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O Gênio do Crime – imortal na livraria, ótimo na telona

 

 

 

Minha história com O Gênio do Crime começou lá em 1980, quando o livro entrou na minha vida por causa de uma leitura recomendada pelo Colégio Santo Agostinho. Eu ainda guardo com carinho a mesma edição, comprada na extinta Entrelivros, de Copacabana, com as páginas amareladas pelo tempo e a capa gasta de tanto ler e reler. Ao longo dos anos, me peguei voltando a essa história várias vezes, em diferentes momentos da vida, e a sensação nunca mudou: a trama sempre foi absolutamente adorável. Há livros que passam pela nossa trajetória e a gente esquece, mas a obra-prima de João Carlos Marinho fincou bandeira na minha imaginação e na de milhões de brasileiros, mantendo-se tão viva e divertida hoje quanto era naquele início da década de 1980.

 

Quando o livro foi lançado, em 1969, a literatura para jovens no Brasil era meio sem graça, cheia de lições de moral e histórias bobinhas. Marinho, que era advogado, resolveu chutar o balde e fazer algo totalmente diferente. Ele trouxe para a história o cenário das cidades grandes, a malandragem saudável das ruas e um ritmo de investigação de verdade. O sucesso foi tão gigantesco que o livro ganhou dezenas de edições e vendeu milhões de exemplares. O segredo do autor foi entender que a garotada não queria sermão; queria ação, mistério, perigo de verdade e, principalmente, o direito de resolver as coisas sem depender dos adultos.

 

A premissa que me conquistou na infância, e que continua genial, é a febre de um álbum de futebol. Na história original, a cidade de São Paulo para por causa de um concurso que dá prêmios incríveis para quem completar o álbum. Só que duas figurinhas específicas — as famosas “Raras” — simplesmente não aparecem em lugar nenhum. É aí que o Seu Tomé, o dono honesto da fábrica de figurinhas Escanteio, percebe que caiu em um golpe: uma quadrilha perigosa montou uma fábrica clandestina perfeita, inundando as bancas com cópias falsas e quebrando o negócio da família dele. Com pena da situação do Seu Tomé, um grupo de crianças do bairro resolve usar a cabeça e a coragem para desmascarar os bandidos. São eles: Bolachão, Edmundo e Pituca, acrescidos de Berenice, que entra para a turma no decorrer da história. O livro dá uma aula de como prender a atenção do leitor usando a lógica. As pistas não caem do céu; os meninos usam matemática, observação de rua, mapas e planos bem bolados de espionagem. Os riscos eram reais, com direito a perseguições de carro, de ônibus, sequestros no meio da noite e esconderijos assustadores. No comando de tudo, escondido nas sombras, estava o Gênio do Crime, um vilão misterioso, frio e extremamente inteligente que desafiava a molecada a cada passo.

 

Cinquenta e sete anos depois do lançamento do livro, essa mesma energia eletrizante chega aos cinemas em uma produção que acertou em cheio no alvo: trazer a ação direto para os dias de hoje, aproveitando o clima e a empolgação da Copa do Mundo de 2026. Produzido pela Boutique Filmes, em parceria com a Globo Filmes e distribuição da Paris Filmes, “O Gênio do Crime”, longa-metragem dirigido por Lipe Binder e roteirizado por Ana Reber atualizou as ferramentas da garotada (como celulares e internet) sem perder o coração e a amizade inocente da história original.

 

 

A grande sacada do filme foi atualizar o motivo de toda a confusão. Se em 1969 a molecada sofria para encontrar os cromos de lendas como Rivellino, a engrenagem que move o mercado ilegal e a obsessão dos colecionadores no filme é a figurinha ultra-rara de Vinicius Júnior. Essa troca foi perfeita. Ela joga a narrativa para o centro dos dias de hoje, conectando o mistério ao tamanho e ao sucesso que o Vini Jr. tem no futebol mundial. O desejo de completar o álbum para ganhar ingressos para a grande final do torneio transforma a brincadeira em um suspense veloz pelas ruas de São Paulo. E o Instituto Vini Jr também participa da produção do longa.

 

Para dar o ritmo que o cinema de hoje pede, o elenco mirim foi construído valorizando a inteligência e o carisma de cada um, deixando de lado alguns estereótipos que ficaram antigos:

João (Francisco Galvão): O líder do grupo. O filme fez uma homenagem linda ao dar a ele o nome do próprio autor do livro, João Carlos Marinho. João deixou de ser apenas o “menino comilão” dos livros para se firmar como o cérebro do quarteto. Suas deduções são rápidas, seus planos são calculados e ele é a calmaria do grupo na hora do perigo.

 

Berenice (Bella Alelaf): Se no livro de 1969 as meninas às vezes ficavam em segundo plano na hora do aperto, o filme de 2026 corrige isso com categoria. Berenice é gigante. Corajosa, com um faro de detetive invejável e dona de um humor afiado, ela divide o comando das ações de igual para igual, liderando invasões arriscadas e quebrando qualquer preconceito.

 

Edmundo (Samuel Estevam): O braço forte e dinâmico da turma. Interpretado com muita energia pelo jovem Samuel Estevam, que usou sua paixão real pelo futebol de rua nas telas, Edmundo é o garoto que traz a malandragem do drible, a velocidade e a esperteza das calçadas para dentro dos planos de espionagem.

 

Pituca (Breno Kaneto): O elo sentimental e sensível do grupo. A grande graça do personagem no filme é que, apesar de parecer meio distraído ou “voando”, ele tem uma memória fantástica para dados de futebol, sendo capaz de recitar escalações inteiras de cabeça nos momentos mais tensos para salvar a pele dos amigos.

 

O filme também chama a atenção pelo cuidado visual. A direção de arte de Thales Junqueira e a fotografia urbana de Pedro Sotero transformaram São Paulo em um personagem vivo, usando mais de 30 locações reais na capital paulista para fugir daquela cara artificial de estúdio fechado. O grande destaque vai para as cenas gravadas no parque gráfico real do jornal O Estado de S. Paulo. Ver as máquinas industriais gigantescas funcionando na tela trouxe um realismo espetacular para a fábrica de figurinhas do Seu Tomé, dando peso e seriedade à ameaça da pirataria.

 

No elenco adulto, o time de peso garante o equilíbrio entre o drama e a comédia. Ailton Graça tem atuação emocionante como Seu Tomé, mostrando perfeitamente o desespero do trabalhador honesto vendo seu negócio ser destruído pelo crime. Por outro lado, o clássico detetive Mister John Smith Peter Tony original, transformou-se em Mr. Mistério, ganhando uma repaginada bacana nas mãos de Marcos Veras. O investigador escocês de terno e gravata do livro deu lugar a um youtuber e podcaster excêntrico e paranoico, especializado em canais de crimes reais e teorias da conspiração na internet. Ele funciona como o alívio cômico perfeito e ajuda a molecada com a parte tecnológica.

 

Misturando redes sociais e transmissões ao vivo com aquele espírito gostoso de aventura clássica que lembra filmes como “Os Goonies”, o longa se consolida como um golaço nos cinemas este ano. No fim das contas, seja segurando a minha velha edição de 1980 do Colégio Santo Agostinho ou acompanhando o ritmo acelerado nas telas em 2026, O Gênio do Crime prova que sua história é eterna. A obra resiste ao tempo porque fala de coisas que tecnologia nenhuma substitui: o valor real da amizade, a coragem de fazer o que é certo e a magia de descobrir que o maior mistério do mundo pode começar em um pacotinho de figurinhas comprado na banca da esquina.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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