futuro.

 

O rastro deixado por esse despojamento redefiniu a música alternativa e deu origem ao que o jornalista Simon Reynolds batizou de pós-rock ao resenhar o grupo Bark Psychosis nos anos 1990. Sem o caminho desenhado por Hollis, os americanos do Tortoise não teriam a audácia de cruzar jazz, eletrônica e rock em um álbum fundamental como Millions Now Living Will Never Die. Essa linhagem de desconstrução bateu direto no Radiohead na virada do milênio. A decisão de Thom Yorke de abandonar os hinos de arena de The Bends para abraçar os ambientes eletrônicos e abstratos de OK Computer e Kid A é puro aprendizado com o Talk Talk terminal. O clima enevoado do Sigur Rós e a guinada sonora que o Portishead apresentou em seu terceiro álbum vêm dessa mesma escola de desapego comercial.

 

No fim das contas, o maior trunfo do Talk Talk foi saber a hora de sumir. Após colocar o ponto final em “Laughing Stock” e entregar um registro solo em 1998, Mark Hollis se retirou em definitivo da vida pública, alegando que não fazia sentido continuar criando sons quando o silêncio já dizia tudo. Sua partida em 2019 só deu contornos de lenda a um homem que preferiu o isolamento à repetição. Lembro-me bem do impacto daquela notícia; o obituário e a análise sobre o falecimento de Hollis foram um dos primeiros textos a ir para o ar na Célula Pop, registrando em tempo real o luto da música e celebrando o legado do artista. “Spirit of Eden” e “Laughing Stock” continuam imensos, instigantes e necessários exatamente porque ignoraram as regras de seu próprio tempo. Eles têm uma frequência temporal própria, lembrando que a grande música, de vez em quando, precisa esquecer o consumo rápido para voltar a ser o que sempre deveria ter sido: um mistério profundo. Estes dois trabalhos são discoteca básica obrigatória para todo mundo que se arvora a falar ou pensar a música de um jeito mais sério.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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